Tenho fases, como a lua…

“uma parte de mim é permanente…”
Ferreira Gullar

Por que esperar outras vidas para ter outras existências, se eu as tive tantas nesta vida mesma e tantas outras me acenam, querendo acontecer? Aconteci tantas vezes que já perdi a conta, mas estou pronta para outras. Sou da raça dos que gostam de brotar. E quando não aconteço, eu me sonho. Nessas horas em que é o mundo que acontece, não eu; nessas horas em que me apassivo, eu fico me sonhando, muda e eterna, como se fosse feita de deus.

Chamamos de fases as nossas muitas existências. Há fases que perduram por muito tempo e outras que passam rápido. A gente vai existindo aos bocados. Um bocado de mim tem generosidade, outro não. Um bocado é ridículo e tento ocultar este eu ridículo, embora seja o meu ridículo irmão dos outros ridículos. Um bocado de mim é perplexo, eu acho muito fina essa existência de espanto. Diz o poeta que a gente fica “posto em espanto”. Essa expressão é mágica. É quando tudo nos ensina, tudo nos faz ficar atentos. Mas já outra existência passa ao largo, não quer saber dos arredores. Outra nem quer saber de si mesma.

Um bocado de mim tem medo. Outra vez estou arrojada, desmedida em coragem. Uma é alegria às escâncaras. Outra é a tristeza arrastando-se pelas escuridões de mim. Um bocado de mim seduz e outro repugna. Há uma existência de solidão que melhor conta de mim do que qualquer história que eu narrasse. Entro na solidão e um prazer se alastra. Outra hora eu quero gentes, quero mistura de sentir e de pensar. Quero ouvir vozes que não as minhas. É assim que me refaço continuamente, e por isso, sou muitas existências.
Numa existência, eu fui uma cidade. A única cidade, porque as outras são reflexo dela. Era uma cidade que não se encontra mais, por muito que se procure. Eu procurei muitas vezes essa cidade, mas, no lugar dela, há outras edificações, outra gente, outro jeito. Só que, como eu fui aquela cidade, ela ainda vive em mim. É só assim que entendo essa existência não aparente para os outros. Quando alguém me olha, vislumbra uma cidade perdida, mas não sabe.

Também eu era um livro empoeirado. Um livro cujo papel se desmanchava quando era tocado. Transformei-me em palavras para reter o livro do passado. Nenhum livro é aquele livro. E eu também não o sou mais.

Um bocado de mim é planta e um bocado é bicho. Um bocado se aquieta e outro vive em estado de alerta. Um bocado não pára nunca, nem quando dorme. Um se deixa levar, outro arrasta e arrebata quem chega perto de si. Uma vez sou nuvem, outra vez pedra. Uma fase de mim é água, existo líquida. Outra é feita de combustão.

Não pensem que me vêem quando olham para mim ou lêem o que escrevo. Nunca estou onde me pensam, muito menos num papel. O papel e as palavras estão em mim, mas eu não estou, nunca estarei neles.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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