Tea Party e quadro político nos EUA

Por Roberto Abdenur
FSP

Os EUA se encontram numa encruzilhada: ou se reelege Obama ou o país cairá em situação de descaminho

MUITO se fala do movimento Tea Party como protagonista do impasse ocorrido no processo decisório em Washington sobre as questões econômicas que hoje assolam os EUA.

Com boa razão, pois o Tea Party teve não pequena responsabilidade pela eclosão da atual crise econômica internacional. Ao encurralar o Partido Republicano em postura ideológica emocional -ou irracional, se se preferir- na exigência unilateral por redução drástica de gastos, com repúdio incondicional a qualquer aumento de impostos para os mais ricos, gerou impasse capaz de levar a inédita paralisia no processo decisório nos EUA.

Menos analisadas têm sido as consequências desse movimento para a evolução do quadro político americano. Após o movimento à direita sob George W. Bush, reforçado pelos ataques do 11 de Setembro, deu a sociedade americana, com a eleição de Obama, guinada em direção à centro-esquerda.

O “yes, we can” representava a aspiração pelo aprofundamento do velho sonho liberal de uma sociedade mais justa, mediante ações governamentais no combate à pobreza, na redução da (crescente) desigualdade social e na promoção de melhores oportunidades para todos.

A busca de retorno a uma sonhada “True America” -um país com governo mínimo, desenfreado “laissez-faire” e forte componente religioso baseado em doutrinas da ala evangélica mais radical- tem hoje forte ressonância na sociedade.

O que ocorreu em Washington nas últimas semanas foi apenas o começo de uma luta ideológica e política que ainda se prolongará por bom tempo. O Tea Party e a ala mais dura entre os republicanos se aprestam a novas ofensivas para a desmontagem do modelo liberal.

O que está em jogo é a disputa pelas eleições presidenciais de 2012. Quando lançou sua campanha para a reeleição, Obama mal sabia que antes do esperado iria defrontar-se com um fenômeno surgido quase da noite para o dia numa sociedade em vertiginoso processo de transformação, ao impacto de processos como a globalização, a imigração, as controversas mudanças nos costumes (aborto e homossexualidade), a crise financeira e os gastos governamentais em apoio ao “big business”.

Os EUA se encontram numa encruzilhada: ou se reelege Obama, e se retoma, ainda que com limitações, o caminho de revigoramento da economia e da própria sociedade, ou o país cairá em situação de descaminho, com maior esgarçamento de seu tecido social e a aceleração do processo de seu declínio relativo no plano internacional.

Apesar da força agora demonstrada, parece pouco provável que o Tea Party venha a empolgar uma sociedade tão diversificada, dinâmica e adaptável como a americana. Todos perderam com a falência do sistema político americano no episódio do Orçamento: os democratas e Obama de um lado, mas também os republicanos de outro.

Obama tem a seu favor importantes segmentos do eleitorado -os negros, os latinos, os pobres, os que dependem dos programas sociais e de saúde. Custa crer que, ao fim e ao cabo, chegadas as eleições, os americanos se decidam pelo atraso de uma utopia regressiva, em vez da busca de novos caminhos em direção a uma economia mais forte e uma sociedade melhor.

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