Temporada com Kafka

Por João Paulo‏
Estado de Minas

De Kafka já se disse quase tudo. No entanto, ninguém é capaz de assegurar que o conhece. É essa obsessão, marcada ao mesmo tempo pela familiaridade e o espanto, que percorre o livro Meu Kafka, de Stefanie Harjes, mescla de textos do escritor tcheco com ilustrações, pinturas e colagens da artista alemã. O resultado é um embate. Uma relação de amor e ódio, como Stefanie confessa ao abrir seu impressionante diálogo com Kafka.

Na verdade, o livro poderia ser apresentado como uma simples antologia ilustrada. Mas cada um desses termos ganha nova configuração em Meu Kakfka. A seleção dos textos é profundamente pessoal e não parece animada por qualquer categoria literária: trata-se de passagens, mais ou menos longas, retiradas de cartas, romances, contos, trechos sem títulos, rascunhos e aforismos do escritor. Algumas muito conhecidas, como trechos de A metamorfose ou O processo, e outras que surgem como revelações.

Stefanie Harjes parece ter o incômodo como método para selecionar os textos kafkianos. Ela não escolhe os mais importantes ou literariamente realizados (embora muitos o sejam), mas aqueles que incomodam, que lançam perguntas, que parecem, para usar uma expressão de Carlos Drummond de Andrade, um claro enigma. São passagens que, como também registra, fazem parte de seu contato noturno e insone com a obra do escritor.

O que encaminha para a segunda parte do trabalho: as imagens. O livro tem a composição do sonho. Não há uma técnica preferida e é até difícil falar em estilo da artista. Cada passagem selecionada parece provocar uma resposta visual, que assume forma própria. Se a base é o desenho, há também muitas colagens (que acentuam o caráter compósito e surrealista de alguns textos), fotos, montagens, grafismos, pinturas e até exercício de caligrafias variadas. A atmosfera de estranhamento, no entanto, nunca é referencial, mas cria uma conversa entre texto e imagem que dá o tom pessoal de Meu Kafka.

Assim, o trecho de O processo pode ganhar uma abertura visual que alude ao teatro de bonecos – o que acentua o absurdo de forma irônica – e passar ao registro do desenho que busca personalizar a imaginação e o mito. Em outros momentos espalhados por diversos textos, a figura humana é desconstruída, tem sua identidade atravessada por imagens de horror, desmembramento e animalização. Procedimento expressivo de Stefanie Harjes é a intervenção do texto na imagem, ou vice-versa, como se as letras fizessem parte da linguagem visual. Além da técnica, varia também o peso da cor, o uso de preto e branco, as sobreposições de padrões. A personalidade da artista, em seu embate com o texto, está presente o tempo todo.

Stefanie Harjet nasceu em 1967 e trabalha em Hamburgo, na Alemanha. Estudou artes na Universidade de Praga, cidade natal de Kafka, e é ilustradora de livros e jornais. Meu Kafka é sua estreia autoral. Além das ilustrações, a artista assina cinco pequenos textos, que dialogam com os excertos do escritor tcheco. A belíssima edição da Cosac Naify tem ainda o destaque da tradução, feita diretamente do alemão por Priscila Figueiredo, que preserva o estilo e a atmosfera do autor. E acentua ainda certo apelo poético que o trecho isolado parece carregar, colocando-se no nível do trabalho de Modesto Carone, o mais operoso dos tradutores de Kafka no Brasil.

 

MEU KAFKA

• Textos de Franz Kafka e ilustrações de Stefanie Harjes

• Editora Cosac Naify

• 128 páginas, R$ 42

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