Terceiro dia e avaliação geral sobre o Flipipa 2011

Alunos da rede pública conhecem a biblioteca móvel do Sesc

TC

Alguém tem de trabalhar neste domingo aqui em Pipa, ainda bem que as piores previsões não se confirmaram, quer dizer, somente em parte, o jornalista Rafael Duarte, com quem reparti um quarto na pousada, não ronca na intensidade e altura com que vários colegas me aterrorizaram, levando-me a tomar uns três copos de cerveja pra apagar profundamente tão logo caísse na cama.

Enfrentar quatro mesas redondas, praticamente sem intervalo, entre 18h30 e 22h30, como ocorreu ontem na última noite do Flipipa não é brincadeira, mas fui até quase o fim, saí uns dez minutos antes do enceramento da última mesa da noite, menos por cansaço e mais porque achei insossa a conversa dos escritores Rubens Figueiredo e Carlos Fialho.

Fiquei desapontado porque foi a única mesa que tratou especificamente de romance e a qual eu depositava uma boa expectativa. Reparem, não é que tenha sido ruim, longe de mim desqualificar o trabalho dos dois escritores, talvez eu é que tenha criado uma expectativa exagerada ou não tenham sido abordadas questões que poderiam me fazer ter uma outra opinião.

Incomodaram-me o tom baixo, lento e sem entusiasmo da voz de Figueiredo, a postura pouco provocativa do mediador. Pareceu-me também que platéia estava cansada. Fiquei com a impressão de que aquela é a postura normal de Figueiredo, que foi bastante solícito e respondeu a todas as questões levantadas por Fialho. Esta foi também a mesa que deu menos público. As três anteriores lotaram, o que me surpreendeu, principalmente porque a segunda e a terceira eram sobre poesia, respectivamente, com Carlito Azevedo e Ana de Santana, e Eucanaã Ferraz e João Batista de Morais. Estas duas contaram praticamente com o mesmo público da primeira, sobre a novela da Globo Cordel do Fogo Encantado (Cordel encantado: telenovela e literatura), com Thelma Guedes e Márcia C. Veltrini, mediada por Heverton Freitas, assunto de forte apelo popular.

POESIA EM ALTA

Fiquei surpreendido porque muita gente tem dado notícias de que poesia está em baixa, não tem leitores e nem interessa a mais ninguém etc e o que vi foi uma platéia atenta e vibrante nas duas palestras, o que me deixou muito animado.

Confesso que assisti a primeira mesa, sobre a telenovela da Globo, por obrigação do ofício, o assunto não me interessava nem um pouco. A escritora Thelma Guedes fez uma boa explanação. Achei, contudo, que a psicanalista Márcia Veltrini não acrescentou muita coisa e o mediador, jornalista Heverton de Freitas poderia ter aprofundado questões acerca das relações entre as telenovelas e a literatura.

Na minha não isenta opinião as duas melhores mesas do último dia foram as dos poetas. Muito boas mesmo, tanto Carlito quanto Eucanaã deram show, recitaram poemas, falaram de outros poetas importantes, deram dicas de links interessantes e falaram com propriedade sobre questões pertinentes à poesia.

AVALIAÇÃO FINAL

Acho que o Flipipa deste ano evoluiu bastante em relação aos dois anteriores. Está num local mais amplo e apropriado, as mesas, com algumas exceções, foram muito boas (comentei isso em posts anteriores), as que desandaram um pouco se deve muito mais aos participantes, os “loucos de palestra” – e eu vi vários rondando por lá, ansiosos – foram contidos porque se estabeleceu que perguntas só por escrito, o entorno do evento, com o Sebo Vermelho, a Cooperativa e a BiblioSesc tiveram um papel importante, um público infantil bastante expressivo participou das atividades desta biblioteca móvel.

Não comento a programação paralela, oficinas, exibição de filmes, caminhada literária etc porque não me interessei em acompanhar, para fazer isso teria de dedicar o dia inteiro ao trabalho e penso que aí já seria exigir demais deste cada dia mais abusado editor, mas os jornais devem trazer notícias sobre isso, quem se interessar é só consultar Diário de Natal, Tribuna do Norte e Novo Jornal, que estavam com bons repórteres aqui.

Ganhei o livro autografado da contista Luisa Geisler (Contos de Mentira), obra vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2010, que pretendo depois da leitura comentar neste blog.

Que mais?

Sim, vi a instalação “Caranguejos, cuidado!’ (foto) e a intervenção em memória da obra de Hélio Galvão sobre suas crônicas “Cartas da Praia”, da fotógrafa Candinha Bezerra.

