Teatro Mágico na Bienal

O respeitável público pagão assistiu no primeiro dia da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará um relâmpago de otimismo, poesia e magia. E nem precisou assistir tudo da pedra mais alta. O Centro de Convenções foi o palco ou a lona imaginária de um circo musical revolucionário. A trupe paulista do Teatro Mágico é renovação de um desejo de vida apagado neste novo século ou nas últimas décadas. É música alternativa, opinativa e sugestiva. E a pedida é pintar a cara em tons alegres de vida para despertar a fantasia e fazer dormir o medo.

O letrista, cantor e violonista Fernando Anitelli se mostra o Renato Russo dos novos tempos. Menos pop. Mais didático. É um porta-voz de uma juventude antenada e antes de tudo desejosa de mudança; de esperança e revolução – revolução da comunicação. A poesia do Teatro Mágico dispensa o otimismo barato e hipócrita, ou a mídia massificante. Ela é realista com as dores do mundo e sugere escapatórias por um caminho mais ameno: o da poesia musical; da magia circense; da fantasia não-alienada e torpe. É a proposta de um novo vislumbre de encantamentos.

Usarei da primeira pessoa para descrever os instantes junto à trupe. A espera pelo fim do show rendeu um contato mais próximo e talvez sirva para desmistificar a polêmica apresentação do grupo em Natal. Consegui furar o bloqueio da produção e assisti tudo do palco. Combinei com a Maíra uma entrevista de “três perguntas rápidas” com Anitelli. Foi muito mais. Maíra escreveu um livro de 22 contos inspirados nas letras musicais do TM.

A essa hora já havia perdido o único transporte de volta ao hotel onde jornalistas e artistas convidados para a Bienal estavam hospedados. Anitelli estava sem a pintura do rosto quando tive acesso ao camarim. Sugeri que priorizasse as fãs que se acotovelavam no saguão do Centro de Covenções. Foram 30 minutos de autógrafos, fotos e abraços, para desespero da produção e dos seguranças.

De volta, abordei Anitelli no mesmo palco da apresentação, quando conversava sentado com o violinista do grupo. Descobri um Anitelli sem máscara de palhaço e com tique-nervoso de piscadas constantes e abruptas, bem afeito à entrevistas e com prazer de comentar o trabalho do TM. Mais tarde, voltei para o hotel na van do grupo, depois de lanchar/jantar com eles numa sanduicheria na praia de Iracema, após o show extenuante, lotado de pessoas “raras”, como sugere o título da música “Teatro Mágico, entrada para raros”.

E os raros são soldados de chumbo e bailarinas de brilho nos olhos. Diferente de expressões em transe dos espantalhos, corrompidos pelo exagero-pop da massa, de sonhos roubados e falsas alegrias. Os da geração anos 70 talvez entendam o que escrevo. Eles viveram as raízes das delícias e horrores deste novo século. Alguns deles estiveram no show acompanhados da família. De certo viram naquela vitamina musical um recomeço; uma nova tentativa experimental mais madura e consequente.

A geração anos 70 quis evitar a intermediação. Eles experimentaram um abandono completo e assumiram a captura do momento fugaz de forma intensa. Não tinham a intenção de transformação ou revolução. Não eram experiências para serem lavradas em atas ou livros de história. Eram para serem carregadas no mais fundo da alma. “Não, não é uma estrada, é uma viagem”, cantavam os Mutantes. E o Teatro Mágico é isso: uma proposta democrática de aceitação a um mundo mais leve, “sem deixar que a vida escorregue”.

Sérgio Vilar – Você é artista plástico, escreve poesia, crônica. Porque escolheu a música para mostrar sua arte?
Fernando Anitelli – Minha história com as letras começou desde os 14 anos, quando já gostava de rimar amor com humor. Sempre estive envolvido com arte, literatura e desenho. Tenho até dois personagens meus de quadrinhos tatuados no braço, o Téo e seu melhor amigo, o Farol. Quando comecei a frequentar saraus percebi pessoas falando a mesma língua e pensei: porque não levar o espírito dos saraus para um projeto onde todos sejam um personagem só?

Em Natal vocês se apresentaram com menos da metade do grupo e aqui vieram apenas quatro integrantes. Por que?
São 25 pessoas. É complicado viajar com todo mundo. Veja que aqui fui convidado para um show acústico, voz e violão. Tentei trazer o formato mínimo e fiquei impressionado com a qualidade do show. Mas fazemos o que pudemos. Depende muito do tamanho do palco, das condições oferecidas.

Você trabalha com várias vertentes artísticas. Quais suas influências?
De tudo um pouco: no teatro, a Denise Stoklos e Plínio Marcos; na música, Secos e Molhados, Chico César, Zeca Baleiro, Legião Urbana, Raul Seixas. Tudo isso é filtrado em nosso projeto. E tem famílias vindo assitir. Fico feliz. Somos um circo contemporâneo e conseguimos alcançar essa catarse coletiva.

Vocês também são comparados ao Los Hermanos…
Talvez em função do relacionamento com nosso trabalho: somos muito verdadeiros no que fazemos. Gosto muito do Los Hermamos. Eles têm uma melancolia no samba, influências de Noel Rosa, Cartola. Mas o que é revolucionário nisso tudo é a juventude vestir a camisa da música independente. Precisamos de mídia assim: mais rádios comunitárias, teatro de rua, festivais patrocinados pelo poder público. Revolucionário é ter acesso livre à arte pela internet, trocar MP3 de forma livre. Nos Estados Unidos uma lei compara a prática à pedofilia.

A entrevista completa com Fernando Anitelli você confere no Diário de Natal. Informo aqui a data que a matéria sairá publicada.

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