Telescópio acha planeta que orbita duas estrelas

Nasa/Caltech

Configuração lembra sistema solar retratado em “Guerra nas Estrelas”.  Astro tem tamanho de Saturno, fica a 200 anos-luz da Terra e, ao contrário da ficção, não deve abrigar seres vivos

Por Rafael Garcia
FSP

DE WASHINGTON

Um planeta com dois sóis é o mais novo achado do telescópio espacial Kepler, da Nasa. Um estudo que contou com o trabalho de 49 astrônomos revelou ontem como como a descoberta ocorreu.

O corpo celeste está no sistema estelar batizado de Kepler-16, na região da constelação da Lira, a meros 200 anos-luz da Terra, em nossa própria galáxia.

Sistemas binários, como são conhecidos esses pares de estrelas, são comuns, e teóricos já haviam postulado a possibilidade de eles abrigarem planetas. Esta, porém, é a primeira vez que astrônomos descrevem esse fenômeno com alto grau de certeza.

Laurance Doyle, pesquisador do Instituto Seti que liderou o estudo, explica que a descoberta foi possível porque o telescópio Kepler enxerga o sistema estelar de perfil. Assim, percebeu a tênue queda de luminosidade que ocorria cada vez que o planeta passava na frente de uma das duas estrelas.

As duas estrelas de Kepler-16, A e B, são diferentes. Uma tem massa equivalente a 70% do tamanho do Sol, e a outra, menos brilhante e avermelhada, a 20%. Quando o planeta passa na frente delas, gera reduções mínimas da luz das estrelas, entre 1,7% e 0,1% da luminosidade.

O Kepler, que monitora mais de 150 mil estrelas na região, é o único com sensibilidade suficiente para detectar variações tão pequenas em uma região tão grande.

Os dados revelaram que o planeta tem órbita de 229 dias e está a uma distância média de 100 milhões de km do centro do sistema (dois terços da distância Sol-Terra).

BAGUNÇA

Para confirmar a descoberta, porém, astrônomos precisaram encarar um desafio bem mais complexo. As estrelas A e B exercem força gravitacional entre si e mudam de posição o tempo todo.

E a relação gravitacional entre três objetos celestes (desafio conhecido como “problema dos três corpos”_ ainda é um enigma para o qual não existe solução geral.

Quando se estuda a atração gravitacional entre dois objetos, a exata posição de cada um deles pode ser prevista. Basta medir as trajetórias e aplicar uma fórmula. A inclusão de um terceiro corpo na equação, porém, torna tudo imprevisível.

Em estudo na edição de hoje da revista “Science”, Doyle e colegas contam que tiveram de criar uma simulação do movimento dos astros para contornar esse problema.

Usando um computador e um modelo matemático, eles conseguiram reproduzir a dança celeste em Kepler-16 com precisão suficiente para confirmar a descoberta.

O cenário desafiador acabou se tornando uma vantagem: um número maior de interações gravitacionais permitiu calcular com grande precisão a massa e o tamanho das estrelas, algo que nem sempre é possível em sistemas binários sem planetas.

Isso mostrou que o planeta é um pouco mais denso do que Saturno, sendo composto provavelmente de metade de gás e metade de materiais sólidos. (Saturno tem 2/3 de sua massa na forma de gás.) As temperaturas na superfície descem a até -100ºC.

Astro parece lar da família Skywalker

DE WASHINGTON

“Ninguém nunca havia encontrado um lugar como esse, mas eu me lembrava de ter visto algo assim uns 30 anos atrás, numa galáxia muito, muito distante”, diz o líder da pesquisa, Laurance Doyle, fazendo piada com o planeta Tatooine, mundo ficcional com dois sóis da série “Guerra nas Estrelas”, onde o personagem Luke Skywalker foi criado.

O Kepler 16-b é um gigante gasoso e frio, bem diferente de Tatooine, mundo rochoso que abrigava um deserto ensolarado.

Nick Gautier, cientista-chefe do projeto Kepler, porém, diz que ainda fica surpreso ao ver como a ficção antecipou a ciência, pois nada impede que um planeta habitável venha a ser descoberto num sistema binário.

“Se pudéssemos visitar o planeta, veríamos um céu com dois sóis, assim como Luke via”, declarou. (RG)

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