Tarde em Roma

Demétrio Diniz

Os dois estão sentados no banco de uma pracinha. Lembram um casal em início de namoro ou em lua de mel. Aparentemente estão apaixonados. Um africano se aproxima para vender um artesanato de madeira. Da janela do ônibus percebo a ansiedade que o imigrante procura esconder. Gira a bola do olho para cima, revolve-a em círculos e suspira. Parece tratar-se de uma questão de sobrevivência.

A moça tenta seduzir o namorado para comprar o artesanato — uma peça que não sei bem para que serve, talvez uma fruteira. Flerta com o namorado, sorri, alisa com as mãos, sensualmente, o artesanato. Beija o homem, bem mais adulto que ela. Acho que são turistas no inverno de Roma.

O homem enfia a mão no bolso, pechincha, dá dez euros ao africano. A moça agradece com um segundo beijo. Depois fazem um selfie da felicidade instantânea. Ele destrava a vareta, como quem destrava um guarda-chuva, e bate a foto.

O africano zarpa, o ônibus do city tour dá partida, e prossigo na tarde enevoada de Roma. As ruas idênticas formam uma paisagem monótona no inverno.

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