Tempo de brumas

O poema terrível de Bertolt Brecht fala de um tempo sem sol, de guerra, onde se comia no meio da batalha. O grande poeta se via personagem ativo desse tempo, que o obrigava a não silenciar.

Hoje, o Brasil conserva seu tempo de sol, no céu e no mar; mas o tempo institucional é brumoso. Desmerecedor de confiança. E quando não há confiança institucional, estremece o destino da liberdade.

Todos os tempos obrigam seus viventes. Cada um assume a sua obrigação, sem exceção. Até a omissão, pior das ideologias, obriga-se, mesmo fugindo. Não adianta esconder-se, que o tempo baterá em sua porta.

Cada tempo com sua face. E como o nosso tempo é de bruma, assim brumoso se faz o nosso caráter. Em alguns, líquido, como ensinou Jussier Santos, ao falar de um amigo comum. É aquele caráter que toma o formato da bacia.

Noutros, gelatinoso. Aquele oscilante; meio tudo, meio nada. São os tetranetos de Macunaíma. Aquele que ao fazer a sacanagem, debulha-se em lágrimas com pena do sacaneado.

Esse é o retrato mal disfarçado do nosso tempo. Uma Esquerda fugindo da autocrítica, disputando espaços entre a erudição e a esmola. Marcando passo de ganso, numa ordem unida de quartel abandonado. A ela se opõe uma Direita sempre esperta e desonesta, que é do seu feitio, a colher os frutos da incompetência da oponente.

E pra completar a comodidade da patifaria geral, o discurso de que não há mais Direita nem Esquerda. Enquanto as razões da História aí estão a mostrar que as mudanças estão muito longe de sepultarem essa dicotomia. Esse embate que põe de um lado os senhores da exploração e do outro os deserdados do que se explora. Esses estão à míngua dos dois lados. Da Direita, que os quer dominados. Da esquerda, que os quer aliados. E tanto uma quanto a outra, sacanamente, rouba-lhes a esperança. Ou oferece a esperança que ficou presa na Caixa de Pandora.

Direita e Esquerda existem sim. E aí estão. Uma, mais esperta e mais cretina continua a explorar. Outra, mais “humana” e falsária, continua distinta entre discurso e arte. Gêmeos palíndromos, que mesmo sem a coincidência de grafia podem ser lidos de trás pra frente e vice-versa.

A “ordem” constitucional de 88 faliu. Morreu. Fede. Precisa ser sepultada para dar vida a uma ordem legal que tenha repouso na adequação dos tempos atuais. Ou isso ou o deserto institucional.

Instituições lambuzadas de poderes, sem preparo de recursos humanos para cumprir atribuições adquiridas. Usamos, no Brasil, o volume morto das leis, como se usam as águas da represa do Cantareira. Um dia, isso sairá da lama para o sangue. É a repetição histórica da tragédia e farsa. O triste é que a farsa é agora. Vamos repetir como?

Se não temos a unção da tragédia, que farsa ofereceremos ao futuro? Só a vergonha do que somos. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. thiago gonzaga 23 de setembro de 2014 22:58

    Precioso escritor François Silvestre.
    Estou lendo “A Pátria não é Ninguém” pela terceira vez.
    Grande abraço,
    Abraços pra todos.

  2. François Silvestre 22 de setembro de 2014 21:57

    Na sucessão de Emmanuel Bezerra eu fui candidato único à Presidência da Casa do Estudante. Seria a única eleição vitoriosa do meu currículo. Emmanuel estava Preso, juntamente com Ivaldo Caetano e Gileno Guanabara. Mas não tive essa vitória. No Domingo da eleição, o Exército interveio na Casa e me prendeu. Não fui para a Detenção Velha, onde hoje é o Centro de Turismo, em que estavam os outros presos. Fiquei preso no Quartel do RO de Obuses, ali próximo de Santos Reis. As brumas daquele tempo tinham mais sangue do que névoa.

  3. François Silvestre 22 de setembro de 2014 16:41

    Jarbas, meu Poeta “Ad perpetuam…, você tem razão. Eu sou um sujeito feliz. Mesmo que a vida tenha me sido uma corrida de obstáculos com pequenas infelicidades a saltar. Algumas nem tão pequenas assim. Me vem à memória o pardieiro da Praça Lins Caldas. Onde a fome era o menor atropelo. Não brigávamos para melhorar o feijão com rapadura, tava bom. O que queríamos melhor era a rapadura com liberdade. Ou feijão com arte. Daí levaram a vida, tão brutalmente, de amigos irmãos nossos. Seus e meus. Eu era o diretor de cultura da Casa, escolha pessoal de Emmanuel. O testudo feioso de Caiçara de São Bento. Filho de seu Luiz e dona Ana, tão simples quanto deve ser a felicidade. Amigo seu, que sei de ciência própria. E no meio dessa coisa tão alegre quanto ser feliz, a desgraça tão comum como é do feitio da vida. E na lembrança dessas graças e desgraças, “um estranho cheiro de súplica” como inventariou o seu colega, Poeta, Alex Polari de Alverga…

  4. Jarbas Martins 22 de setembro de 2014 8:37

    Só faltou dizer quem o autor da foto, Tácito. Deus, o Incriado ? Para fotos como esta – Francois Silvestre é um homem feliz – tenho uma legenda: meio segundo antes da minha musa existir

  5. François Silvestre 21 de setembro de 2014 16:34

    Tácito, você um fela da mãe gráfico, ou fotográfico. As fotografias que vc pôs no meu artigo são bem melhores do que o texto. Se eu soubesse faria isso em vez de perder tempo com com letras e frases. Bastaria dizer: Taí o Brasil institucional. E colocar as fotos.

    • Tácito Costa 21 de setembro de 2014 22:24

      Hahaha… Homi, deixe de exagero. Abraço, amigo.

  6. François Silvestre 21 de setembro de 2014 16:26

    Pois é, Anchieta. A mesma língua dos não militantes, iludidos recalcitrantes. Tê-lo entre a comunicação da linguagem, nesse clube fechado de dúvidas, mesmo pagando o preço da desesperança, já compensa a companhia. Brigadão e meu abraço!

  7. Marcos Silva 21 de setembro de 2014 12:49

    Brecht escreveu muito bem (poemas e peças, teoria). Arendt, no livro “Homens em tempos sombrios”, reclama de seu silêncio diante do Stalinismo. Considero as categorias “direita” e “esquerda” genéricas. Sei que não sou de direita. Mas penso que existem esquerdas e mais esquerdas, prefiro ouvir todas.

  8. Anchieta Rolim 21 de setembro de 2014 11:59

    Repetindo: François, fala meu idioma. Texto massa esse! ” Não sou de direita – Nem gosto Dos políticos de direita – Para mim – São todos esquerdos. – Não sou de esquerda – Nem gosto – Dos políticos de esquerda. – Para mim – São todos de direita – Não sou do centro – Nem gosto – Dos políticos do centro. – Para mim – São todos esquerdos de direita. – Eu sou o povo – E não gosto – De quem FODE o povo! (A. Rolim)

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