Tentehar: Arquitetura do Sensível

A abertura do 24º forumdoc.bh 2020, no último 19 de novembro, foi com o documentário Tentehar: arquitetura do sensível (2020), de Paloma Rocha e Luis Abramo. Como os 71 filmes das três mostras deste ano, esse último trabalho de Rocha/Abramo esteve disponível online na plataforma do festival (forumdoc.bh), no decorrer da semana.

Entre um percurso e outro por contextos diversos de Brasil (MST, Lula Livre, luta democrática, pessoas em situações de rua, questão ambiental), os realizadores adentram o mundo Guajajara, da TI Araribóia/MA. Movimentam-se entre o fora e o campo da imagem, aproximam-se, assim, das lideranças indígenas, que colocam seu corpo e pensamento em direção a conjuntura da época. Nesse sentido, em contraponto a ideia da sociedade nacional como centro, quanto mais Tentehar: arquitetura do sensível move-se em direção ao Brasil (urbano, político, metropolitano), a TI Guajajara se estabelece como campo de atração, que, sob uma montagem em espiral, irradia-se como lugar de onde partem questões mais amplas (política, social, ambiental) pondo em perspectiva a condição indígena e contemporânea brasileira.

Se, por um lado, registram a resistência dos Guardiões da Floresta, por outro, com a câmera e o microfone pelas ruas, Rocha/Abramo colocam o advento do bolsonarismo em tela. Aos poucos, suas lentes se expandem, livremente, para outras formas de luta e espaços (políticos, sociais e geográficos), entretanto, com a TI Guajajara como espaço central, a partir dos seus próprios agentes. Mesmo que Rocha/Abramo não façam seus personagens se espalharem por todas as dimensões do filme, como o médico sanitarista Noel Nutels que, em O índio cor de rosa contra a fera invisível (2020), ocupa o lugar de personagem, narrador e autor das imagens de arquivo, vê-se a força da presença Guajajara no decorrer de Tentehar: arquitetura do sensível.

Com as eleições de 2018 em perspectiva, Rocha/Abramo chegam naquele momento em que a civilização brasileira está prestes a ultrapassar mais uma das fronteiras rumo a barbárie: a negação do Outro, o desbaratamento dos órgãos de proteção e o incentivo ao agronegócio sobre as terras indígenas. Mas, já sabemos em Apiyemiyekí? (2019), de Ana Vaz, presente também na programação do forumdoc.bh, que esse limite foi ultrapassado na história recente do Brasil, quando, na Ditadura Militar, as aldeias Waimiri-Atroari, Amazonas-AM, tornarem-se alvos do napalm jogada sobre populações inteiras. Por quê? Segundo vozes missionárias que acompanharam esses povos da floresta e que chegaram a Vaz, essa era a pergunta que mais ouviam.

”Por que os brancos matam tanto os povos indígenas”?

Diante da câmera de Rocha/Abramo, a sequência com Sonia Guajajara à mesa, ao lado de seus parentes, é fundamental para compreendermos que essa problemática indígena não é de agora, nem tampouco nascida há quarenta anos. O que significa que falar em fascismo como dado do presente, é desconsiderar ou no mínimo relativizar a história já seis vezes secular do genocídio indígena.

Ao articular o mesmo mundo histórico, Tentehar: arquitetura do sensível encontra um espelho, mas fabricado por seus próprios agentes históricos, em Zawxiperkwer Ka’a: Guardiões da Floresta (2020), de Jocy e Milson Guajajara.

Nesse filme, ultrapassar a linha entre o campo e o fora de campo da imagem não figura apenas exercício de filmagem porque o ato de documentar a história não acontece sem cicatrizes e rasuras. Vive-se a feitura do filme, vivendo as próprias tensões da hora do registro. Nesse sentido, em Martírio (2016), de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, nascido do registro do ataque de pistoleiros à comunidade feito por um Kaiowá, com sua pequena câmera digital, o fragmento final incorpora à materialidade da imagem todos os riscos do real. A câmera presa ao seu corpo, permanentemente instável, era a arma que dispunha contra as armas do agronegócio, já que para a justiça a barbárie só podia ser provada com imagens – e era preciso fazê-las.

O mesmo sentimos de forma quase palpável no fechamento de Zawxiperkwer Ka’a: Guardiões da Floresta, com o ataque dos capangas das fazendas locais sendo desvelado na própria instabilidade e indefinição da imagem.

Já em Tentehar: arquitetura do sensível, as tensões da hora do registro aparecem em pelo menos uma sequência, ao seguirmos os Guardiões da Floresta em ação capturando um intruso a TI. Nesse segmento, a urgência transpira por todos os poros da imagem, com o real pulsando e nos inserindo no filme e, ao mesmo tempo, da História. Daí a unidade espacial entre o fora e o campo da imagem ser, nas lentes indígenas, inerente ao próprio ato documentário, como se espaço fílmico e histórico se confundissem.

Mas é o jovem Auro Guajajara que, de forma contundente, sintetiza o horror da civilização brasileira a assombrar o presente, com suas manchas de sangue e sistemática anulação da diferença. O que é portanto ser civilizado? É uma pergunta que desde os Waimiri-Atroari é feita permanentemente pelos povos da floresta e que Auro Guajajara retoma e traduz aos diretores Paloma Rocha e Luiz Abramo em um carro em movimento pelos diversos contextos de Brasil.

Marcos Aurélio Felipe é professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor do livro “Ensaios sobre cinema indígena no Brasil e outros espelhos pós-coloniais” (Ed. Sulina, 2020). [ Ver todos os artigos ]

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