Temeridades de um governo

Um grupo de pessoas diversas se reuniu no início da noite (16/05/2016), em uma padaria abandonada, nas proximidades da região portuária. Na tal cidade por tantas vezes ocupada. Sempre ocupada por povos e ideias estrangeiras, com políticas geográficas, comerciais e bélicas. Das caravelas ao coworking — na partilha da terra com os índios — com governos e administrações públicas e políticas, convocando o povo para assumir os créditos de culpas de outros.  Uma tal cidade que já recebeu outros nomes, de acordo com as suas ocupações, elencadas no tempo, por estrangeiros ou por índios. O nome da rua, do encontro articulado, lembra um político ativista, religioso e revolucionário, participante da Revolução Pernambucana, que foi preso e fuzilado.

Os arquétipos de grupos de artistas e ativistas políticos e culturais ficaram inclusos em seus atos, nas suas reuniões para traçar seus planos, seus rumos, seus objetivos. Suas estratégias de articulação e convocação acompanharam a evolução do tempo, foram disparadas nas redes sociais, em um sistema de boca a boca eletrônico. Sem convocatórias de discursos nas ruas. Sem anúncios em placas ou jornais.

A pauta em tela a ser discutida era a cultura, o conhecimento construído e preservado do povo. Para pontuar o tema, profissionais com currículos acadêmicos e cênicos foram convidados para participar da mesa. Fizeram um relato atual e histórico. Os destinos de uma cultura ministerial, era a pauta principal. E para mediação, a presença de um jornalista, de um Substantivo Plural. Na plateia artistas e ativistas, produtores ou consumidores de cultura. Ainda que participemos de atividades que não se possa afirmar, que produzam cultura. Uma parcela de cultura só é identificada e assimilada, ao longo do tempo. Como a primeira cidade a consumir um refrigerante estrangeiro, e usar os óculos utilizados por pilotos. Costumes que ficaram marcados no povo e nas ruas, incorporados aos comportamentos.

A cultura é do povo para o povo, construída com identidade original e própria, e outras influencias ao longo do tempo. O conhecimento que o povo cria para perpetuação de sua espécie, dos comportamentos de suas classes sociais, preservando seus hábitos e costumes, com arquivos de ideias guardadas na mente. Nos atos de criar e cultivar; preparar e consumir os alimentos; com danças e cantorias; ao usar ferramentas e equipamentos; ao fazer comemorações e agradecimentos. Sem lápis ou canetas, sem cadernos ou papeis, mas já aconteceram inscrições em rochas, a mídia disponível em um determinado momento. Tudo preservado e inscrito no corpo e na mente. E o evento com uma reunião de diversidades, aconteceu na perfeita ordem e calma, onde cada um teve seu tempo e espaço para colocar suas ideias e pensamentos, com um mesmo objetivo. Manter a existência de um órgão público que preserve e incentive a cultura. Um órgão federal, como fiel depositário de todas as ideias e atos, alimentos e pensamentos, que constituem uma cultura local ao longo do tempo. Para preservar suas raízes, para que não se percam ao longo do tempo, fazem parte da história.

Mas os arquétipos históricos dos reis e rainhas permanecem nos comportamentos dos políticos brasileiros. Reis e rainhas deixam seus reinos, seus legados para príncipes e princesas. Políticos transferem poderes a filhos e parentes. Das belas carruagens surgem carros confortáveis com ar condicionado, evitando respirar o mesmo ar que respira o povo. Dos seus gabinetes fizeram suas torres em castelos. Os palácios continuam no Planalto Central, no centro do pais, para que todos estados vejam, e possam ser melhor controlados com estratégias geográficas.  Palácio Alvorada e Palácio do Jaburu são os exemplos mais notáveis, instalam-se granjas e palácios, sejam eles tortos ou direitos.

Com a justificativa de realinhar os destinos da nação, afastaram a presidente. E o vice surge do tradicional papel figurativo, anunciando grandes mudanças que afetam diretamente o povo. Prometem extinguir ou reduzir tudo que até o momento era feito para o povo e dito como patrimônio do povo. Saúde, educação e cultura, que influenciam diretamente no povo. O governo já anuncia que não pode comportar o tamanho do povo, o mesmo povo que custeia as suas regalias. O povo que gera riquezas e culturas, enquanto o governo se apropria do suor do povo, e das riquezas minerais. Não produz cultura, não produz riquezas e nem capitais monetários ou intelectuais. Usa das estratégias de poder, domínio e apropriação do que é produzido.

A cultura é formada pelo povo e emana do povo. Não é criada ou emanada por um ministério. Com a ausência do ministério, a cultura continua inscrita no povo, e por ele é descrita, com o corpo e as ideias. O povo é o dono da melhor mídia, para transmitir suas ideias, que é o seu corpo com suas vestimentas e comportamentos; suas falas e seus costumes. Nas ruas como espaços abertos ou em um palco em um espaço fechado.

Caso haja um interesse oculto, um objetivo especifico com a destruição e destituição de um ministério voltado a cultura, a perda maior será do governo. Perdera seu instrumento de controle e pesquisa. A cultura que surge do povo, por vezes é controlada. Controles de financiamentos e patrocínios, depois de passar por crivos de avaliações, das equipes julgadoras de investimentos e projetos. As leis de incentivos têm poderes de escolher as ideias.

O nome mais citado na plateia e na mesa foi Antônio Gramsci (1891-1937), chegando a ser um referencial teórico naquele momento crucial e histórico. Gramsci passou a maior parte de sua vida encarcerado. E por não ter liberdade de mobilidade, questionou suas próprias ideias, estava livre para pensar e anotar suas ideias. Colocaram ele em uma cela, e ele abriu suas ideias. Foi citado por ter feito escritos ao longo da vida, descrevendo as relações entre políticas e cultura. Fechar um ministério vai criar outras ideias. Aconteceu com os exilados e excluídos na época da ditadura.

O local? Foi na Casa da Ribeira, na Rua Frei Miguelinho. Um espaço sobrevivente no tempo, e preservando a cultura. Um espaço cultural construído em uma antiga padaria, quem sabe talvez, onde Cascudo comprava diariamente o pão. Onde tomava café, onde corriam as notícias, do antigo modelo boca a boca.

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