[Terra Estrangeira] Cuidado com os carecas

República Tcheca, 18 de Abril de 2014. Finalmente nos perdemos em Praga. Saímos andando a esmo perto da prefeitura e pegamos uma rua curva, cheia de estabelecimentos comerciais e lojas que vendiam todo tipo de produto a base de maconha. De shampoo à biscoitos, passando por bolsas, sapatos e até chá de maconha com 0,2% de THC. Para os que gostam de mixar substâncias havia também um combo com açúcar, que levava balinhas diversas e chocolates canabicos variados.

Confesso que fiquei surpreso com a existência desse imenso mercado do cânhamo na Europa, gerando lucros e levando o nosso velho conhecido “fumo de angola” finalmente ao status de produto de ponta na indústria do consumo. Enquanto conversava com Ana sobre quanto o Brasil ainda estava atrasado na discussão sobre a “normalização” da maconha, acabei me desligando dos pontos de referência que uso pra marcar o caminho de volta e naquele vai e vem por aquelas ruas estreitas da cidade velha e acabei desorientado e me perdendo do rio Vlatva, o ponto de referência que usava para nos levar de volta ao hotel.

Leia “O Deus que mora no silêncio”, da série Terra Estrangeira, de Pablo Capistrano

Durante o dia, nas margens do rio, encontramos, perto de uma  feira livre, um grupo de Jazz tocando bossa nova em inglês. A cantora parecia brasileira, mas não sei se era por causa da bossa nova ou por causa do tipo físico. Afinal, com o quê o brasileiro se parece? É difícil saber isso, especialmente em meio a esse grande entrecruzamento semiótico que o mundo globalizado produziu. Aquelas caixinhas étnicas que eu aprendi nos livros de Moral e Cívica no tempo da ditadura militar, com os “tipos físicos brasileiros” (caboclos, mulatos, cafuzos, gaúchos, “nordestinos”… ) não parece hoje fazer nenhum sentido pra mim, a não ser para ampliar alguns estereótipos regionalistas. A mesma coisa vale para a Europa.

Com o quê se parece o Europeu?

Tchecos, russos, alemães… como eles são? Se não tivermos o recurso de identificar a língua é muito difícil saber apenas olhando pro tipo físico. Ainda mais porque, se o Brasil dos meus livros de Moral e Cívica no começo dos anos 80 só existia na cabeça aristocrática de um punhado de aposentados saudosos da monarquia e do “mito das três raças”; a Europa arianaparece ter existido apenas nos delírios eugenistas do começo do século passado.

Bodega asiática

Dobrando na frente da famosa “casa cubista” e subindo as ruas na direção de Praga 2, encontramos vários quarteirões de um lugar chamado Vysehrad, todos ocupados por restaurantes asiáticos: vietnamitas, chineses, tailandeses. Paramos em uma bodega pra comprar água e o dono tinha uma cara de indiano ou paquistanês (que dá praticamente na mesma se você não entrar na seara da religião).

Na frente do restaurante vietnamita em que entramos pra almoçar, havia um prédio residencial cheio de orientais. Todo o bairro parecia ser um pedaço da Ásia em plena Europa do leste o que nos deu uma sensação de deslocamento geográfico desconcertante.

Talvez por isso, quando a noite caiu, a gente tenha se perdido na cidade, deslocados do rio, nosso guia, e sem um referencial claro de que espaço urbano era aquele, totalmente diverso dos estereótipos vendidos no imaginário de um Brasil que muitas vezes parece a maior ilha do planeta, cercada por um oceano de desconhecimento do mundo. 

O fato é que já estava ficando nervoso por não conseguir encontrar um caminho que nos levasse de volta ao rio e por ver a noite avançar e a temperatura começar a baixar rapidamente. Resolvemos, ao chegar em uma estação chamada Pavlova, entrar em uma lanchonete para comer alguma coisa e tentar pegar informações. Uma garçonete bem jovem e meio nervosa nos atendeu. Ela parecia bem agitada e eu não sabia se era porque não conseguia falar bem inglês ou se tinha rolado alguma dessas tretas de restaurante que a gente vê nos programas de master chef, o fato é que um garçon careca apareceu pra resolver o impasse e nos dar informações sobre como chegar no rio.

Treta com punks e headbangers

“Fique esperto. Tem uns carecas de Brasília na cidade. Se te pegarem ai com esse cabelão e essa camisa do The Clash vão achar que você é crossover  e te quebrar na porrada”.

Foi então que Ana me alertou pra um detalhe: – “Interessante como tem careca nessa cidade, não é?”

Era verdade.

Mas não me pareceu um traço genético dos Tchecos, que tem a ver com a testosterona e a queda natural dos cabelos pela idade. Muitos eram jovens e raspavam a cabeça, deixando quase no zero.

De repente, o simpático garçon careca que havia nos atendido na lanchonete próximo a estação de metrô Pavlova, em algum lugar entre a cidade velha e Praga 2 (onde estava nosso Hotel) começou a assumir um soturno ar ameaçador.

Lembrei de uma vez, em 1989, quando subi num ônibus da linha 45, em frente ao antigo Palácio do Governo no centro de Natal e encontrei um conhecido headbanger que me alertou: – “Fique esperto. Tem uns carecas de Brasília na cidade. Se te pegarem ai com esse cabelão e essa camisa do The Clash vão achar que você é crossover  e te quebrar na porrada”.

