Svetlana Alexiévich, a documentarista do fracasso da utopia soviética

Por Ignacio Ortega
EFE – O ESTADO DE SÃO PAULO

A escritora bielorrussa Svetlana Alexiévich, escolhida nesta quinta-¬feira, 8, como o Prêmio Nobel de Literatura 2015, é uma mestre da reportagem literária, gênero no qual relata com toda a crueza o fracasso da utopia soviética. “O homem soviético não desapareceu. É uma mistura de prisão e creche. Ele não toma decisões e simplesmente está a espera do acordo. Para essa classe de homem, a liberdade é ter vinte tipos de salsicha para escolher”, disse à EFE ao receber o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães, em 2013.

À imagem e semelhança de uma arqueóloga, Alexiévich mergulha com a ajuda de centenas de entrevistas nos acontecimentos mais traumáticos que marcaram a vida do “homo soviéticus”, como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Afeganistão, a catástrofe de Chernobyl e a desintegração da URSS. Ela não fica ancorada no passado, mas documenta de maneira muito crítica o caminho que foi tomado desde 1991 por países como a Rússia, a cujo presidente, Vladimir Putin, acusa de levar seu país à era medieval com seu “culto à força”.

De pai bielo¬russo e mãe ucraniana, Alexiévich nasceu em 31 de maio de 1948 no oeste da Ucrânia, e logo sua família se mudou para a vizinha Bielo¬Rússia. Trabalhou como professora de história e de língua alemã, ainda que logo optou por se dedicar a sua verdadeira paixão, a reportagem, e, em 1972, se licenciou da Faculdade de Jornalismo de Minsk e exerceu a profissão em diversos jornais de seu país. Seu primeiro livro, War’s Unwomanly Face (algo como A Guerra não Tem Rosto de Mulher), de 1983, lhe custou uma dura repreensão das autoridades soviéticas, que a acusaram de naturalismo e pacifismo, críticas que naqueles tempos impediram a publicação.

Ainda que tivesse ingressado na União de Escritores da União Soviética em 1984, não pode publicar até a chegada da Perestroika, em 1985, com o primeiro livro da série O Homem Vermelho, A Voz da Utopia. Traduzida em mais de 20 idiomas, a obra narra o incomensurável custo da vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra. Apesar de a maioria dos soldados soviéticos ser composta por homens, cerca de um milhão de mulheres serviram no Exército Vermelho, e elas sofreram tanto na frente de batalha quanto na retaguarda, como mães, filhas e irmãs.

Neste mesmo ano, Alexiévich publicou também o livro Últimos Testemunhos, relatos que foram incensados pela crítica como precursores da “nova prosa bélica”, e que recolhem as vozes daqueles que viveram a Guerra como crianças, entre 6 e 12 anos. A Guerra do Afeganistão, acontecimento que precipitou a desintegração soviética, é a protagonista de As Crianças de Zinco (1989), mas desde o ponto de visto dos veteranos e das mães dos mortos no país centro¬asiático.

Para escrever essa obra, Alexiévich dedicou quatro anos viajando pela União Soviética, visitando o Afeganistão, mas sua publicação esteve rodeada pela controvérsia, já que a escritora foi acusada de profanar a memória dos heróis da guerra. Uma vez consumada a queda da URSS, a escritora deu uma nova roupagem a sua investigação sobre o fracasso da utopia comunista com o livro Enfeitiçados pela Morte, uma reportagem literária sobre o suicídio daqueles que não suportaram o fracasso do mito socialista (1994).

Vozes de Chernobyl (1997) documenta as vivências orais sobre o trauma da maior catástrofe nuclear da história da humanidade, e que manifestou a ameaça que o falido projeto soviético representava para o resto do mundo. Alexiévich encerrou o ciclo sobre o “homo soviéticus” com Tempo de Segunda Mão, publicado em 2013, ano em que também esteve entre as favoritas ao Nobel. Em sua opinião, o título desse livro alude ao fato de que os soviéticos vivem um tempo emprestado, já que não estavam preparados nem para a Revolução Bolchevique, nem para a Perestroika, nem para a pesada carga de liberdade que trouxe a queda do regime comunista.

“O homo soviéticus nunca teve a experiência da liberdade ou da democracia. Acreditamos que era somente derrubar a estátua de (o fundador da KGB, Félix) Dzherzhinski e seríamos Europa. A democracia é um trabalho duro que leva gerações”, indicou. A escritora rememora o velho debate entre Alexandr Solzhenitsin ¬ “o campo de trabalho faz o homem mais forte” ¬ e Varlam Chalámov, que dizia que “o campo destrói o homem, já que ao sair de lá não pode continuar vendo, pois crê que o mundo inteiro é um gulag”.

Os interlocutores de Alexiévich estão sujeitos por um profundo “sentimento derrotista”, não tanto pela decepção que supôs a queda da URSS, mas sim pelo fim de um grande império. Comparada sempre com Solzhenitsin e com o polonês Ryszard Kapuscinski, a bielo¬russa, autora de três peças teatrais e de 21 roteiros para o cinema, prepara agora um novo romance sobre um tema que se distancia do seu “ciclo vermelho”: o amor.

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