Terceiro Capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes

TRÊS

O PADRE BATEU COM FORÇA A PORTA do sacrário, flectiu ligeiramente a perna, mas não fez o sinal da cruz, não teve tempo ou recusou-se a fazê-lo, como supunham aqueles pobres mortais plantados ali desde as matinas e escandalizados com o sacerdote que ia arrancando os paramentos e os largando no átrio. Para trás havia ficado o rebanho, o altar profanado e São Sebastião no seu silêncio renitente, velho padroeiro carecendo de uma demão de tinta para corrigir a escamação e os golpes de machado que o sacrílego aplicara na busca desesperada por ouro. Não sabia o ladrão de muita coisa, entre tantas, que o santo nunca fora de pau oco. Madeira maciça, desde tempos imemoriais, quando as enxós e as grosas de escultores anônimos lhe definiram a superfície em busca da forma e da exatidão da dor.

Às horas mortas e à luz do Santíssimo como pode ter ido alguém fazer aquilo? O padre estremecia de raiva, enquanto o vento lhe enfunava a batina e a poeira quente da rua o cegava. As pessoas iam topando com ele, uns davam as horas, outros pediam a bênção, mas o vigário não dava fé de ninguém. Tinha pressa e muita perturbação dentro do juízo, precisava recolher-se. Antes passaria na casa de Minervina, que era caminho. Jantaria com ela e aproveitaria para organizar o calendário das novenas.

Tinha história aquele toco de madeira trazido há cem anos por Rabelo Arconegro, o primeiro padre a botar os pés dentro de Princeza. A imagem chegou embrulhada num pano e somente seria mostrada no fim da celebração para uma multidão de vaqueiros e índios da nação Coremas, vindos da aldeia de Alagoa Nova com o fim de conhecer o santo do qual tanto falavam os catequistas. Acabada a missa, o padre retirou o pano e todos puderam ver, pela primeira vez, a imagem flechada e sangrando sua agonia de morte, mas ainda de pé, não tão de pé quanto os índios que se precipitaram da capela na carreira, se embrenharam no mato e nunca mais voltaram à vila. Os indígenas temiam a acusação de terem atentado contra o santo, atentado contra aquele que, nas palavras do sacerdote, ia curar não apenas as doenças matadeiras como a bubônica; sua misericórdia prometia ir além, alcançando morrinhas bestas como coceira, ramo, espinhela caída, frieira, bucho inchado, erisipela e flatulência.

Tão logo avistou o padre, Minervina beijou-lhe a mão e o conduziu até a sala de jantar onde Barbaciano sorvia em grande barulho a sua sopa de costelas, lubrificante para as tripas receberem o grosso: arroz de leite, carne de sol, paçoca, farofa de torresmo, tatu guisado e uma dúzia de ovos de galinha d’angola mal passados, que era coisa muito do seu gosto.

– É o fim do mundo! – desabafou o pároco.

– Coma, padre, depois a gente conversa!

– É o fim do mundo! – repetiu baixinho, já tomando assento.

E acabou o vigário por esquecer as coisas desagradáveis: o sacrilégio contra sua igreja e a marcha dos comunistas. O silêncio logo foi interrompido pelos gritos de Caluzinha. A moça correu do quarto tentando arrancar a roupa na agonia, querendo se livrar dos besouros que estavam por toda parte do seu corpo. Aí o coronel Barbaciano sacudiu os talheres, foi até a janela e deu a ordem:

– Desliguem o motor!

E no mesmo instante um portador saiu em disparada no rumo da casa de força, levando o recado e o eco do berro ainda ressoando nos ouvidos.

O coronel dera ordens para o chefe da casa de força manter a cidade iluminada a noite inteira por esses dias. De longe, os cavaleiros iam imaginar que havia homens em alerta. E desde então o velho motor passou a não ser mais desligado às nove horas. Por enquanto, os inimigos eram outros, sempre assim por essas épocas do ano. Iludidos com a luz, os besouros infestavam as casas, infernizando a vida de todos. O resto da fome empurrou de novo o coronel à mesa. O padre logo se recuperou do susto e retomou os talheres.

As velas do castiçal construíam mais sombras do que claros. E quando a comida já estava se tornando insuportável, o coronel chegou o lume junto do prato e viu que havia lá dentro mais besouros do que qualquer outra coisa que supunha estar degustando, então vomitou como uma cachoeira sobre a mesa. Depois ele olhou em volta e começou a suar frio. O teto da casa – todo em tábuas de cedro assentadas em vigorosas linhas de sucupira – pôs-se a rodar. As paredes também rodavam junto com os vitrais e toda a mobília. Tudo rodava. O padre tentou falar, mas não conseguiu, foi quando checou a garganta, mas só ouviu a corredeira gosmenta batendo nas estalactites da goela e se precipitando no assoalho da sala.

Quando Minervina e os empregados da casa chegaram com rodos, baldes de terra e panos de chão, deram com Barbaciano e o padre de costas um para o outro, as cabeças abaixadas como bêbados. Ao sentirem aquele cheiro acre de gororoba regurgitada, todos começaram a vomitar ao mesmo tempo, e dentro de instantes não se via mais os tijolinhos vermelhos do ladrilho do piso, agora totalmente submerso.

Comentários

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  1. Anchieta Rolim 22 de agosto de 2011 17:09

    É isso ai grande Aldo, muito bom! Dia 05 de setembro estarei lá por Elidete pra levarmos um papo. Inté

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