Tariq Ali

Por James Campbel
No Estadão

O longo e decisivo caminho – da militância política à literatura

Em fotos de manifestações políticas dos anos 1960, Tariq Ali é inconfundível: o espesso cabelo preto e o bigode hirsuto; o punho cerrado e o característico avanço para o primeiro plano. Após sair de Oxford, em 1966, ele começou a agitar por um levante de trabalhadores – não só na Grã-Bretanha, mas em todo o mundo. Seu livro 1968 and After: Inside the Revolution (1978) ressalta “a importância-chave da classe trabalhadora como o único agente de mudança social”. Seu herói: Che Guevara.

Encontrando-se com Malcolm X num debate da Oxford Union em 1964, ele ficou feliz de saber que Malcolm era “um grande admirador de Cuba e do Vietnã”. Ali era o “outro” na Grã-Bretanha, um papel que assumiu com zelo e desempenhou com arrojo e estilo. Ele não conseguiu a sua revolução, mas ganhou um hino dos Rolling Stones em sua homenagem – Mick Jagger teria escrito Street Fighting Man para ele.

Ali teve uma forte presença pessoal naquela época, e ainda tem agora. Aos 66 anos, vive numa casa neogótica espaçosa em Highgate, norte de Londres – amigos foram ouvidos chamando-a de “Chateau Tariq” – com sua companheira de 35 anos, Susan Watkins. Ela edita a New Left Review, da qual Ali tem sido um constante colaborador. Eles têm dois filhos. Em 1974, ele concorreu ao Parlamento pela organização trotskista International Marxist Group, mas a persona pública panfletária é temperada por um homem doméstico erudito.

Ele não abandonou sua oposição às “políticas econômicas neoliberais” (capitalismo, em uma palavra), mas se resignou ao fato de que a prevista desintegração do sistema não ocorreu. “Esse é um problema que as pessoas tiveram de aceitar em diferentes momentos da história: o que se faz num período de derrota?” Em seu caso, o realinhamento assumiu uma forma inesperada: ele se dedicou a escrever ficção.

O segundo ato do drama de Tariq Ali começou após o colapso do Muro de Berlim em 1989. “Eu já havia começado a mudar minhas prioridades, que eram totalmente políticas até o início dos anos 1980, criando a Bandung Films. Jeremy Isaacs, que era então o chefe da estação de TV britânica Channel 4, me pediu para fazer alguns programas.” Mas escrever ficção, que envolve meses de esforço solitário, foi um novo tipo de compromisso.

O primeiro romance de Ali, Redemption (Redenção), um roman a clef sobre trotskistas sectários em Londres, foi publicado em 1990. No ano seguinte, ele trabalhou num tipo de história completamente diferente, Shadows of the Pomegranate Tree (Sombras da Romanzeira) que entrava num reino imaginativo não menos importante para ele, o mundo histórico do Islã. O livro descreve o conflito entre cristãos e muçulmanos no fim do século 15, durante a Inquisição espanhola, e era para ser o primeiro de uma série de cinco denominada de Islam Quintet (Quinteto do Islã), concluída com a publicação neste mês, na Inglaterra, de Night of the Golden Butterfly (A Noite da Borboleta Dourada).

“Foi uma coisa que nós começamos por acidente” – “nós” sendo a Verso, a editora radical independente da qual Ali é diretor editorial, que tem mantido todos os cinco romances em catálogo. “Escrevi Pomegranate Tree e ele foi muito bem, e aí Edward Said me disse: Você precisa contar a maldita história toda agora. Você simplesmente não pode parar no meio do caminho.” Os romances do quinteto não progridem em sequência, nem mesmo cronologicamente. O volume dois, The Book of Saladin (O Livro de Saladino) recua três séculos e ao Oriente Médio. O volume três, The Stone Woman (Mulher de Pedra) visita a Istambul do século 19. Com o quarto, A Sultan in Palermo (Um Sultão em Palermo), estamos na Sicília do século 12. Não há uma fieira de relações percorrendo as eras. A dinâmica comum é a colisão repetida de leste e oeste, e suas consequências assustadoras.

Viagem no tempo. Night of the Golden Butterfly é ambientado nos dias de hoje, com personagens voando de Londres para Paris, da Alemanha para a China. No centro da história está um pintor paquistanês, Plato (ao nomear seu herói por um fundador do pensamento ocidental, Ali afirma sua crença de que os dois mundos devem se encontrar). No fim do livro, as personagens se reúnem em Lahore para uma apreciação do último quadro de Plato. Trata-se de um tríptico, em cujo centro está Barack Obama, o “primeiro líder de pele escura da Grande Sociedade”, com as estrelas e listas, “num estado de degradação cancerosa”, tatuadas nas costas. “O mais recente líder imperial exibia um button: “Sim nós podemos … ainda destruir países.”” Da pintura brotam tumores e jihadistas barbudos são mostrados “desenvolvendo uma vida sua”.

