Tempo-Será

Para o teatrólogo e poeta Jairo Lima

TEMPO-SERÁ: 28 anos de um projeto teatral coletivo

“… o amor se vai o mar se sono se esvai como diz: o caso está enterrado a canoa do amor se quebrou no cotidiano estamos quites inútil apanhando de mútua dor mútua cota de dano”. (Maiakowisky).

Em 1982 uma experiência teatral muito bonita na cidade de Natal. Um grupo formado basicamente de professores universitários no início da carreira, alguns já retornando do mestrado e cheios de sonhos e projetos.

A idéia era montar uma peça teatral com textos do grupo e de outros autores que se afinavam com a temática das contradições do homem. Uma criação coletiva, altamente enriquecedora para todos do grupo. Líamos tudo que envolvesse a contradição. Um dos livros mais lidos pelo grupo era o Escuta Zé Ninguém, do Wilhelm Reich. Líamos muito Engels, Marx e todos os clássicos da dialética.

Um livro na mão, e muitas idéias na cabeça. Um laboratório dramático, de voz e expressão corporal. Um não findar de discussões teóricas e exercícios do corpo, dirigido pela amiga e professora Vera Rocha. Éramos rodeados de pessoas amigas e profissionais da maior competência. Eugenio Lima cuidava dos arranjos musicais, e Glênio Sá educava nossas vozes que cantava o poema de Ferreira Gullar: “uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém fundo sem fundo”.

A iluminação foi feita por Carlos Meirelles, e Eduardo Salmar foi o assistente de produção. Elizabeth Raulino fez a programação visual. Joana Lopes (autora de Pega Teatro) era amiga do grupo e deu muitas sugestões valiosíssimas. Joana, na apresentação do programa da peça, escreveu; “todos eles se dedicam à educação, embora sejam vistos como funcionários públicos. Eles falam em Tempo Será de contradições, algumas covardes, outras magníficas. É uma aventura cotidiana, dessas que não têm final feliz aparente, mas permite perguntar se os amantes da última cena vão jantar a vida a dois”.

A última cena eu fazia com a colega Lívia, numa dramatização de um texto do Veríssimo. A Troupe Teastral era formada pelos atores Fausto Faria, João da Mata Costa, Juca Villaschi, Lenira Dantas, Lívia Penna Firme e Sérgio Fialho. O texto da peça era de autoria do grupo, do Luís Fernando Veríssimo, Cecília Meirelles e Pablo Neruda. A estréia da peça se deu no Teatro Alberto Maranhão – em Natal, nos dias 13 e 14 de dezembro de 1982. Um tremendo sucesso e um exemplo do que o coletivo pode num tempo que sonhávamos com a transformação do país e do mundo. Uma experiência rica e prazerosa para todo o grupo. Um fazer teatro diferente, onde o processo foi mais importante que o produto final apresentado ao público.

A peça ainda seria apresentada em Campina Grande e Recife. Nesses 28 anos não poderia deixar de registrar esse belo momento de Natal, e de nossas vidas – e dizer da saudade que tenho de todos os que faziam a Troupe Teastral. “… Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim… ”

O amigo e ator Olinto Rocha, resumiu bem essa experiência: Vários séculos de paixão retomados em quase um ano de trabalho. Paixão de representar. A magia do corpo, da voz, do palco, tentando construir uma verdade. Representação de realidades pequeno-burguesas, das nossas contradições e disfarces. Uma reflexão, no palco, do que está em torno (e dentro) de cada um.

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