Sylvia Beirute lança o seu primeiro livro de poemas

Por Geraldo Xavier

Uma Prática para Desconserto (4Águas, 2011, Olhão, Portugal) é o título do primeiro livro de poemas da poetisa portuguesa Sylvia Beirute.

Trata-se de um livro intuitivo e que permite uma interpretação lata no que concerne à poesia que contém. Os poemas, na senda de poetas da linguagem (Manoel de Barros, Al Berto, etc) são feitos de alheamento, descontentamento, desilusão. As práticas que ele contém são como que desconstruções do mundo. E este efeito é tanto conseguido pela elegância dos versos individualmente considerados, como por tudo aquilo que é implícito à própria literalidade do texto.

O livro começa com um deslumbrante “Aviso” (pg. 7) que explicita a relação entre poeta e leitor, leitor e emoções. À semelhança dos restantes poemas, este em particular demarca os limites da palavra, evoca-lhe os poderes, e, pela forma exemplar como acaba, demonstra o poder do silêncio em confronto com palavras ditas em qualquer lugar ou situação, palavras que, emboram possuam etilomologicamente um conteúdo, podem perder o seu sentido naquele momento, naquela condição.

O livro é percorrido por uma atmosfera por vezes surrealizante, pela linguagem usada, e pelos ambientes que aparecem recriados. Faz sonhar pensar-se num amor sem corpo (pg. 19), em cabelos à noite (pg. 16), no pai do Tango, Astor Piazzolla, feito em açúcar (pg. 63). Estes são alguns dos exemplos das perspectivas do livro. Esta obra poética não parte, muitas vezes, do quotidiano comum. Não se limita a retratar o que vê, como muitos o fazem.

Antes é criadora de realidades, criadora de mundos (como a própria poetisa já disse). A partir desse ponto, tudo o que há de humano se desenrola, e a poesia, a grande poesia em língua portuguesa, sempre vence.

TRÊS POEMAS:

AMO-TE ASSIM SEM CORPO

amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

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ALLEN GISNBERG INDUSTRIES

é um temperamento ser longínqua.
nunca tive um projecto.
completudes no osso. tive contradições
que me começaram a entender
e fui descoberta por uma geração
sem geração, quando eu só queria
escrever poesia. é óbvio que tive
as minhas preocupações,
mas todas se resumiam a letras.
as letras são partes de palavras
e ninguém parece saber.
é o mesmo que o órgão
em relação ao corpo. não é diferente.
por exemplo a palavra amor:
o poder da letra “o” é diferente
da letra “r”. muito diferente.
a palavra poderia viver sem essa
última letra, mas não sem o “o”.
alguns poetas parecem escrever
e fazer amor sem “o”.

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AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo, o projecto
de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anticorpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.
sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.

em Uma Prática para Desconserto (Olhão, Portugal, 4Águas, 2011)

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