Tentar e tentar de novo com paciência

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

Tenho certeza de que com o tempo os escritores desenvolvem uma tática a respeito de quais livros podem ser lidos durante o processo de escrita e quais devem ser evitados a todo custo. Não ler não é uma possibilidade. Livros a serem evitados podem ser os muito ruins. O temor da má influência. Certos escritores, porém, se sentirão pelo contrário estimulados com literatura que consideram de baixa qualidade (no sentido de “ei, eu posso fazer melhor”), acreditando que a paralisia criativa vem do encontro com uma grande obra (“nunca vou conseguir, socorro”). Certa dose de aleatoriedade, de qualquer maneira, não pode ser evitada. Nunca se sabe o que há num livro até que a gente comece a lê-lo.
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Aos poucos, vai se matando a ilusão do “posso escrever qualquer livro”. Não posso. Tenho um estilo, temas, obsessões. Às vezes encontro um bom livro e penso: poderia ter escrito esse (se tivesse vivido essa vida, se tivesse mais talento, etc.). Outras vezes, com outro bom livro, concluo: não poderia ter escrito esse (é tão diferente do que tento e do que posso fazer e do que quero fazer. A ênfase aqui está no diferente). Ou seja, o livro, antes que a gente comece a escrevê-lo, não é exatamente uma tela em branco. Não se pode ir em todas as direções. Nós somos a limitação.
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Ao mesmo tempo, há essa ideia fixa, esse temor constante de que se acabe escrevendo o mesmo livro repetidamente. Análises maleáveis podem provar que, sim, isso sempre acontece. Lá dentro, no núcleo. Mas queremos evitar que seja o mesmo livro também na superfície, até porque seria muito chato se dedicar por anos a um projeto que não é exatamente novo e, por consequência, nada estimulante de ser executado.
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E a vida vai acontecendo. As questões são sempre as mesmas diante disso: gastar menos energia com a vida e mais energia com a arte? As perguntas  também são as mesmas diante dos pequenos dilemas da escrita: quem vai contar essa história? De que maneira? Sobre o que mesmo estou falando? Não há muita originalidade nos pequenos dilemas ou nas questões vitais. É inútil buscar conflitos originais, na vida ou na arte. Meio desesperador, em resumo.
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Ganhei um livro chamado Dept. of Speculation (Jenny Ofill). A personagem é uma escritora. Mas o livro é sobre casamento. Maternidade. Crise conjugal. E sobre como esse rumo que a vida tomou tinha algo de decepcionante e inesperado para a narradora: “Meu plano era nunca me casar. Em vez disso, eu ia ser um monstro da arte. Mulheres quase nunca viram monstros da arte porque monstros da arte só se importam com arte, nunca com coisas mundanas. Nabokov nem fechava seu guarda-chuva. Vera lambia os selos para ele.”
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Claro que isso explica muita coisa, sobretudo em uma perspectiva histórica. Mas Jenny Offill escreveu um dos dez melhores livros do ano segundo o New York Times.
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Agora estou lendo o novo romance do australiano Steve Toltz. É um de meus escritores favoritos, e se enquadra naquela categoria de “artistas que não posso nem almejar ser”: engraçado demais e com uma tendência absurda a englobar todo o universo e questões vitais em livros de 400 páginas. Tudo que não sou (sem ressentimentos). O narrador de Quicksand, novo livro de Toltz, é um escritor frustrado (quantas milhões de vezes já vi essas duas palavras juntas?, penso agora) que decide escrever um romance sobre seu melhor amigo, Aldo Benjamin. “Olho para as minhas anotações e penso: eu ficaria chateado se, depois de escrever um livro inteiro, uma fotografia de seu rosto em agonia desse igualmente conta do recado.”
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Estou tirando fotografias.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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