Teatro para lidar com o Tempo

Dia 01 de Abril de 1989, inocentemente, o extinto grupo de Teatro Ahazragiva, criado dentro do Grupo Escoteiro Universitário, fazia sua estreia no também extinto Teatro Jesiel Figueiredo, no bairro do Alecrim, em Natal,RN.

Inocentes da relevância daquela data que, pra nós, era apenas o “Dia da Mentira”, num reinício de democracia de panos quentes sobre o horror da ditadura, faríamos a única apresentação de “A Tragicomédia da Educação Brasileira” para pais e amigos empolgados naquele teatrinho cativante que o ator e diretor Jesiel Figueiredo e sua trupe mantinham repertório de Shakespeare a Maria Clara Machado, e que tantos domingos frequentei sozinho, fascinado com a habilidade que eles tinham de transformar uns panos velhos em reinos distantes.

Ainda consigo lembrar daquele cheiro de madeira antiga e panos guardados. Cheiro que eu iria sentir por muitos anos.

Eu e Adriana Garcia na peça “Cinderela à Brasileira”, em 1992

Era sério ou só deboche?

Daquela apresentação, além do nervosismo de entrar e sair de cena carregando um birô de madeira maciça que nada lembrava a criatividade daquele teatro, lembro bem de um ator e técnico da companhia Jesiel Figueiredo que se dispôs a fazer a luz pra gente e, ao final da peça, fez uma cara que ainda hoje lembro.

Era uma expressão de quem não sabia se aquilo era sério ou só deboche daqueles adolescentes que brincavam de iludir a plateia e tentar fazer rir a partir de um tema tão trágico.

Já ví essa expressão outras vezes nesses 30 anos. E espero continuar vendo.

Aquela estreia, depois de algumas experiências nada marcantes de Paixões de Cristo na escola católica que eu estudava, marcava uma entrada no mundo do ‘Teatro sério’.

Era assim que pensávamos, quando tínhamos que ensaiar por várias semanas, pesquisar músicas, criar coreografias, mobilizar uma dezena de pessoas para emprestar itens de figurino e cenário, transportar tudo e depois devolver tudo para os seus donos. Era cansativo ser sério.

Mas aquela adrenalina daquela hora ou hora e meia em cena parecia compensar todo o esforço.

Naquele estreia, eu também me aventurei pela primeira vez na direção, mesmo sem nem saber o que seria isso e, claro, estava em cena, inclusive dançando no entreato (porque éramos “vanguarda” e atuávamos até no intervalo).

Grupo Ahazragiva no palco do Jesiel Figueiredo com a peça “A Tragicomédia da educação brasileira”, no dia 01 de abril de 1989

Dialogar com o público

Não consigo explicar muito bem o que me fez continuar nessa árdua vida no teatro. Possivelmente a vaidade de estar em cena e ser aplaudido, o que compensava meu ego de adolescente tímido e gordinho, apelidado do que vocês já imaginam, numa época pré campanha anti-bullying.

No entanto, a vaidade não foi o que me manteve esses 30 anos no Teatro.

Até porque, andar com roupas de ensaio cheirando a cachorro molhado e contando moedas para comprar pão doce com caldo de cana não é muito atitude de quem quer valorizar a própria aparência.

Acho que o eterno desejo de pertencer a um grupo, uma horda, um coletivo de ideias foi o que me capturou esse tempo todo. Tanto que raramente fiz teatro que não fosse em grupo.

Depois do Ahazragiva (nem falei mas o nome foi criado a partir das iniciais dos integrantes. Criativo, não?), veio o Clowns de Shakespeare, Grupo Beira, Grupo Casa da Ribeira, Grupo Carmin (que continuo até hoje), Coletivo Atores à Deriva.

Todos formados no meio do caos de pensamentos diversos e desejando criar obras originais que dialogassem com o público e o tempo.

Teatro e as intempéries

O Tempo. Este outro sequestrador de vontades, aliado ao desejo de pertencimento, vem me mantendo no cativeiro do Teatro por essas 3 décadas.

Primeiro porque acredito que o Teatro tem me ensinado a lidar com o Tempo. O Tempo de envelhecer, de perder, de deixar ir, de ser reconhecido, de continuar trabalhando.

Os próprios tempos das criações e daquelas obras que podiam ser aquilo que nunca foram e outras que você achava que eram só uma chuva passageira e viravam tempestade.

Esse tempo que também se refere às intempéries, ao clima. Curioso que em muitas das minha peças, num determinado instante, chove.

A chuva sempre agiu sobre meu imaginário de filho e neto de sertanejos como um elemento que suspende a realidade e o cronos.

Pensando agora, talvez aí more o meu fascínio pela chuva. Ela muda a paisagem, o ar, os deslocamentos e, na minha ilusão, muda o tempo. Estica o instante ou atrasa os compromissos. Enfim, a chuva me faz enganar o tempo.

Gostaria de pensar que neste abril de 2019, vou celebrar ainda o início da minha carreira no Teatro. Até porque, mesmo já atuando profissionalmente nela desde 1989, há pouco mais de 15 anos que venho afirmando, sem medo de errar, ou sem ataques de vaidade, que sou ator, dramaturgo, produtor e encenador teatral.

Não necessariamente nessa ordem, mas tudo junto embolado, no melhor sentido de grupo que consegui dar.

Determino aqui, para que eu mesmo releia e relembre nos dias que penso em desistir, que vou continuar lidando com esses tempos que hão de passar.

Ator, dramaturgo, produtor e encenador teatral. [ Ver todos os artigos ]

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