Tem gente para tudo

“Tem gente para tudo nesse mundo”, ouvi, por certas vezes, tal afirmação – de quem a branda entonação sugeria ser detentor de uma coleção de vivências, digna de ser eternizada em um livro. Detive-me nessa corriqueira frase de conotação nada simplória. Então, o caos mental sobreveio em busca da absorção de sabedoria.

A realidade da vida, tocada ou tocante, não deixa escapar a curiosa natureza humana.

Também não escapam as poesias escritas, os gritos interrompidos, os noticiários, as histórias dos livros, os discursos esbravejados por um olhar ou por dois braços cruzados. Tem gente que (se) mata de e por: tiro, poder, amor, alegria, autopiedade, comer, beber, rir, não viver, não pensar. Tem gente para tudo pensar: bolsa de valores, artes, política, filosofia, 2^n, parábolas cristãs, buddahood, estratégias bélicas, música, ordem da casa, pontos de costura, problemas alheios. Também tem gente para dizer que tudo pensa, ou tudo que pensa.

Tem gente para crer na magia dos contos de fadas; na incansável atividade do Papai Noel; nos passos “lunáticos” de Neil Armstrong; na vida após a morte, ou na morte como o fim; na cavalgada triunfal do Grito do Ipiranga; nas peripécias provocadas pelo acaso, ou na beleza de sua inexistência. Tem gente para dizer no que crer, ou ainda, que não crê no que lhe dizem para crer. Tem gente para dizimar liberdades, até cercear a sua própria destreza. Há quem minta até acreditar na própria mentira, mas há quem não minta por acreditar que há solução para as mazelas morais humanas. Ah, tem gente para crer na humanidade…

Sobre a beleza, há quem goste de curvas, assimétricas, simétricas, desenhadas nos quadris ou nos lábios tensionados pela emoção. Pois bem, tem gente que enxerga a habitação do belo no chorar, no sorrir. Tem gente para admirar o que só captam os sentidos – mas, pontualmente, há gente que torce para que exista quem aprecie o que os olhos não vêm. Tem gente para tudo, que para tudo em busca da realização de um desejo. Que desamarra o barco, lança-se, mesmo em alto-mar, no enfrentamento de tempestades, mas firme no propósito de encontrar um novo cais, ou apenas novas paisagens.

Tem gente que é gente. Tem gente que prefere ser um cifrão. Tem gente para tudo ser, e que tudo pode ser. Indubitavelmente, tem gente para tudo, inclusive para induzir à percepção das “gentes”: nenhuma delas é autossuficiente o bastante para construir a si mesmo na plena solidão consciente.

Pôs-se, aqui, o caos, sabendo que poder ser gente, no mais leve toque de romantismo, sob o sabor do livre arbítrio, é o que importa. Isso sim, engrandece.

Natural da Cidade do Sol. Estudante de Psicologia. Amante de prosa, poesia e música clássica. Contempla a beleza de um abraço apertado e da espontaneidade de um sorriso largo. Não dispensa um moleskine dentro da bolsa. Devaneia mais do que se acha à primeira vista. [ Ver todos os artigos ]

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