Tem curador que é cego

Manuel da Costa Pinto (foto), curador da FLIP, reclamou do cineasta e escritor Claude Lanzmann, que foi grosseiro com o crítico Márcio Seligmann-Silva quando este, mediando a conferência daquele convidado estrangeiro, insistiu sobre questões a respeito do Holocoausto Nazista (tema do famoso documentário cinematográfico Shoah, dirigido por Lanzmann). O cineasta e escritor, com rispidez, reclamou que não era esse o assunto do livro que ele estava lançando e promovendo (no sentido publicitário) naquele ato. Pinto chegou a sugerir que a atitude de Lanzmann era de cunho nazista ao recusar o debate intelectual. Após reclamação de Luiz Schwarcz (proprietário da Cia. das Letras, que edita Lanzmann, e tem grande poder na FLIP), Pinto pediu desculpas por aquela sugestão.

Grosseria é sempre condenável. O acontecimento deixa à mostra ao menos duas questões:

1) A FLIP é feira de amostras, os industriais estão ali para promoverem seus modelos mais recentes, sem compromisso com produtos que já tiveram o ciclo de mercado esgotado.

2) A voz do dono é a voz do dono, recoloca as coisas em seu devido lugar.
Será que Pinto entendeu, no final, com quem estava falando? O pedido de desculpas sugere que sim.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 11 de julho de 2011 12:31

    Impressão é percepção (tempo-espaço) e também ato de imprimir. A palavra de ordem levantada por Bethânia é fantástica.
    Os negócios controlam a visibilidade, não a produção literária. Embora os negócios pretendam convencer os consumidores incautos de que só existem as mercadorias que eles comercializam.
    Uma pedagogia da independência é muito necessária.

  2. gustavo de castro 11 de julho de 2011 11:35

    monteiro, vc está certo… sei disso, ah, como sei…

  3. horácio oliveira 11 de julho de 2011 11:08

    Bacana, Marcos. Sua visão é certeira sobre a questão. E o Manuel da Silva Pinto é sim um paradigma disso, dos lobbies mercadológicos e acadêmicos.

  4. Fernando Monteiro 11 de julho de 2011 10:18

    Gustavo:
    O “negócio entre amigos”, na literatura brasileira, na verdade é da natureza — cortesã — de boa parte dela, sua (má) alma e essência.
    Esteve sempre presente, desde os primórdios etc, e, hoje, essa parte é quase o TODO. Então, seu esforço para “não acreditar” nele, como a força mais atuante, neste momento, será vão. Os “lobbys”, os grupos, as igrejinhas formadas em torno de A, B e C na verdade contam com o alfabeto inteiro de epicentros desse tipo, que vão dos poetas-amadores cercando um tal de Claudio Daniel I(que eu não sei quem é) até os sub-prosadores disfarçados de “alternatiovos” pajeando Nelson de Oliveira e suas antologias, em São Paulo. Mas, há mais! BEM mais…

  5. gustavo de castro 11 de julho de 2011 9:40

    o manuel da costa pinto é o centro em torno do qual gira boa partes dos escritores e homens-de-letras, no momento, em muitos aspectos, na capital paulista. desde dos tempos da revista cult e mesmo antes, dos bancos do mestrado da usp (acho que ele agora virou professor), doutor, etc, organizador de festas literárias, etc. gostaria muito de acreditar que a literatura brasileira não precisa de “negocio entre amigos” para acontecer.

  6. Bethânia Lima 11 de julho de 2011 8:57

    Viva a “liberdade de IMPRESSÃO”!

  7. Fernando Monteiro 10 de julho de 2011 23:17

    Perfeito o seu comentário, Marcos.
    Ao contrário das opiniões do rebanho, algumas colocando (na Folha de São Paulo, por exemplo) que a FLIP seria algo como que um paradigma, um modelo consolidado e incontestável etc etc.
    [Isso só poderia ser lido na FSP, é claro…]

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