Tempos Históricos: São Paulo, Brasil, Mundo (Entre currículos e outras vozes)

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Discutirei descaminhos governamentais do Ensino de História em São Paulo a partir de um grito de alerta, que intitula este Fórum de Debate: São Paulo sem passado! Essa fala expressa uma legítima preocupação: diante da ausência de História nas três  séries iniciais do Ensino elementar, implantada pela Resolução SEE/SP nº 81, de 16 de dezembro de 2011, crianças serão educadas (ou deseducadas) na ignorância do passado, vale dizer, de uma parte muito importante da História. Adolescentes e adultos sofrerão efeitos retardados dessa bomba de lesa-conhecimento, que também é lesa-autoconhecimento.

Começarei problematizando uma faceta do tema: História não é somente passado, é tempo social, como nos ensinaram, no começo dos anos 40 do século XX, o clássico historiador Marc Bloch, assassinado pelos nazistas (BLOCH), e o igualmente clássico filósofo Walter Benjamin, também suicidado pelo Nazismo, que denunciou uma imagem de passado esvaziado de experiências sociais (BENJAMIN). Antes deles, no século XIX, as vozes brilhantes de Jules Michelet e Karl Marx tinham falado de História a partir do presente de cada um (miséria dos trabalhadores pobres, Economia em espetacular expansão), visando ao futuro (recuperação de conquistas revolucionárias de 1789 ou realização de nova revolução), problematizando o passado (que grandezas são aquelas comemoradas em datas cívicas e nos discursos dominantes?) – MICHELET. MARX. Entre nós, as fascinantes escritas de Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda fizeram algo similar e com grande vigor, indagando: que país foi este? que país é este? que país será este? – CUNHA. FREYRE. BUARQUE DE HOLLANDA.

A incúria governamental paulista, retardando o contato escolar com historicidades, fere profundamente os tempos sociais que compõem a História – passado, presente, futuro. É um ato de culto à ignorância e destruição da cidadania, claro exemplo de antirepublicanismo. Falamos, portanto, como profissionais de História e também como cidadãos, diante desse novo descalabro deseducacional de governos paulistas, que fomentam o desconhecimento com o auxílio luxuoso de profissionais de História e Educação, alheios à mínima ética profissional. Alguns de seus antecessores na profissão assessoraram uma ditadura (1964/1984) em nome da neutralidade política, à maneira dos nazistas que alegavam ter matado pessoas aos montes porque cumpriam ordens (ARENDT).

O título de nosso Fórum de Debate lembra um filme alemão de 1990, Uma cidade sem passado, dirigido por Michael Verhoeven (VERHOEVEN). Nele, uma cidade da Bavária mantém a versão de que não poosuía passado nazista. A jovem estudante Sonja, que localiza informações em sentido contrário, sofre seguidas retaliações até que, comprovando irrefutavelmente a veracidade de suas críticas, é tornada heroína – quer dizer, recebe e a identidade de novo presente indiscutível. Ela opta por fugir daquilo tudo.

A rigor, o título do filme é um enigma: a cidade possuía um passado higienizado, desprovido de crítica, que servia às relações de poder em seu presente. Nesse sentido, ela não tinha um passado refletido, seu passado era um discurso ideológico sem argumentação demonstrativa e explicativa. A protagonista do filme contribui para estabelecer esse universo de crítica, que existe para problematizar o mundo.

No caso de São Paulo sem Ensino de História, é possível identificar algo parecido. Crianças e adolescentes que sofrerem essa violência conhecerão um passado, sim. Demorarão a serem iniciadas em procedimentos mínimos de conhecimento histórico, talvez nunca o sejam, mas não permanecerão tabula rasa, receberão informações sobre um certo passado, uma certa História que, evidentemente, legitimará um certo presente das relações de poder, um certo futuro – outras mesmas Histórias…

Sabemos que falas sobre História vêm não apenas dos Historiadores, dos Professores de História e dos Professores das várias disciplinas nas séries iniciais do Ensino Elementar. A cultura histórica circula na televisão, nos nomes das ruas, nos nomes das estradas, nos monumentos em vias públicas, nos prenomes escolhidos para crianças em homenagem a determinados personagens (Michael Jackson, Lady Di)…

Indicarei alguns exemplos bem paulistanos (mas que atingem outras áreas do estado, além de sua capital): existe um monumento artístico no Parque do Ibirapuera, obra do importante escultor modernista Victor Brecheret, dedicado aos bandeirantes; são preservadas “Casas bandeirantes” como monumentos históricos; saem da cidade ou passam por ela rodovias com nomes como Bandeirantes, Fernão Dias, Raposo Tavares. Os paulistas são conhecidos como “bandeirantes”. Ideólogos retardatários retomam os argumentos de Brasil feito por São Paulo e São Paulo locomotiva do Brasil (Hoje: PINSKY. Ontem: ELLIS JR.), apesar da evidente crise do transporte ferroviário no país!

