Tempos e pessoas: viagem ao coração da literatura

Por Sérgio Rodrigues
VEJA

Um dos conselhos literários mais importantes que já recebi – quase tão importante quanto aquele outro, o de desconfiar de todos os conselhos literários – me apareceu quando eu tinha vinte e tantos anos, lendo um artigo de Autran Dourado (citado aqui outro dia) sobre seu método de trabalho. Se a memória não me engana mais do que o habitual, o escritor mineiro revelava, embora não com essas palavras, uma forma de dar vida nova a textos deficientes, insatisfatórios, capengas ou falsos: trocar seu tempo verbal ou a pessoa da narração – ou as duas coisas ao mesmo tempo. {Fernando Sabino, na foto}

Ainda não era comum escrever em computador naquela época. O truque, se assim podemos chamá-lo, envolvia um bocado de trabalho pesado: rabiscar tudo com caneta era provavelmente o primeiro passo, mas no fim das contas, para ter um resultado apresentável, restava alimentar a máquina de escrever com papel novo e datilografar tudo outra vez. Da primeira à última palavra. Trocando, por exemplo, “fui” e “tinha” por “vou” e “tenho”. Ou por “foi” e “tem”. E “minha” por “sua”. Etc.

É claro que, tendo feito tudo isso, e ainda que a princípio satisfeito com as mudanças, nada impedia o angustiado autor-datilógrafo de se arrepender no dia seguinte. Por alguma razão ainda pouco explicada, a virada da folhinha tem frequentemente essa capacidade de transformar felicidade autoral na frustração mais amarga. E lá iam tempos verbais e pessoas narrativas de volta ao estado de origem, à custa de mais batuque no teclado.

Divertido? Não, deve haver palavra que qualifique melhor esse tipo de exercício. Naquele tempo, a coisa tinha sem dúvida algo de insano, mas a função localizar/substituir do computador, eliminando como por milagre a maior parte do trabalho braçal, tornou forçado falar em insanidade. Hoje é bem mais fácil alterar o sujeito e os tempos verbais de uma narrativa, mesmo que ela seja um romance de 500 páginas. Claro que ajustes ainda precisam ser feitos manualmente, em flexões e tal, mas é indiscutível que o texto se tornou mais plástico, o caminho entre a cabeça e a página encurtou, a vida ficou mais confortável.

Curiosamente, junto com toda essa facilidade parece ter vindo também uma valorização ingênua de certa “espontaneidade”, ao lado da desconfiança de que exercícios formais como aquela dança de tempos e pessoas – entre outros – não passem de disfarces para a falta do que dizer. Para esses cultores da “expressão pura”, escritores são diferentes de pianistas, por exemplo, que dedicam boa parte da vida à repetição mecânica de escalas: já nascem sabendo tudo.

Sim, é possível que o problema de uma narrativa seja outro e que ela continue a mesma porcaria quando mudamos a narração da primeira para a terceira pessoa. Mesmo em tal caso, porém, o exercício não terá sido em vão. A razão disso é diabolicamente simples: ao brincar com o ponto de vista e o tempo verbal – a voz narrativa, em suma – estamos nada menos do que penetrando o coração dessa brincadeira, tomando posse daquilo que torna a literatura, literatura. Cervantes inventou o romance moderno quando inventou a voz maluca, autoconsciente, de D. Quixote. O resto veio depois.

“As virgens suicidas”, de Jeffrey Eugenides, deve grande parte de seu encanto à opção pela narração na rara primeira pessoa do plural, que torna os vizinhos das irmãs Lisbon porta-vozes de todos os adolescentes apaixonados do mundo. Li há algum tempo uma entrevista em que Daniel Galera contava ter encontrado o tom de “Barba ensopada de sangue” no momento em que trocou a primeira pela terceira pessoa. Em meu romance “O drible”, há trechos narrados em terceira, em primeira e até em segunda pessoa – uma alternância que nada tem de gratuita e que também não surgiu sem uma boa dose de experimentação, de tentativa e erro, em busca da melhor forma de contar aquela história.

É possível escrever tratados inteiros sobre cada pessoa e cada tempo verbal. O que todos têm em comum é o fato de cada escolha dar ao autor uma chave que abre algumas portas ao mesmo tempo que fecha outras. Nem todas as implicações são claras no momento em que se faz a opção. O excelente “O encontro marcado”, narrado numa terceira pessoa colada ao ponto de vista de Eduardo Marciano, conduz Fernando Sabino a um impasse já perto do fim, quando precisa dar ao leitor uma informação (sobre o filho abortado de Marciano) que o próprio personagem, alter ego do autor, não tem. A solução que o escritor encontra é trair por algumas linhas a voz do livro, sujando com um curinga sua canastra de resto perfeita.

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