Testemunhos rebeldes

Por Eleonora de Lucena
FSP

Prestes, Bezerra e as mazelas de um país

RESUMO

Reedições mostram caminhos trilhados por dois homens que fizeram história no Brasil. De estilos muito diferentes, autobiografia de Gregório Bezerra e romance em que Jorge Amado reconstrói trajetória de Luís Carlos Prestes permitem reconhecer divergências entre os pensamentos dos dois líderes de esquerda.

LUÍS CARLOS PRESTES e Gregório Bezerra são ícones da esquerda brasileira. Conheceram as entranhas da pobreza, passaram pela carreira militar, fizeram rebeliões, aderiram às ideias comunistas. Enfrentaram ditaduras, prisões, torturas, doenças, exílios.

Prestes (1898-1990) foi exemplar estudante, criativo estrategista militar, disciplinado líder político. Organizou a célebre coluna que se embrenhou por 26 mil quilômetros no interior do Brasil, de 1924 a 1927. Com até 1.500 combatentes, derrotou 18 generais. Virou lenda.

Bezerra (1900-83) começou a trabalhar na roça aos quatro anos, com um cacareco de foice preso a um cabo de vassoura. Passou fome; só provou arroz aos sete. Aos dez calçou o primeiro sapato, para servir de empregado limpando penicos. Ficou analfabeto até aos 25.

Suas vidas se entrelaçaram no interior do Partido Comunista. Nas eleições de 1945, quando o PC obteve 10% dos votos do país, Prestes foi o senador mais votado. Bezerra elegeu-se deputado federal, o mais votado na Grande Recife. Moraram na mesma casa no Rio.

Os caminhos trilhados por esses homens que fizeram história no Brasil estão nas livrarias em dois relançamentos. Prestes tem parte da vida romanceada por Jorge Amado, integrante do PC na época e eleito naquele pleito. Bezerra narra sua própria trajetória. São livros desiguais, de estilos muito diferentes, que precisam ser entendidos no contexto em que foram editados. Têm em comum o rasgado engajamento político.

O de Amado é uma ode ao “Cavaleiro da Esperança”, em tom de manifesto. Foi finalizado na Argentina em 1942 e integrava a campanha pela anistia a Prestes no Estado Novo. O de Bezerra saiu quando ele voltou ao Brasil na anistia de 1979. Traz os meandros da dura vida do famélico explorado pelos usineiros que vira líder de rebeliões de militares, de greves de camponeses, de campanhas políticas. É um relato detalhado e vigoroso.

INFÂNCIA

“Não sei expor em linguagem literária todos os aspectos do drama das crianças abandonadas e subnutridas do meu país: não sou escritor nem intelectual, sou apenas semialfabetizado”, escreve Gregório Bezerra em “Memórias” [Boitempo, 648 págs., R$ 74], que ele classifica como um “trabalho tão rústico quanto seu autor”.

Não é. Reproduzindo diálogos, lembrando sabores, refazendo as caminhadas em busca de água, ele constrói o mundo da sua infância no interior de Pernambuco. Fala dos desastres nas colheitas, do trabalho no engenho, da falta de roupa, da morte dos pais, dos mutirões com vizinhos, de como conseguiu comer um pão doce.

Além do drama familiar, relata como proprietários concentravam terras. “É um roubo oficializado”, declara. Com a promessa de que o colocariam na escola, Bezerra seguiu para Recife com a família do dono de engenho. O compromisso não se cumpriu, e ele ficou nos trabalhos domésticos. Revoltado com injustiças, quebrou a pedradas as cristaleiras da casa. Depois, fugiu, “para não ser mais escravo de ninguém”. Tinha 12 anos.

Dormiu em praças e debaixo de pontes. Trabalhou fazendo fretes, vendendo jornais, como ajudante de pedreiro. Foi preso em 1917 por “insuflar operários contra patrões”. Iniciou carreira militar e contratou professores para aprender a ler, escrever e entender de matemática e geografia. “Passei a fazer só uma refeição por dia para poder pagar as aulas”, lembra.

Leu “A Mãe”, de Máximo Górki, e “O Estado e a Revolução”, de Lênin. Entrou para o PC em 1930, no mesmo ano em que Prestes anunciou adesão. Era tempo de revolução. Getulio Vargas tomara o poder na esteira do movimento tenentista e da Coluna Prestes.

PAIXÃO

Jorge Amado (1912-2001) ancora “O Cavaleiro da Esperança, a Vida de Luís Carlos Prestes” [Companhia das Letras, 400 págs., R$ 55] nas histórias da coluna. É “livro escrito com paixão, sobre uma figura amada”, esclarece Amado na introdução.

