A sustentável leveza de um monge camaronês

No final do ano passado, o mundo viu mais uma imagem forte registrada na África:

Cerca de 900 pessoas, várias idosas e crianças, se amontoavam em caminhões do exército camaronês, após este vencer um conflito feroz contra radicais islâmicos do Boko Haram – para inúmeros especialistas, a gangue terrorista mais sanguinolenta do planeta, baseada na vizinha Nigéria.

De maioria cristã, Camarões é uma das nações mais pacíficas da África, ainda que governada desde 1982 pelo mesmo Paul Biya.

Localizada no centro do continente, fica ‘no gatilho’, em uma analogia do mapa africano com armas de fogo.

Um país com mais de 250 grupos linguísticos, palco de invasões alemãs, francesas e inglesas, nos últimos dois séculos, e de um sem número de tradições culturais – entre elas, a makossa, bem conhecida dos fãs de Chico Science & Nação Zumbi, e nos Estados Unidos, como escutamos em Wanna Be Startin’ Something, de Michael Jackson.

O clássico “Ma ma se, ma ma sa, ma ma coo sa”, adaptado na voz do Rei do Pop, vem do tema Soul Makossa, do saxofonista camaronês Manu Dibango.

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Filho de um pequeno agricultor e uma professora do Estado, Dada Nirvedananda Avadhuta tem quatro irmãos; desde 1987 ele não volta à Camarões: “Se eu visitar minha família, vou chorar, eles também […]. Eu tenho sentimento. Isso vai me deixar fraco”.
A cena das vítimas do fanatismo religioso destoa do país alegre, de rica beleza natural, com vastas florestas, planícies e cadeias montanhosas.

Montanhas das quais, no final dos anos 1970, saiu um jovem encantado com o que ouvira de um monge filipino e uma monja sueca.

Seus pais torceram o nariz para a ideia de ver o filho abandonar a prática espiritual dos ancestrais e ganhar o mundo em missão humanitária.

Após viagens à Índia, em 1989, ele também foi ordenado monge da Ananda Marga (O caminho da bem-aventurança, em hindu), organização sócio espiritual, cujo lema é Autorrealização e Serviço à Humanidade.

Na manhã de ontem (05), tanto tempo depois de sair de casa, Dada Nirvedananda Avadhuta contou suas histórias para este Substantivo Plural, na esteira de uma temporada de quase um mês em Natal para ministrar palestras e intercambiar experiências místicas.

São dezesseis anos de Brasil, com bom domínio da língua portuguesa, e nenhum retorno a Camarões.

“A família do monge é universal. Deixei Camarões de vez em 1987. Para você amar os outros, precisa dessa renúncia. Não vou falar que é radical, mas a yoga quer que você veja o mundo como universal mesmo, amando sua família também, mas sabendo que ela faz parte de uma grande família. Esse apego, às vezes, não favorece essa universalidade. Se eu visitar minha família, vou chorar, eles também, ‘Fica aqui’. Eu tenho sentimento. Isso vai me deixar fraco. Vou ficar bem com eles, mas vou deixar de atender outras pessoas. É norma. Na Igreja Católica tem isso também, com monges e alguns padres”.

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Nkongsamba fica na região oeste de Camarões, entre dois picos com mais de dois mil metros de altitude; com cerca de 22 milhões de habitantes e um área de 475 mil Km², país é governado desde 1982 por Paul Biya; ao contrário da vizinha Nigéria, é um dos mais pacíficos do continente

Origem: África Central

Dada é natural de Nkongsamba (foto), cidade com 120 mil habitantes, a 820 metros acima do nível do mar – fundada nos estertores do domínio alemão, que durou da penúltima década do século XIX até meados da Primeira Guerra Mundial.

O nome verdadeiro do monge é mantido em segredo, pois uma vez convertido na yoga indiana, surgiu um novo ser.

Ele tem 63 anos de idade, dez a mais do que a expectativa de vida de um homem em sua terra natal.

Formado em economia, filho de um pequeno agricultor e de uma professora, tem quatro irmãos e um batismo católico no currículo – pouco mais da metade dos camaroneses são cristãos; enquanto islâmicos e adeptos de religiões nativas respondem pelo restante da população.

“A África foi dividida arbitrariamente”.

Caso emblemático dessa partilha colonialista é Ruanda, terra dos gorilas e de um dos maiores genocídios que se tem notícia entre Vênus e Marte – especulam em 800 mil mortos, a maioria a golpes de facão, em meros três meses, no ódio tribal de tutsis e hutus.

Mas voltemos a Dada e Camarões, país nomeado por um navegador português, impressionado com a abundância do crustáceo no estuário do rio Wouri, no Século XV.

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“Você vai entender muito mais praticando. O conhecimento intelectual não é suficiente. Ele é para te guiar, para você se questionar sobre o que está fazendo, mas a descoberta da yoga é mesmo interna”; “[…] Estamos aqui para servir. Yoga é uma ferramenta para se espiritualizar. Somos seres espirituais, mas, não, espiritualizados. Cada pessoa tem essa semente, esse potencial para desenvolver sua espiritualidade”
A partir de Nkongsamba, sua família migrou para Douala e Yaoundé, as duas principais aglomerações urbanas de Camarões, com mais de 2,5 milhões de residentes – esta a capital administrativa.

Até que ele teve contato com os ensinamentos dos monges estrangeiros supracitados.

Aquilo o mudaria para sempre.

“Senti a vibração, uma sensação diferente. Vi o mundo objetivamente diferente, a natureza, os animais, as montanhas, aquilo me trazia uma visão e uma alegria muito diferente”.

Familiares só digeriram a notícia de que partiria para a Índia ao observarem mudanças comportamentais positivas no jovem economista.

“O conhecimento vem através de suas práticas. Você vai entender muito mais praticando. O conhecimento intelectual não é suficiente. Ele é para te guiar, para você se questionar sobre o que está fazendo, mas a descoberta da yoga é mesmo interna”.

Estudos, meditações, mudanças alimentares, exercícios físicos, trabalhos filantrópicos, uma série de fatores o habilitaram como missionário de uma cultura milenar.

Sua transferência para a América do Sul veio na sequência. 

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Dada morou nas três Guianas, antes de chegar ao Brasil, 16 anos atrás, tempo em que detectou diferenças na receptividade entre brasileiros e africanos

Vegetarianismo e brasilidade 

A Ananda Marga foi fundada em 1955 por Prabhat Ranjan Sarkar (1921-1990), conhecido pelo nome espiritual Shrii Shrii Ananda Murti.

É um dos responsáveis pela filosofia do neo-humanismo, calcada na saúde, paz interior via meditação, posturas, conduta moral e dieta natural adequada.

A proposta é beneficiar toda a humanidade – sem dízimo, obediência a um livro especifico ou adorações a estátuas.

Se na África, a dieta à base de ervas, raízes, cascas de árvores, sementes, massagens, mas também exorcismos, faz parte de um ritual místico, na yoga o vegetarianismo funciona como dínamo da proposta.

“Você precisa criar um tipo de célula que receba a energia espiritual, porque a espiritualidade é uma energia. Então, você precisa ter células adequadas para receber aquilo. Senão você não vai sentir nada. Vai meditar, mas não vai ter força para continuar. Seu corpo renova as células diariamente e você vai sentir mais a espiritualidade. A carne estimula pensamentos que não são positivos. Qualquer médico moderno, hoje, com pacientes de câncer ou do coração vai dizer para ele deixar de comer carne vermelha. A dieta vegetaria tem o lado saúde e tem o conceito moral. Um animal não quer morrer. Mesmo uma mosca foge com qualquer movimento, tem instinto de preservação. E tem o conceito ecológico também. Para criar um boi precisa de espaço, de uma quantidade muito grande de água”.