Acho que deu muito certo a apresentação musical ontem no final da tarde, é uma boa maneira de atrair o pessoal mais cedo para o Festival, falo isso porque eu mesmo me preocupei em chegar às 17h30 no local para assistir ao show. A experiência pode ser estendida nos próximos Flipipas. Não precisa ser artista de fora, famoso, nada disso, acho que com pouco dinheiro, bem pouco mesmo, se realiza um bom show, que agrega e não atrapalha em nada a programação literária.

A outra observação é com relação ao número de mesas. Acho que o ideal é mesmo três por noite, com um espaço maior entre uma mesa e outra para o cara tomar uma água ou ir ao banheiro etc. Além disso, fica cansativo e pouco produtivo.

Penso que já passou da hora de o evento ser transmitido online, isso aumentaria em muito o seu alcance, democratizando-o ainda mais e tenho absoluta certeza de que ninguém deixará de estar em Pipa pra assistir pela internet.

É isso, gostei muito, com poucas ressalvas, e no próximo ano estarei de volta.

Se esqueci de mencionar algo importante, o que não é difícil de ocorrer, depois eu falo em post ou comentário.

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 21 de novembro de 2011 17:36

    ERRATA: leia-se Saussure.

  2. Jarbas Martins 21 de novembro de 2011 15:34

    Uma pena não ter assistido a palestra de Eucanaã, mediada por João Batista de Moraes, meu amigo e mestre.Mas pela avaliação (muito boa) feita pela professora Tarciana Meire de Souza, ambos saíram-se muito bem.Há uma justificativa, professora Tarciana, para o fato de AA não ter correspondido à sua expectativa, e o meu evidente embaraço: é que nos entregaram um tema (A POÉTICA LINGUISTICO-VISUAL NA OBRA DE ARNALDO ANTUNES) – que está mais para tema de defesa de doutorado na USP, do que para palestra para um público não-especializado como o daquele evento.Os dois poetas (sou um poeta provinciano mas, mesmo assim, poeta) não sabíamos
    misturar nossas falas poéticas com Seausseare e companhia.Tá explicado. E sua observação, professora, está correta.Abraços.

  3. Jairo llima 21 de novembro de 2011 13:58

    Eita, Tácito, tu é bom, mago!

  4. Paulo César 21 de novembro de 2011 12:08

    Alice N. faz reclamação muito pertinente, cortaram 3 coqueiros?
    Absurdo dos absurdos, deveriam ter instalado as tais tendas e etc incluindo os pobres coqueiros. Soluções decerto existiam, mas cortaram mesmo?
    Horroriza-me saber que pessoa tão envolvida com o litoral, como o Dácio Galvão, que sei ser velho frequentador daquele local, até por herança(Hélio Galvão) deve saber que coqueiros da bahia ou coqueiro gigante, a especie que sei ser os cortados, custam 6 a 7 anos para começarem a produzir e vivem mais de 100(CEM ANOS!!!). Não sei a idade dos que foram criminosamente(!) cortados mas imagino que eles tinham mais de 30 anos. Vou checar com nativos no próximo final de semana, quando irei descansar naquela aprazível praia.

  5. Sergio Vilar 21 de novembro de 2011 11:50

    Tarciana, não é entrevista que não consegui fazer. Se fosse, não comentaria. Teria sido bobeira minha, tão somente. Foi que ninguém conseguiu fazer. Então, volto à questão, também defendida por Jóis: na minha modesta opinião, a organização poderia tratar melhor essa questão. Até para melhor repercussão do evento. E acho que uma coletiva curta, de 15 minutinhos que fosse, seria legal. E aí, repórteres que se virassem para conseguir exclusiva, caso os convidados quisessem falar. Penso ser essa uma questão importante.

    Não sei se você esteve na segunda edição. Mas o frio na tenda foi algo mais comentado do que as palestras no ano passado. Incomodava bastante. E é o típico lance a ser considerado por uma organização. Que bom que Dácio levou em consideração as reclamações feitas no ano passado, não só por mim. Pelo menos ele achou importante. E tal qual a altura do palco, são detalhes a serem corrigidos. O próprio Tácito também concordou com isso. São críticas construtivas para aperfeiçoamento do festival.

    As últimas mesas, como disse, não assisti. Ora porque estava entrevistando fora da tenda, ora porque realmente não quis. Mas olhei de fora e vi muitos poetas. Muitos mesmo. Ou professores, pesquisadores, escritores – gente do mesmo nicho. Gente intelectualizada. O número de nativos foi muito mais reduzido. De crianças, praticamente inexistente. Mas como disse, o festival cumpriu seu papel no que se propôs.

