Telefone sem fio

Por Marcel Lúcio

45 crônicas publicadas nos jornais Estado de São Paulo e Zero Hora entre 2009 e 2011. Essa é a composição do livro Diálogos impossíveis (2012), de Luis Fernando Verissimo. As crônicas versam sobre os mais variados assuntos e têm em comum a abordagem leve, o ritmo envolvente, muitos requintes de humor e alta densidade crítica.

Na narrativa que abre a coletânea, presenciamos a conversa, na sala de espera de uma clínica médica, entre o herói dos quadrinhos Batman e o príncipe das trevas, famoso no cinema e na literatura, o conde Drácula. Batman, envelhecido, queixa-se que não gostaria de morrer e busca a possibilidade de vida eterna. Drácula, eterno porém debilitado pelos 500 anos de existência, está cansado e adoraria obter o repouso final, que lhe é impedido pela sua condição de imortal. A partir dessa “diferença”, Drácula tenta encontrar pontos de semelhança entre ele e o herói. Ambos, por exemplo, são representados pelo morcego e possuem a noite como cenário. No entanto, como acontece com a realidade humana, observa Drácula, o bem está fadado a desaparecer e o mal não morre nunca! Humor e ironia se misturam nesse diálogo circunstancial e impensável que consegue construir uma alegoria do homem e de sua condição diante do mundo.

Em “Natal branco”, crônica com elementos do realismo fantástico, temos uma comunidade de um condômino residencial que em tudo tenta reproduzir o modo de vida norte-americano, inclusive durante a comemoração do Natal. Então, um dia, pasmem, durante a festividade natalina, ocorre o impossível: cai neve de modo intenso apenas na área demarcada pelos limites condominiais. Em princípio, os moradores ficam surpresos, mas, posteriormente, chega-se a conclusão de que a forte nevoada localizada especificamente naquele lugar pode ser uma espécie de castigo divino pelo americanismo desmedido. Portanto, os moradores preferem não tornar público o fato. Assim, por meio desse caso insólito, ocorre referência crítica à mentalidade servil e colonizada do brasileiro.

Foram citadas duas crônicas “alegóricas”, mas há também textos sobre situações totalmente prosaicas e cotidianas que abordam ocasiões nas quais a dificuldade de se fazer compreender pelo outro acarreta momentos cômicos, como os hilários “O maior mico do mundo” e “A tia que caiu no Sena”.

A capa do livro é interessante e conectada às narrativas contidas na obra: a representação de um telefone sem fio e muito ruído no meio do processo. Afinal, como percebemos a partir dos escritos de Verissimo, uma história que é passada adiante sempre adquire novos elementos que ocasionam barulho, modificam a versão inicial e geram muita confusão.

Vida longa a Luis Fernando Verissimo!

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Câmpus Natal Cidade Alta

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