#tbt: Histórias fantásticas do encontro entre Oswaldo Lamartine e Chico Science & Nação Zumbi

Parcela expressiva de quem nasceu em meados dos 70s fala em Chico Science & Nação Zumbi como expoente do último grande movimento musical brasileiro, o Manguebeat.

Para toda uma geração, foi um choque ver caboclos da fala arrastada em rede nacional dizendo que os de cima sobem, enquanto os de baixo descem, sempre uns com mais, outros com menos, numa cidade prostituída, com fama no além-mar.

Aquilo era sincero demais para ser ignorado.

Falas entrecortadas por uma blitzkrieg sonora, que incluía riffs e batidas das mais vibrantes que se tem notícia abaixo do Equador. Tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu.

E tudo tão nosso, tão familiar, tão nordestino, o nosso Chico. Da caótica Recife, durante 200 e tantos anos o lugar mais rico da América Portuguesa, a horda de emboladores e maracatus urbanos partiu para uma viagem cósmica por Lagos, na Nigéria, berço do afrobeat de Fela Kuti e Tony Allen; pelas grandes metrópoles industriais norte-americanas, reduto do hip hop e de guitarras sem asseio.

Só que a base, a cozinha rítmica e conceitual estava no interior pernambucano, precisamente na Zona da Mata, região que sustentava boa parte da colônia com seus engenhos, nos séculos XVI e XVII.

Na panela do olindense Chico cabiam muitos temperos, mas os ingredientes básicos foram colhidos no chão de Pernambuco.

Sem estabelecer relações artísticas com o que ali germinou, ele não seria reverenciado até hoje – o mesmo fizeram Jefferson Airplane, Grateful Dead e toda a onda psicodélica da Califórnia lisérgica por natureza; fez Jimi Hendrix, espécie de mameluco entre ianques, promotor do som dos rincões do Alabama e do Mississipi em uma roupagem então inovadora.

Oswaldo Lamartine (1919-2007). Foto: Candinha Bezerra.

Foi o que fez Oswaldo Lamartine como pesquisador.

Alto, magro, o natalense de nascimento tinha raízes familiares enfincadas em Serra Negra do Norte, cidade seridoense das mais atrasadas do Rio Grande do Norte – onde nasceram os ex-governadores Dinarte Mariz e Juvenal Lamartine, pai de Oswaldo.

Morou vários anos no Rio de Janeiro, poderia ter se abestalhado com a exuberância cultural dos cariocas, mas sempre voltou seus olhos para estas bandas. Formado técnico agrícola em Minas Gerais, estudou fazendas fluminenses, daqui e do Maranhão.

Depois de Luís da Câmara Cascudo, com quem trocou cartas sobre objetos de estudo, foi quem mergulhou mais fundo na vida sertaneja, dentre pesquisadores potiguares.

Integrante de uma família poderosa, ele deixou uma herança a ser dividida por milhões.

Oswaldo nasceu em 1919 e morreu em 2007 (suicídio). Era um intelectual com perfil etnográfico, capaz de descrever em minucias os açudes, a pescaria, a alimentação, a caça e até abelhas no pedaço de chão com cara de deserto chamado Seridó, onde chove três vezes e meia menos do que em Natal, e onde quis o destino, a Igreja, a Coroa ou o acaso, florescesse um povo singular.

Se você pensa em começar qualquer estudo sobre a Terra Potiguaris e o Nordeste, precisa ler “Sertões do Seridó” (compêndio de ensaios publicados entre 1961 e 1978). É sua obra máxima.

Temos exemplos de roqueiros que buscam o contato mais íntimo com a cultura norte-rio-grandense e de Estados vizinhos – caso emblemático, e não à toa, é o de Gustavo Lamartine (General Junkie, DuSouto), filho de Pery Lamartine e sobrinho de Oswaldo.

Aí você dirá:

“Porra, mal começou a ter uma cena legal aqui e você quer profundidade, estudo de campo para compor um rock?”.

Sei que estamos em uma etapa inicial, de ralação pra muita gente talentosa. Gosto de várias bandas de Natal.

Vejo, porém, como um esforço desprendido nesta nota, que o caminho deve ser esse: conhecer a história, as influências, o que é feito nos recônditos da esquina atlântica da América do Sul, para, daí, ser forjada uma identidade original.

Pois foi e sempre será assim que o negócio ganha ‘uma cara’ – sete em cada dez turistas que visitam a Alemanha estão em busca da cultura popular local; ou Wagner não é pura mitologia dos reinos nórdicos e germânicos? ou a cerveja não é tradição gastronômica milenar entre nossos carrascos futebolísticos?

A famosa carta de Mario de Andrade para Câmara Cascudo, em junho de 1937, entendida por uns como uma detonada, e por outros como toque de amigo (também penso assim), traz o resumo de uma bandeira que carrego na mala, prestes a ser hasteada:

“Você tem a riqueza folclórica aí passando na rua a qualquer hora. Você tem todos os conhecidos e amigos do seu Estado e Nordeste pra pedir informações […] não faça escritos ao vai-vem da rede, faça escritos caídos das bocas e dos hábitos que você foi buscar na casa, no mocambo, no antro, na festança, na plantação, no cais, no boteco do povo […] E não se zangue comigo. Talvez nunca eu esteja tão perto de você como nesta carta triste”.

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