Tarso de Castro bebia no elmo

É necessário que se pense Tarso considerando seu currículo etílico. Ele parecia um fauno saltitante a exibir orgulhoso seu rosário de flores bordado por cândidas amadas. Foi fundo em busca do sol e da vodca matinal. As mulheres que amou queriam que o amanhecer de Tarso fosse temperado por risos cênicos e polêmicas honestas.

Nasceu numa família de jornalistas em Passo Fundo, seguiu carreira em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, assinou crônicas na Folha de São Paulo e conheceu a glória quando duelou com a obrigação de publicar o único hebdomadário fora da curva durante os anos de chumbo.

Mais do que apenas um solerte observador, ele foi o combustível do Pasquim quando publicou notáveis abundâncias sobre a cretinice e a burrice dos golpistas de 64. Para o amigo do cachorro engarrafado, bar é pátria. O que seria de Tarso sem o precioso líquido? Penso que não faria diferença. O contestador das bulas papais persistiria pois subitamente encilhava o cavalo para galopar por lampejos criativos.

Tarso não bebia para melhorar a humanidade. Ele possuía bússola própria e acalentava no íntimo um desmedido interesse pela realidade. Envolveu-se na loucura de entendê-la. Para isso mergulhou em altos conhecimentos dialéticos. Não era um superficial nem um oportunista como Ruy Castro, cacifava o inexplicável e abriu as asas para a fatalidade se alojar no seu jeito de ser. (Glauber Rocha deu o apelido de Coração para a paixão de Candice Bergen).

Só o vi uma vez, na churrascaria “Rodeio”, no bairro dos Jardins, em São Paulo. O garanhão de Passo Fundo manteve-se fiel às suas escolhas. Duplou com Brizola até a última saideira. Formou uma galera de irmãos com direito a casos de amor e ódio momentâneo. Certa vez provou que era ruim de pontaria, envolvendo-se em rumorosa luta livre com o coleguinha Palmério Dória.

Sei que por pouco, muito pouco mesmo, o valentão das estâncias não assassinava o goleiro campeão do time juvenil do Payssandu Sport Club de Belém. O arqueiro precisou voar um mergulho salvador se estatelando no chão de olhos arregalados para o que restara da pesadona Remington, carroção duplo, toda de ferro ali a apenas alguns centímetros da sua cabeça. De relance, o papão do Curuzu do Norte viu na sua frente um sulista em transe sem acreditar no que acabara de fazer.

A boemia de Tarso prestou um grande serviço à velha e engomada imprensa brasileira. O Pasquim (1969-1991) produziu tiragens utópicas. Nos bons tempos bateu nos duzentões mil exemplares semanais. Era bala demais e o abominável terror encarregou-se de sair explodindo bancas de jornais. Não sobrou um exemplar a não ser a criatividade, a coragem e a memória.

Aos 49 anos, Tarso veio a óbito. “Coração” voltou para os pampas. Foi sepultado em Passo Fundo, cidade onde eu estive por duas semanas acompanhando a filmagem do comercial de uns dos “docinhos” da Monsanto. Me encantou o astral da gauchada no fim de tarde reunidos na praça principal. Ali até o próprio Rio Grande era objeto de comentários cabeludos. A turma espalhara que Tarso costumava baixar na praça. Todo elegante, bombachas coloridas, botas cano alto, esporas cintilantes, lenço vermeio no pescoço e a cuia na mão. Só que da bomba de Tarso transbordava um uísque milagroso.

Depois da pandemia, revisitarei Passo Fundo. Pretendo apertar a mão do filho da terra. Preciso dizer que Tarso soube usar as antenas transgressoras apontando-as para a democracia e o fim da desigualdade. Aposto que o autor de “79 quilos de músculos e fúria“ vai propor um brinde. Certamente ergueremos o elmo de prata, aquele que a Sua Majestade Rainha Vitória ofertou ao pinguço William Shakespeare.

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