Tempos sombrios

Por Walter Hupsel
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Se existe algo como “o brasileiro”, aquele médio, que poderia representar o todo, ele tem algo que poderíamos chamar de “personalidade autoritária”. Causas há, sociais, históricas, culturais, educacionais, políticas… e elas se retroalimentam.

Junto a isso (ou talvez por isso) há uma sociedade violenta, machista, da cultura do machão autossuficiente, que resolve seus problemas da maneira mais imediata possível. Na mão, na porrada.

É nessa chave que posso interpretar o enorme apoio que tem a violência policial entre nossos conterrâneos (ou, pelo menos, pelo que vemos nos comentários). Pouco se demanda das instituições, pouco ou nada. Preferem enxergar na violência mais bruta um ato de heroísmo contra algo que sequer sabem bem o que é e nem mesmo o que significa.

O brado bárbaro, repetido sempre sem nenhuma racionalidade, pura bílis, de “direitos humanos pra humanos direitos”, é o exemplo mais forte dessas características. Os tais “direitos humanos” foram uma demanda social contra o poder e o arbítrio estatal, uma tentativa de por alguma rédea para que o cavalo não seja tão xucro e não saia dando coices nos seus donos.

Mas a retórica bárbara se recusa a tentar entender que todos, absolutamente todos, têm esses direitos. Tentam fazer a separação entre “nós” e “outros”, sendo que os “outros” são aqueles que o próprio Estado, através de seus agentes, decide quem são. Novamente, de maneira imediata, fora dos parâmetros legais.

A modernidade trouxe algumas conquistas e uma delas é o Estado de Direito. Este diz expressamente que todos, e não somente nós, têm direito ao devido processo legal e a ampla defesa. Até mesmo porque, sem o direito à ampla defesa, a separação entre nós e os outros simplesmente inexiste. Será culpado quem for, imediatamente, culpabilizado pelos agentes estatais, que tudo podem (como disse Guaraci Mingardi)! E a sua sentença pronunciada no exato instante: morte!

Decidem sobre quem são os outros, decidem o que cometeram, decidem a pena, tudo concentrado nos mesmo agentes e instantaneamente. Nem mesmo no Direito Primitivo, no direito à vingança, no qual vale a velha máxima do “olho por olho”, a sentença é pronunciada pelo executor, sem investigação e a defesa do réu.

Mas hoje, e aqui, ouvimos aplausos para a execução dos “outros”. Ouvimos aplausos quando o Estado age ilegalmente e não segue suas próprias regras. Ouvimos aplausos para pura barbárie do aparato que devia ser o guardião da legalidade.

A ordem é colocada acima da lei. Isso cria o autoritarismo e alimenta o abuso de poder. Se o aparato estatal não age dentro das leis, por que devem, os outros, agir?

A resposta contemplada pela barbárie é: por puro medo. Ser governado pelo medo, aplaudir a barbárie. Este é um tempo realmente sombrio.

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