Night of the Golden Buterfly é também a volta ao cenário da infância e juventude de Ali. Lahore, onde ele nasceu em 1943, ainda era parte da Índia britânica. Seus pais eram comunistas, mas ele os descreve como vindos de “uma família profundamente reacionária” – o avô materno de Ali foi primeiro-ministro do Punjab. Até completarem cerca de 7 ou 8 anos, ele e sua irmã falavam punjabi. O idioma da educação e das realizações era o inglês. Ele devorava os clássicos ingleses – “todos eles, provavelmente jovem demais” – depois os russos.

“Havia todos os escritores realistas socialistas da União Soviética em nossa casa. Mas eu odiava tudo aquilo. Meu pai implicava comigo, porque era um comunista ortodoxo. Mas eu o achava previsível demais.” Seus heróis literários incluem Hardy, Balzac – ele dá uma gargalhada à sugestão de que acaba de concluir a Comédia Humana islâmica – e, acima de todos, Stendhal, “porque o ritmo de sua prosa é rápido e furioso, como eram seus políticos jacobinos”.

Ele se tornou politicamente engajado na adolescência, em oposição à primeira ditadura militar no Paquistão, que se formou em 1958. “Um tio, que era uma figura importante na inteligência militar, disse a meus pais: “Ponham ele pra fora. Ele não pode ser protegido!”” Em seu caso, fora significava o Exeter College, em Oxford, onde ele estudou Direito entre 1963 e 1966. “Eu estava muito feliz. Fiz amigos rapidamente. Estava envolvido no clube Trabalhista, mas os Humanistas pareciam mais ousados. Eles diziam: Deus não existe. E eu pensava, como é animador: isso pode ser dito em público!”

Tributo e crítica. Ele acreditava que o desejo de escrever ficção só se desenvolvera no fim de sua quarta década de vida. “Mas eu estava remexendo nos papéis de minha mãe em Lahore, algum tempo atrás, e encontrei uma carta minha para ela. Estava escrita no caderno de minha faculdade em Oxford, de modo que devia datar de 1966 no mais tardar. E ela dizia: “Vou escrever ficção. Mas não sei quando. Há muito mais coisas a fazer neste momento.” Eu não tinha lembrança disso, mas a ideia devia estar em minha cabeça.”

Havia de fato muita coisa para fazer. Em janeiro de 1967, como empregado da revista Town, viajou a Praga para reportagem sobre teatro e cinema atrás da Cortina de Ferro. De lá, foi enviado ao Vietnã, onde reuniu um registro fotográfico de baixas civis. Mais tarde, no mesmo ano, foi à Bolívia para assistir ao julgamento do revolucionário francês Régis Debray, que era pressionado a revelar o paradeiro de Che Guevara.

Notavelmente ausente em sua ficção é uma história ambientada na Grã-Bretanha moderna (tirante os socialistas rabugentos de Redemption). “Imagino que acho a ficção inglesa provinciana. Prefiro a americana, sempre preferi.” Ele se proclama “feliz” de não ser considerado parte da cena literária inglesa. “É um mundo muito autorreferenciado e incestuoso. E eu não gosto do fato de que muitos deles não gostam de ser criticados.” Além de seu novo romance, Ali publicou recentemente uma coletânea de ensaios, Protocols of the Elders of Sodom (Protoclos dos Sábios de Sodoma). Ele contém tributos a Anthony Powell e Proust, e critica velhos camaradas, como Christopher Hitchens e Salman Rushdie.

Ali detecta um “acentuado declínio” na ficção de Rushdie – “é triste escrever isso” -, mas o evento que realmente o irrita foi ele “aceitar um título de nobreza de Blair”. Hitchens, que uma vez louvou Ali por ter “passado boa parte de sua vida denunciando a América como o arsenal da contrarrevolução”, é agrupado às “figuras ligeiramente frívolas”, e agora soaria “mais como um chato e não como a mente crítica que explodiu os halos que rodeavam Kissinger e Clinton”.

O tema predominante da ficção de Ali é o exílio. Pessoas são alijadas do que era mais importante para elas – sua fé, seus amantes, seus livros, sua pátria. “Eu sempre senti, desde que cheguei à Grã-Bretanha, que ela era bastante familiar. Nós havíamos sido criados num mundo pós-colonial, mas em muito uma parte do que havia sido antes de se tornar independente.” Mas ele reconhece que passou os últimos 20 anos escrevendo sobre rupturas. “É verdade. As pessoas foram separadas em níveis diferentes. No nível das amizades por exemplo, porque todos seus amigos foram deixados para trás. E esse romance fala disso. E uma ruptura de amantes. E política.”

Uma das características mais impressionantes do Quinteto do Islã é a atenção aos detalhes: costumes, leis, vestimentas, nomes de lugar arcaicos, tudo isso além de um domínio dos acontecimentos históricos. “No primeiro ano, eu apenas leio tudo que cai em minhas mãos. E depois vou visitar aqueles lugares sobre os quais estou escrevendo – Sicília, Granada e Istambul – só para cheirá-los.” Depois de começar, porém, ele avança a passos largos, sem revisão – sem nem sequer reler o que escreveu. “Sou um mau sujeito assim. Eu simplesmente escrevo num grande jorro. E só consigo reler depois de algum tempo. Sou um grande crente nos editores. Eles me devolvem 10 páginas de anotações. Aí eu releio, e faço o que eles pedem.”

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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