Suzana Amaral defende cinema de autor

Por Gabriela Longman
FSP

Mesmo antes de lançar seu “Hotel Atlântico”, em 2009, Suzana Amaral sabia que o filme era difícil.

Ainda assim, esperava um público um pouco maior do que os módicos 6.000 espectadores alcançados pela bilheteria brasileira.

A partir desta semana, com o lançamento do título em DVD, ela espera atingir outro tipo de audiência, “mais mobilizada por suas próprias escolhas”. Menos pautada, em suma, pela agenda e pelos interesses dos exibidores.

“É um projeto ousado, e eu tinha consciência de que a decodificação não ia ser muito fácil. Apesar de o título dar a impressão de um filme leve, não tem nada de leve, seu tema é espinhoso”, disse à Folha a diretora, de 79 anos.

Elogiado no Festival de Toronto, vencedor do melhor filme de ficção no Festival de Lima, “Hotel Atlântico” acompanha um ator desempregado (Julio Andrade, de “Cão sem Dono”) que parte de uma cidade sem nome em direção ao interior do país.

Espécie de “road movie” existencialista, o roteiro é pontuado por encontros e desencontros entre o protagonista errante e a morte.

Baseado no livro homônimo de João Gilberto Noll, “Hotel Atlântico” é o terceiro longa da diretora, que sempre trabalha com adaptações da literatura.

Estreou com “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, que lhe valeu um prêmio no Festival de Berlim em 1986 (melhor atriz para Marcélia Cartaxo). Filmou ainda “Uma Vida em Segredo” (2001), baseado no romance de Autran Dourado.

Questionada sobre jovens que admira, mencionou dois atores que recentemente estrearam na direção: Matheus Nachtergaele, com “A Festa da Menina Morta” (2008), e Philip Seymour Hoffman, com seu “Vejo Você no Próximo Verão” (2010).

Segundo ela, os dois filmes mereciam muito mais atenção por parte dos distribuidores e da crítica.

OUTRO CINEMA

O cinema de autor, experimental e ousado, atravessa dificuldades, na opinião da diretora. Todas as etapas do sistema –produção, distribuição, veiculação na imprensa– tendem a favorecer produções comerciais de fácil consumo, afirma.

“Isso é ruim para o cinema. Ruim para a arte cinematográfica”, avalia, depois de levar quatro anos para captar o que define como uma “merreca” –“Hotel Atlântico” custou R$ 2,5 milhões.

Em plena atividade, a diretora contou ainda que está dando entrada em um novo projeto na Ancine, mas que ainda é “cedo demais” para falar dele.

Tudo leva a crer que se trata de uma versão cinematográfica do primeiro livro de Clarice, “Perto do Coração Selvagem”, projeto que há anos guarda na cabeça.

Questionada, ela não responde. Diz apenas que está correndo atrás para viabilizá-lo o quanto antes. “Não dá para esperar. Eu não tenho mais 20 anos.”

HOTEL ATLÂNTICO

DIREÇÃO Suzana Amaral

DISTRIBUIÇÃO Lume Filmes

QUANTO R$ 39,90

CLASSIFICAÇÃO 14 anos

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