Mas o presente pode também problematizar o passado e vice-versa! Isso se observa numa iniciativa de Luiza Erundina, na Prefeitura de São Paulo: a criação de uma Embaixada dos Povos da Floresta.

A Casa do Sertanista, construção de taipa de meados do século XVII, foi cedida para uso da União das Nações Indígenas. Ali, ficou instalada a Embaixada dos Povos da Floresta, com exibição de vídeos, fitas, fotografias e promovidas exposições e eventos, além de ser mantida biblioteca especializada. A secretária de Cultura na época, Marilena Chauí, na solenidade de instalação do novo espaço. afirmou: “Será um território livre, autônomo e soberano, na cidade, para os povos da floresta.”

Nesse caso, os indígenas, outrora escravizados ou mortos pelos bandeirantes, foram aceitos como seres dotados de saberes a serem transmitidos aos moradores de São Paulo, outro perfil de Brasil e de circulação de saberes. Ao invés de se reiterar a ideologia de construção nacional pelos opressores, houve a oportunidade de pensar numa construção em andamento com a participação ativa dos que foram oprimidos mas são mais que isso.

A limitação do Ensino de História no ensino fundamental significa São Paulo (Brasil e mundo também) sem tempo social refletido criticamente ou com o tempo social que apenas legitima as relações de poder no presente. Cabe aos Profissionais de História e a outros interessados nessa questão refletir sobre possibilidades de mudança nesse panorama que se anuncia sombrio.

Na experiência da Proposta Curricular para o Ensino de História para a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (1986/1988), que contou com a assessoria minha e de Dea Fenelon, foram publicados editoriais pela grande imprensa paulista contra conteúdos e desdobramentos daqueles documentos. Esses editoriais (espaço nobre de qualquer periódico) demonstraram a enorme importância atribuída ao ensino de História pela Imprensa e pelos setores sociais que ela representava. Daí, ser possível entender que nossa área e nosso trabalho são de extrema importância social tanto para seus destinatários imediatos (professores e alunos) quanto para aqueles que pretendem dominar a opinião pública em nome dos interesses sociais privilegiados.

A atual discussão é nova oportunidade de assumirmos nossa gigantesca importância como intelectuais que pensamos o tempo social criticamente; como cidadãos que lutamos pela garantia de passado, presente e futuro na condição de objeto de reflexão; e como agentes de um possível futuro coletivo melhor que o presente de extrema carência e violência, que inclui o sequestro de passado, presente e futuro.

Fala-se muito sobre um Brasil sem miséria, um Brasil que supera a pobreza extrema. O Brasil sem tempo social que seja objeto de reflexão e crítica é um país de miséria intelectual e política, é um Brasil sem passado nem presente nem futuro.

Estamos discutindo, portanto, sobre a dignidade do Brasil (de São Paulo e do mundo) com História crítica, que passa pelo tesouro que temos em mãos – o Ensino de História.

Não podemos deixar que esse tesouro seja destruído por seguidos desgovernos e seus ideólogos.

FONTES CITADAS:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de História”, in: Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BLOCH, Marc. Apologia da História ou O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001

BUARQUE DE HOLLANDA, Sergio. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2011

CUNHA, Euclides. Os sertões. Cotia: Ateliê Editorial, 2009.

ELLIS JR., Alfredo,Raça de Gigantes – A Civilização no Planalto Paulista, Editora Hélios Limitada, São Paulo, 1926.

FREYRE , Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 1998.

MARX, Karl. “O dezoito brumário”, in: O dezoito brumário e Cartas a Kugelman. Tradução de Leandro Konder e Renato Guimarães. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, pp 9/159

MICHELET, Jules – O povo. Tradução de G. C. C. Souza. São Paulo: Martins Fontes, 1988

PINSKY, Jaime. “São Paulo, cidade nacional”. www1.folha.uol.com.br/…/1223202-jaimepinsky-sao…

VERHOEVEN, Michael. Uma cidade sem passado. Alemanha. Elenco: Lena Stolze, Monika Baumgartner, Michael Gahr, Fred Stillkrauth, Elisabeth Bertram, Robert Giggenbach, Michael Guillaume, Karin Thaler, Hans-Reinhard Müller, Barbara Gallauner, Willi Schultes. Produção: Michael Senftleben; Roteiro: Michael Verhoeven. Fotografia: Axel de Roche. Trilha Sonora: Mike Hertung, Elmar Schloter, Billy Gorlt. 1990. Colorido.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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