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Aos 63 anos, mora em Belém do Pará e viaja pelo Brasil em ‘missão de paz’

Hoje Dada mora em Belém do Pará.

Costuma viajar pelo Brasil custeado por amigos ou por campanhas promovidas entre frequentadores de suas sessões.

No Patropi, algo como um purgatório da beleza e do caos, ele, sem querer, refuta a máxima de que somos um povo amigável, receptivo – ou, pelo menos, de como gostamos de nos enquadrar.

“Aqui no Brasil a pessoa gorda ou baixinha é discriminada. Aqui tem muito mais discriminação física. Pequenos detalhes, como quem não tem cabelo liso, já descriminam. Na África não tem isso”.

Suas palavras sobre os 16 anos vividos no cotidiano brasileiro se estendem ao desperdício de um patrimônio histórico executado já na Descoberta.

“Ser genial não é conhecer fórmula de matemática ou compor músicas sinfônicas. Os índios fizeram coisas incríveis. Por exemplo, tem a maniçoba. Aquilo é venenoso, mas eles conceberam uma maneira de tirar o veneno e comer. Tinham que levar um Nobel de química. O Brasil precisa incorporar essa cultura indígena, o elemento africano, os japoneses, não só os europeus. É bom mesclar tudo isso”.

Caminhos alternativos 

Como um produto de exportação, a beleza da mulher brasileira ganhou novos contornos, de uns anos para cá.

A chegada da onda fitness, com seus corpos de baixa adiposidade e músculos sobressalentes criou um padrão estético capaz de enlouquecer muita gente à procura de adequação nessa linhagem.

Saúde ou pura padronização da silhueta?

Na corrida pela perfeição atlética, academias oferecem uma gama de serviços, dentre os quais a yoga entra no pacote desintoxicante, como um elixir para os males da urbanidade.

“O yoga não é apenas aquilo que o pessoal faz na academia, só posturas, ginásticas. Não. É algo mais profundo. A parte física é muito importante para crescimento espiritual, por que o corpo é o templo da alma. Se a base, que é o corpo, é fraca, se é machucado, maltratado, o crescimento espiritual será difícil. Mas o problema da academia é que o pessoal não pratica para melhorar sua meditação, fazer uma viagem interior. Pratica pra saúde, fim estético. Mas mesmo praticando na academia, ela pode controlar suas emoções, o estresse”.

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Mais do que uma prática física ou de cunho estético, yoga tradicional praticada pelo monge Dada Nirvedananda Avadhuta traz raízes indianas e valoriza o poder meditativo em busca da paz de espírito

Do menino de Nkongsamba, ao senhor de túnica e turbante laranja, cores que representam a renúncia e o serviço na yoga tradicional, um lastro de bondade e otimismo foi deixado pelo monge Dada Nirvedananda Avadhuta.

Ao término da entrevista, o aperto de mão e o sorriso generoso, em meio ao verde luxuriante de uma praça em Potilândia, nos faz acreditar em seus ensinamentos como algo testado em tantos anos de altruísmo e abnegação.

“Praticar a espiritualidade é viver, buscar a paz interna, amar ao próximo, sempre estar pronto para ajudar as pessoas. Estamos aqui para servir. Yoga é uma ferramenta para se espiritualizar. Somos seres espirituais, mas, não, espiritualizados. Cada pessoa tem essa semente, esse potencial para desenvolver sua espiritualidade. Isso não é religião, mas uma maneira de viver com generosidade, respeito, independente da raça, do gênero, da religião”.

Fotografias: John Nascimento

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Tânia Costa 9 de Abril de 2016 15:48

    Maravilhosa entrevista. Recebi de um amigo via wathsapp post sobre sua vinda a Natal. Não sabia nada sobre ele e não me interessei. Se tivesse lido essa matéria antes… Mas daqui para frente esse nome nunca mais me passará desapercebido por seus valores e ensinamentos … Parabéns Conrado por suas entrevistas e matérias sempre tão plurais. Isso prova sensibilidade

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