Eu de vez em quando tento explicar pra minhas filhas adolescentes que no final dos 80 as tretas eram musicais. Punks, headbangers e skinheads viviam se pegando nas esquinas e nos entornos dos shows de rock. Teve até explosão de bomba caseira em show dos Ramones no Brasil e uns quebra paus antológicos nos shows dos Ratos de Porão (acusados pelos punks mais radicais de traidores do movimento por terem se rendido ao trash metal).

Eu mesmo quase levei uma surra em 1993, num bar de metaleiros perto da Catedral Nova, por colocar um disco do Joy Division pra tocar (e também por ter namorado uma garota que era da “religião do metal”, desfalcando de presença feminina um movimento que já estava muito congestionado de machos cabeludos com cara de mau).

Por isso fiquei de orelha em pé quando saímos da lanchonete, andando por aqueles ruas escuras e vazias, em direção ao rio que iria nos levar de volta a segurança do Hotel.

Espectros de velhos nacionalismos arcaicos

Ana começou a tirar onda com a minha ansiedade. Afinal, pra quem já tinha andado à noite por Recife, Salvador e Rio de Janeiro, ter medo de sofrer um ataque na Europa era quase uma ofensa ao orgulho nacional de um povo acostumado a se esconder em baixo de mesas de bar pra fugir de tiroteio.

Além do mais, estamos em 2014, a Europa já havia ultrapassado essa fase de disputas raciais acaloradas e não seria possível que em Praga, um lugar que viu de perto a barra pesada que era o projeto nazista de eugenia racial, a gente fosse vítima de um tipo de violência política contra estrangeiros em plena primavera.

Não sei se foram as certezas desses pensamentos reconfortantes, a visão do rio Vlatva durante a noite nos recolocando na trilha geográfica correta ou o frio de oito graus da primavera de Praga que me fizeram entrar com Ana naquele pub, no trajeto do Hotel.  

O local se chamava Board, e ficava num porão, abaixo do nível da rua, no subsolo de um prédio de quatro andares, que tinha no térreo umas vitrines do que parecia ser uma loja de fantasias de medievais ou coisa que o valha. Pegamos uma mesa e pedimos um rodada de canecos de cerveja pilsner para aquecer.

Em meio ao som de algum obscuro grupo de rock pesado tcheco, notei logo, no caminho para o banheiro, uma rapaziada fumando muito e falando alto. Fora o cheiro habitual de cannabis dentro do bar apenas um outro detalhe me chamou atenção: eles eram todos jovens e… carecas.

Pensei comigo mesmo: “Foda-se. Estamos no século XXI. Numa cidade turística. O capitalismo liberal venceu a parada. Esses espectros de velhos nacionalismos arcaicos não combinam com esse ar cosmopolita que a gente respira por aqui. Vamos beber!”.

Velho ódio europeu contra minorias exóticas e estrangeiros

Já íamos na quarta rodada quando resolvi ir novamente ao banheiro. Não havia nada de estranho no lugar, fora algumas moedas coladas no chão, nas mesas e no balcão do pub. Como já estava meio bêbado e o incompreensivo e pesado rock industrial eslavo já abandonava os alto falantes, sendo substituído por uma música eletrônica mais afeita ao clima de festa das novas gerações, resolvi perguntar a menina que atendia no balcão o porquê daquelas moedas.

Ela sorriu e desconversou. Disse que não sabia. Talvez tenha sido o meu inglês com sotaque potiguar que denunciava o fato de ser um estrangeiro em um bar que parecia ser frequentado só por jovens tchecos.

Foi então que notei uma coisa no banheiro que me deixou cabreiro.

Enquanto urinava dentro da cabine, sentindo o efeito anestésico do álcool amaciar o superego e as certezas racionais que fazem com que o mundo seja um lugar estável para se viver, vi, em meio a muitas pichações incompreensíveis na parede, uma cruz de ferro negra desenhada com caneta e logo ao lado escrito: Kommand “não sei o que lá” 88.

Dizem os psiquiatras, que o delírio é uma alteração no conteúdo do pensamento. Se isso for mesmo correto, é bem provável que as doutrinas políticas, assim como as preferências musicais ou os hábitos religiosos, sejam motores privilegiados desses delírios coletivos que assolam de tempos em tempos as sociedades humanas.

Subitamente aquele agradável porão etílico à beira do velho rio Vlatva, aquecido pelos sons da hora, adocicado pelo cheiro de um erva ancestral que parecia ser consumida livremente nas ruas daquela cidade adormecida,  adornado com os sons das conversas e das risadas da juventude descolada de Praga e seus carecas, me pareceu uma perigosa toca de supremacistas brancos, nacionalistas neo nazis, contaminados pelo velho ódio europeu contra minorias exóticas e estrangeiros de todo tipo.

Ana não entendeu quando voltei assutado querendo pagar a conta e ir logo embora de volta pro hotel.

Não sei se foi movido pelas minhas lembranças de adolescente, pelo medo de andar nas ruas escuras do Brasil ou pela estranha sensação de que velhos fantasmas, a muito tempo enterrados no horizonte dos povos poderiam subitamente ressuscitar; e que novas formas de trazer a tona aqueles conteúdos não superados da história, que sempre insistem em nos surpreender com seus assombros, estavam nos pregando suas peças.

Por via das dúvidas, voltamos rápido para o Hotel, cruzando o frio da madrugada que já chegava azul e gélida, afinal, como afirma a prudência que salva sempre os viajantes: apenas o fato de eu ser paranoico não me garante de forma alguma que eu não esteja realmente sendo perseguido.

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

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