    Não comentei mais detalhadamente sobre cada mesa porque preciso dividir informação pra jornal, pra revista e pra blog. É complicado!.rs E, claro, fiz considerações generalizadas. Em blogs, os textos são mais curtos ou ninguém lê. Das sete que assisti, assim eu fiz.

  6. tarciana meire de souza 21 de novembro de 2011 1:57

    Tácito, parabéns pelos seus comentários. Andei olhando em outros blogs e percebi que perde-se muito tempo falando em entrevistas que não conseguiu fazer, em cara emburrada de assessor de escritor e se a tenda estava quente ou fria, se o palco era alto ou baixo… Ninguém resumiu tão bem as palestras quanto você aqui neste Substantivo, que acompanhou muito bem. Se você, como eu, viu a noite em que os poetas brilharam, notou que na plateia havia poucos poetas. Grande parte era de professores como eu, alguns escritores, mas a maioria gente comum, e até crianças. Sentei ao lado do câmera que estava filmando o evento e ele dava muitas gargalhadas com a viagem poética e emocionada de Carlito Azevedo. Que noite! estou até agora em transe com essa viagem toda de Eucanaã e com o modo de sentir o mundo de Carlito. Só lamentei a primeira mesa não ter conduzido tão bem a Thelma Guedes, que é uma pessoa excelente e fala muito bem. Faltou um mínimo de pesquisa dos interlocutores. Não se pode ir para um debate sem conhecer a obra do convidado. Nota dez para os mediadores Ana de Santana, que estava muito tranquila e desenvolta, João Batista de Morais, com ótimas perguntas na medida certa, e Carlos Fialho que sacudiu um pouco o tímido Figueiredo. Também dou nota dez para Woden madruga na primeira noite com o simpático Sousa Tavares e até gostei de Cassiano Arruda com Fernando Morais, embora esperasse dele uma provocação sobre Cuba defendida pelo grande biógrafo. A mesa com Arnaldo Antunes foi boa, mas esperava mais do poeta-músico e não entendi a confusão em Jarbas Martins, que poderia de deixado tudo fluir. E a de Cascudo eu gostei muito da fala de Marcos Silva, mas também esperava mais da Edna Rangel, que ainda cometeu um gafe errando o nome do Marcos Silva…enfim que venham outras edições do flipipa, um evento realmente mágico. Não dá para avaliar o que fica de um evento desse entre nós. Em cada um, ele tem uma medida.

    • Tácito Costa 21 de novembro de 2011 10:43

      Tarciana, você foi muito feliz em sua avaliação geral do evento, principalmente, sobre a palestra de Rubens Figueiredo, uma palavra usada por você resume tudo: timidez. Acho que o excesso de timidez atrapalhou o conceituado escritor.

  7. Alice N. 20 de novembro de 2011 16:50

    Tácito, seus registros são ótimos, concordo com boa parte das suas impressões, mas preciso acrescentar uma ou duas coisinhas: 1. fiquei sabendo que a organização do evento autorizou a derrubada de TRÊS coqueiros para que a Flipipa pudesse ocorrer ali naquele espaço, o que, sinceramente, acho um horror: matar os coqueiros para que os literatos possam desfilar juntos durante três dias? francamente… 2. A instalação sobre a qual vc comenta, além de não citar o nome do artista local, ainda errou ao dizer que se trata de carangueijos: são aratus (rsrsrs). Mas o evento foi muito bom, na minha impressão besta de quem inaugura a Flipipa: mesmo com a caretisse de proibir a venda de bebidas no local (levante a mão o escritor/leitor que não bebe, por favor!) e mesmo com os nossos amigos jornalistas praguejando contra Arnaldo Antunes que não quis dar entrevistas (e o direito de não-expressão?), foi tudo ótimo, com o sol, o mar e a vida dizendo sim!

  8. Jóis Alberto 20 de novembro de 2011 16:41

    Tácito Costa, excelente a sua cobertura jornalística do FliPipa 2011 aqui no Substantivo Plural, onde fiquei mais bem informado sobre o evento do que lendo o noticiário nos jornais ou assistindo a telejornais de Natal, incluindo a louvável cobertura ao vivo feita pela InterTV/Cabugi. Nessa emissora, no sábado à noite, o repórter entrou ao vivo no telejornal, porém ao divulgar os nomes dos palestrantes, só citou os nomes dos escritores de fora, não fez a menor menção aos nomes dos palestrantes locais. Lamentável!

    A presença de alunos uniformizados, do ensino básico, no festival literário, é relevante para formação de público leitor, porém tão ou mais importante do que isso seria a presença de mais editores de livros, em especial a presença daqueles que trabalham com pequenas edições,impressas em gráfica por demanda.

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