Tempo de Colheita

“Mas quando chega o tempo rico da colheita, trabalhador vendo a fortuna se deleita… Chama a família e sai pelo roçado e vai cantando alegre olá, olá, la, lá,la…..”

A música é de Luiz Gonzaga, mas a história que vou contar é minha, mesmo. Sobre as madrugadas em que o meu pai nos chamava, quando começava o tempo de colheita e a gente precisava ajudá-lo nas empreitadas que fazia com os donos de fazendas. Ele e outros caboclos que trabalhavam nos roçados, apanhando feijão, milho e algodão. Para aumentar a produtividade alguns levavam os filhos, mesmo menores, para ajudar na colheita. Depois que eu cresci percebi que aquelas madrugadas me fizeram amante do amanhecer e do entardecer.

Na primeira vez que ele sacudia os punhos da rede a gente sabia que ia começar o movimento, mas que não era ainda hora de levantar, dava para ficar na rede mais um pouco, dar uma espreguiçada e puxar o lençol se protegendo da lufada de vento frio que entrava, quando abria a porta da cozinha. Às vezes, até dava para mais um cochilo, porque ele ainda iria fazer o fogo, o café e selar a burra. 

O fogão era de lenha, feito de barro e ia de uma parede à outra da cozinha estreita, com duas trempes para abrigar até duas panelas por vez. Uma parte de barro alisado, servia para colocar os utensílios usados para fazer o café, a comida e para sustentar um alguidar com água para lavar as mãos. Em baixo tinha espaço para colocar a lenha, os gravetos, a lamparina, o querosene e outras coisas mais. 

Depois que fazia o café ele voltava até o quarto e sempre conversava alguma coisa com minha mãe, aí passava na sala pegava a cangalha e outros apetrechos pra arrumar a burra, nosso animal de transporte. Era nessa hora, ainda “com escuro” que ele balançava o punho da rede mais uma vez e dizia:

– Tá na hora! Vão tomar café.

E enquanto a gente lavava a boca e o rosto, ele fazia o escaldado de café com farinha. E enquanto a gente comia, ele arrumava a burra. E enquanto a gente se dirigia para o quintal, ele tomava um gole de café. Apenas café.

Minha mãe já se levantara e acompanhava tudo. Os galos cantavam, anunciando que dali a pouco o dia estaria amanhecendo. Dependurado na cangalha  ia o necessário para a diária: os bisacos, alguns víveres e as cabaças d’água, sempre arrumados com o cuidado de dividir o peso, porque também ali íamos eu e meu irmão.  A cangalha é um objeto empalhado, com o assento um pouco mais extenso que uma sela de couro e com uma armação de madeira, em forma de V.  Eu ia sempre no vão da cangalha e me equilibrava segurando no acabamento de madeira que ficava a mostra, no lombo do animal. Meu irmão às vezes também ia ali, outras vezes ia na garupa. Hoje eu vejo que devia ser desconfortável ir na garupa, mas ele gostava porque podia pular no meio do caminho, embora meu pai não gostasse porque logo ele quereria subir outra vez.

Uma breve despedida e a gente pegava o caminho que começava ao lado do serrote e seguia estreito entre pés de velame, pereiro, mufumbo, sempre fazendo curvas à direita ou à esquerda, conforme a disposição das casas, construídas sem qualquer disposição simétrica.  Só depois da casa de madrinha Sonsa pegaríamos um trecho mais reto, que seguiria até a estrada de rodagem, passando pela casa de Dona Nanu, uma senhora que criava muitos bichos e as mais diversas aves, galos,  galinhas,  patos,  perus. 

Depois da casa de Nanu e quando já se passara pelo menos uma hora atravessávamos a estrada de rodagem e uma porteira, do outro lado. Mais alguns minutos e a gente chegava à casa principal da propriedade rural. Eu não lembro ao certo o nome daquela fazenda, tinha alguma coisa com Praxedes no nome, e a casa grande, embora fosse grande e pintada de branco, era muito feia. Não tinha alpendres na frente nem nos lados, como a gente lê nos livros de história, apenas um pequeno puxado, atrás. Na frente tinha uma calçada, e quando meu pai apiava a burra e a gente descia, ele colocava lá a cangalha e prendia o animal em alguma estaca, de modo que ele pudesse ficar pastando por alí. Quase não tinha capim, mas sempre tinha alguma coisa que servia de alimento.

