Tempo-Será

TEMPO-SERÁ: 28 anos de um projeto teatral coletivo em Natal

para Claudinha Magalhães

“… o amor se vai o mar se sono se esvai como diz: o caso está enterrado a canoa do amor se quebrou no cotidiano estamos quites inútil apanhando de mútua dor mútua cota de dano”. (Maiakowisky).

Faz quase três décadas de uma experiência teatral muito bonita na cidade de Natal. Um grupo formado basicamente de professores universitários no início da carreira, alguns já retornando do mestrado e cheios de sonhos e projetos.

A idéia era montar uma peça teatral com textos do grupo e de outros autores que se afinavam com a temática das contradições do homem. Uma criação coletiva, altamente enriquecedora para todos do grupo. Líamos tudo que envolvesse a contradição. Um dos livros mais lidos pelo grupo era o Escuta Zé Ninguém, do Wilhelm Reich. Líamos muito Engels, Marx e todos os clássicos da dialética.

Um livro na mão, e muitas idéias na cabeça. Um laboratório dramático, de voz e expressão corporal. Um não findar de discussões teóricas e exercícios do corpo, dirigido pela amiga e professora Vera Rocha. Éramos rodeados de pessoas amigas e profissionais da maior competência. Eugenio Lima cuidava dos arranjos musicais, e Glênio Sá educava nossas vozes que cantava o poema de Ferreira Gullar: “uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém fundo sem fundo”.

A iluminação foi feita por Carlos Meirelles, e Eduardo Salmar foi o assistente de produção. Elizabeth Raulino fez a programação visual. Joana Lopes (autora de Pega Teatro) era amiga do grupo e deu muitas sugestões valiosíssimas. Joana, na apresentação do programa da peça, escreveu; “todos eles se dedicam à educação, embora sejam vistos como funcionários públicos. Eles falam em Tempo Será de contradições, algumas covardes, outras magníficas. É uma aventura cotidiana, dessas que não têm final feliz aparente, mas permite perguntar se os amantes da última cena vão jantar a vida a dois”.

A última cena eu fazia com a colega Lívia, numa dramatização de um texto do Veríssimo. A Troupe Teastral era formada pelos atores Fausto Faria, João da Mata Costa, Juca Villaschi, Lenira Dantas, Lívia Penna Firme e Sérgio Fialho. O texto da peça era de autoria do grupo, do Luís Fernando Veríssimo, Cecília Meirelles e Pablo Neruda. A estréia da peça se deu no Teatro Alberto Maranhão – em Natal, nos dias 13 e 14 de dezembro de 1982. Um tremendo sucesso e um exemplo do que o coletivo pode num tempo que sonhávamos com a transformação do país e do mundo. Uma experiência rica e prazerosa para todo o grupo. Um fazer teatro diferente, onde o processo foi mais importante que o produto final apresentado ao público.

A peça ainda seria apresentada em Campina Grande e Recife. Nesses 28 anos não poderia deixar de registrar esse belo momento de Natal, e de nossas vidas – e dizer da saudade que tenho de todos os que faziam a Troupe Teastral. “… Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim… “. Dizer também que aqueles temas tratados pela troupe ainda são atuais. Zé-Ninguém ainda se esborracha nos finais de semanas. Continuamos masturbando e brincando de viver.

O amigo e ator Olinto Rocha, resumiu bem essa experiência: Vários séculos de paixão retomados em quase um ano de trabalho. Paixão de representar. A magia do corpo, da voz, do palco, tentando construir uma verdade. Representação de realidades pequeno-burguesas, das nossas contradições e disfarces. Uma reflexão, no palco, do que está em torno (e dentro) de cada um.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 10 de setembro de 2011 19:01

    Querido Eduardo,

    Lembro de voce meu amigo. Quem escreveu o textp/ memório foi um dos componentes da troupe, o João da Mata.. O texto eu dediquei a Claudinha, que por sinal me esqueceu. abç.

  2. Eduardo Salmar 10 de setembro de 2011 18:41

    Excelente noite Claudinha
    que com muito carinho escreveu tudo isso do “Tempo Será”, dos professores universitários no palco, quebrando os próprios paradigmas.
    Eu tenho o cartaz da Troupe Tempo Sera…
    Como escreve o Fritjof Capra sobre a “geração solar” , puta merda quanta energia e transmutação ocorreu conoscos todos envolvidos e abraçados pelo tempo, em Natal ainda por cima e por baixo.
    Estamos aí, por aí, felizes com essas surpresas de poder escrever aqui…
    parabéns e obrigado pela memória
    arq Eduardo Salmar

  3. Jarbas Martins 21 de maio de 2010 6:58

    Depoimento enriquecedor, gostei muito. Abraços, João.

  4. Cláudia Magalhães 20 de maio de 2010 16:14

    Obrigada, João! Você é um homem de mil talentos! Fiquei, realmente, emocionada com o texto. Viva o teatro!

    Beijos, querido.
    Cláudia Magalhães

  5. François Silvestre 20 de maio de 2010 10:30

    Beleza, João. Todos nós fazemos isso. Às vezes eu cometo erros tão grosseiros que dão a impressão de serem propositados. Também não me irrito com as correções. Você apenas confirma o que eu disse antes, sobre sensatez e cultura.

  6. João da Mata 20 de maio de 2010 10:19

    Valeu François,

    Obrigado pela correção mais do que perfeita.

    Tácito, amigo: corrija aí: Faz

    Farnçois. amigo é pra essas coisas. Não fico melindrado

  7. François Silvestre 20 de maio de 2010 10:14

    Pensei muito em fazer ou não esse comentário. Sei dos melindres da vida intelectual. Mas peço desculpas a João da Mata, que é uma pessoa culta e sensata, para fazer um reparo de interesse público. O verbo “fazer”, na referência ao tempo, é impessoal. Não varia em número. Isto é, não tem plural. Abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo