Teimosa humanidade

Peço, se possível, a reprodução do texto “Teimosa humanidade”, de Noemi Jaffe (FSP, 24.4.14) neste blog. É um escrito sereno, preciso, profundo. Tenho orgulho de lecionar na Universidade onde essa escritora se doutorou.

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Teimosa humanidade
Por Noemi Jaffe
FSP

Ridicularizar o desejo de mudança social, simplificá-lo com o epíteto de ‘esquerda’ e atribuir-lhe o objetivo de ‘pegar mulher’ revela frustrações

Não se trata mais de responder às falácias generalistas do colunista Luiz Felipe Pondé (foto), que escreve às segundas-feiras no caderno “Ilustrada”. Seria atender exatamente ao desejo, implícito em suas acusações, de polemizar gratuitamente.

O caso, agora que todos os limites de respeitabilidade foram ultrapassados, é falar não sobre o que ele escreve, mas como despeja seus impropérios. Trata-se de leviandade –um tratamento ligeiro, vão e vazio com relação à linguagem, ao próximo e a temas a que a humanidade teima em dar seriedade para continuar se considerando humana.

Há tempos que o colunista tripudia, sem graça, daquilo que chama de “querer o bem”, “querer melhorar ou mudar o mundo”. Em seu mais recente artigo (“Por uma direita festiva”, 21/4), chega a dizer que falas como “o capital mata crianças de fome na África” servem para “pegar” mulher.

O colunista acredita se valer de falas pretensamente engraçadas, que na sua cabeça reproduzem o discurso de uma esquerda pasteurizada, para novamente ridicularizar quem se preocupa com a fome na África. Seria desperdício exemplificar outras falas da suposta esquerda que o colunista, cafona e infantilmente, procura reproduzir.

Gostaria de discutir a leviandade do tratamento jocoso às ideias de “fazer o bem” e “querer um mundo melhor”, tratadas como típicas de uma esquerda cujo maior desejo é “pegar mulher”. Parece que esses pensamentos nunca passariam de inocência ou demagogia disfarçada, em sua visão pretensamente schopenhauriana, machadiana ou rodrigueana de alguém cuja maturidade filosófica o levou a saber que nada nunca muda para melhor.

Schopenhauer fala, em seu conceito de “ética metafísica”, do fenômeno da compaixão, ou identificação total com a dor do outro, o que representaria a afirmação plena e consciente do “querer”. Nelson Rodrigues dizia que até o mais descarado canalha deve ter seus momentos de compaixão, sonho, amor ou pena. Machado de Assis, o que é nada menos que óbvio para qualquer bom leitor de sua obra, é sempre dialeticamente pessimista. Ou seja, seu pessimismo de base comporta inevitavelmente uma denúncia ou um inconformismo moral.

Provavelmente, os três autores seriam considerados pelo colunista leviano, a partir desse ponto de vista, como “esquerdinhas interessados em pegar mulher”.

O desejo de mudar e de melhorar o mundo não é de esquerda nem de direita. A compaixão pelos que passam fome –malgrado sua ineficácia prática– é um índice mínimo do humano no humano. Mas, para além da ingenuidade desses desejos e sentimentos, há neles também o possível e o praticável.

Hoje, melhorar a vida e o mundo consiste basicamente em preocupar-se em minimizar a desigualdade social e econômica. Desacreditar dessa possibilidade e, pior, desdenhá-la significa justificar o autoritarismo e sua fonte primária, o medo, aquele que mora em todos nós e que só a civilidade e a cultura são capazes de inibir. Ridicularizar o desejo de mudança social, simplificá-lo com o epíteto de “esquerda” e justificá-lo como “para pegar mulher” só revela as frustrações de quem utiliza esses pretensos argumentos.

O melhor, diante de tanto cinismo, seria se calar. Mas devo confessar minha fraqueza.

NOEMI JAFFE, 52, doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo, é escritora

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 24 de abril de 2014 19:06

    Instante revista Caras.
    Pietro Maria Bardi era fascista. Namorou e casou com Lina Bo, comunista até o fim da vida, e morreram casados um com o outro, já bem idosos. Comenta-se que Marighella frequentou a suntuosa casa da dupla.
    Escolha uma das seguintes opções:
    ( ) Ele era de direita e sabia pegar mulher.
    ( ) Ela era de esquerda e sabia pegar homem.
    ( ) Cupido não tem fronteira (ideológica nem erótica).
    ( ) Este é um assunto de foro íntimo de ambos e de outros direitistas e esquerdistas, quiçá centristas e pessoas que jogam em todas as posições.
    Enquanto isso, Visconti (de esquerda) preferia pegar homem e Riefehnstal (de direita) tambem. Outros e outras não tornaram públicos seus tesões de cama, preferiram exibicionismo qualitativo artístico – sabe-se que Antonioni e Bergman comeram atrizes com quem trabalharam mas não construíram carreira em cima disso, optaram por fazer grandes obras.
    No século XXI, egressos de cursos de Filosofia leram Schopenhauer para acabarem se dedicando aos fait divers, concorrendo com as comédias stand by.
    Moral da história: quem quer pegar homem ou mulher, estando na direita ou na esquerda (quiçá no extremo centro), pega, basta ser dotado de engenho e arte.

  2. Marcos Silva 24 de abril de 2014 18:48

    Existem pessoas que se identificam com o autor do texto comentado por Noemi.

  3. Marcelo Motta 24 de abril de 2014 17:11

    Sério, que ela é doutora em literatura? E Doutores em Literatura não deveriam naturalmente ser doutores em interpretação de texto?

    Ou talvez, a Dra. Noemi seja tão ingênua, que esteja a negar os fatos evidentes de que Pondé tratou. Em nenhum momento se ridiculariza o preocupar-se com o ser humano. Pelo contrário, cita como a direita tem sido incapaz de mostrar que ela também dispõe desta preocupação.

    Diante, de tamanho rancor liberado, penso que Dra. Noemi deveria mesmo seguir o seu próprio conselho: calar-se. Mas, infelizmente, ela é fraca demais para isto.

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