Pela manhã, antes de sair, e no final da tarde, quando a gente chegava em casa, ele alimentava a burra com milho. Os roçados ocupavam as terras na frente, nas laterais e por trás da casa feia.  Eram lavouras de feijão, milho e algodão, cuja colheita o dono da fazenda aprazava com os lavradores, como meu pai.  Outros caboclos também levavam seus filhos, mas eu nunca vi outra menina por lá. Meu pai devia me levar porque não tinha outro menino em casa, meu outro irmão já era rapaz feito e tinha outro trabalho, e a minha irmã, maior que eu, precisava ajudar a minha mãe que tinha outras crianças menores. Erámos uma grande família, e mesmo quando a minha mãe dizia que eu precisava estudar, meu pai argumentava que daquela vez era preciso que eu fosse. E eu ia. 

Quando a gente saía para o roçado colocava uma camisa de tecido mais escuro, geralmente de mescla ou cáqui, sobre a nossa roupa, um chapéu de palha e um bisaco transpassado do ombro à cintura, para colocar o que colhesse, feijão ou algodão. Criança não apanhava milho, acho que porque o pé de milho cresce mais que um menino, e para quebrar a espiga é preciso ter altura e ter força. Então apanhar milho era trabalho de adulto, e quando a colheita era de milho, apenas, papai não nos levava. A gente não reclamava por qualquer coisa e até acabava se divertindo no meio das fileiras de algodão, por entre os pés rasteiros do feijão.  De tempos em tempos meu pai gritava ou assobiava, o que nos deixava seguros. Depois ele aparecia trazendo a rapadura que a gente comia com farinha, e a água prá beber. 

Lá pelas onze horas a gente ia almoçar na casa feia, naquele puxado de trás, junto com os outros trabalhadores.  E antes de voltar para o roçado, enquanto eu e meu irmão brincávamos, os homens se estiravam pelos oitões da casa, onde quer que houvesse alguma sombra, para em poucos minutos se levantar e começar tudo de novo: catar algodão, apanhar feijão, quebrar o milho, comer rapadura, tomar água na cabaça. Até que era a hora de chamar os meninos, desamarrar os animais e voltar para casa. O dia terminava cedo, ainda claro e com sol, porque era preciso chegar em casa antes do anoitecer.  E ainda era preciso pesar o que havia sido colhido, anotar nas cadernetas, arrumar a burra, dependurar os bisacos na cangalha, montar os meninos e tudo mais para viagem da volta.

Era de tardezinha quando saíamos. Meu pai de novo à frente do animal segurando o cabresto e usando uma pequena vara para indicar a direção, quando preciso. Cada dia a gente presenciava um espetáculo único da natureza, um por-do-sol que sempre se parecia, mas nunca se repetia. Às vezes o céu ficava vermelho, às vezes laranja, às vezes ficava até esverdeado e às vezes, como se estivesse cheio de escamas. Aí meu pai dizia que o mar nesses dias estava mais cheio de peixes. Ele conhecera o mar anos trás, no tempo da guerra, quando muita gente fora para a capital para o serviço militar. Mas assim que pôde voltou para o sertão, porque morria de saudade, dizia minha mãe.

Quando o sol ia baixando, rolinhas, concrizes, galos de campina e até o gavião cruzavam os ares à nossa frente. Eu gostava de ver e ouvir os rasantes das aves que nessa hora voam mais baixo, procurando se abrigar nos galhos das árvores, ou nos ninhos, aquelas que cuidam de seus filhotes. E quando eu passava ao lado da casa de Dona Nanu, embora parecesse que estava amanhecendo, não havia mais galos, ou galinhas, ou patos, ou perus correndo no quintal, todos já estavam nos puleiros, para dormir. Ai eu pensava que daqui a pouco eu também me recolheria. Jajá estaria “com escuro” e era preciso descansar. De madrugada começaria tudo outra vez, até o fim desse tempo de colheita.

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