Enfatiza: “Não é nem pretende ser um livro frio”. Já esperando críticas ao estilo engajado, Amado ataca: “As fronteiras técnicas da biografia, que os críticos amam impor, não me interessam como nunca me interessaram as fronteiras marcadas para o romance”.

Nessa mescla de biografia e romance, um verdadeiro panegírico, a parte sobre a Coluna Prestes detalha a sequência de batalhas, as escaramuças com as forças oficiais, a busca por alimento, o papel das mulheres que cuidavam dos feridos e pegavam em armas. Prestes aparece como gênio militar. Chega a escapar enquanto maneja adversários para lutarem entre si -200 morrem e o major governista enganado se suicida.

Amado se esmera em contar as histórias de personagens comuns da marcha. Não se acanha em derramar louvores a Prestes, pessoa em que “os lados negativos não surgiram nunca”, como escreve. (Para obter relato abrangente e cuidadoso da história da coluna, sem a chuva de adjetivos de Amado, vale ler “As Noites das Grandes Fogueiras”, de Domingos Meirelles, publicado em 1995.)

Embora também elogioso a Prestes, Bezerra -que escreveu suas memórias numa outra época- faz questão de expor suas divergências com o PC. Conta que, em 1930, gostaria de ter se unido aos revoltosos. Por disciplina, ficou de fora da derrubada de Washington Luiz.

Ao narrar a revolta comunista de 1935, na qual teve papel destacado, avalia os erros cometidos. Critica a liderança “leviana e irresponsável” do partido, que “decretou a revolução e, segundo dizem seus companheiros, foi para casa dormir”. Era folga; o quartel estava vazio. “Desgraçadamente éramos demasiado sectários. Não soubemos aproveitar as oportunidades que tivemos para fazer um trabalho mais amplo, tanto no setor civil, como no militar”, analisa.

Noutro instante, ao narrar a cassação dos mandatos parlamentares do PC, em 1947, desabafa: “Tínhamos cedido demais, em busca de uma união nacional que não conseguíamos fazer e, em consequência disso, nos isolamos bastante das massas sofridas em virtude da nossa posição reboquista com relação à burguesia”. A posição tinha lógica. Derivava da visão de que era preciso fazer o desenvolvimento capitalista para preparar a passagem ao socialismo, já que a história ocorria em “etapas”. Daí a necessidade de defender o nacionalismo contra o “imperialismo ianque” e a reforma agrária contra o “latifúndio feudal”.

Enxergavam no campo -já integrado ao capitalismo desde a colônia- uma estrutura feudal. Queriam a distribuição de renda, trabalhando pela sindicalização urbana e rural. Foi então que a atuação de Bezerra se notabilizou. Ele saía pelo interior fazendo comícios, organizando as “ligas camponesas”. Enfrentava a resistência de proprietários, da polícia e dos padres. Lembra casos curiosos. Num deles, um empresário ofereceu um churrasco na hora da manifestação, para esvaziá-la; noutro, uma boiada foi usada para dispersar o protesto; noutro, uma procissão tentou minar a aglomeração.

ASSOCIAÇÕES

Na clandestinidade, Bezerra seguiu organizando associações. Uma, em Goiás, começou com 90% de analfabetos. Quando esteve no parlamento, o pernambucano apresentou projeto pelo direito de voto aos analfabetos -conquista só ocorrida 40 anos depois.

Em outro trecho, conta como foi, em 1963, a “maior greve da história do campesinato brasileiro”. Durou quatro dias e rendeu aumento de salário e a implantação de tabela de preços e tarefas nos canaviais, para jornada de oito horas.

Desde o início, o livro de Bezerra é também uma narrativa da violência. Contra os pobres, os presos, os políticos de esquerda. Nas histórias do campo, chacinas fazem lembrar os episódios recentes ocorridos no Pará.

Ao todo, Gregório Bezerra passou quase 23 anos em prisões brasileiras em diferentes lugares e ditaduras. Faz relatos horripilantes das masmorras, onde imperam fome, doença, tortura. Em abril de 1964, militares o espancaram barbaramente e o arrastaram pelas ruas, deixando-o com sequelas pelo resto da vida. Deixou sua última cadeia na troca do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em 1969.

Amado também mostra os horrores das cadeias do Estado Novo. Conta as histórias de Olga Benário, a mulher de Prestes, e de Rodolfo Ghioldi, ativista político argentino.

A ditadura militar, o esfacelamento do PC e o fim da União Soviética desarranjaram as lentes com as quais Prestes, Bezerra e Amado enxergavam o mundo e guiavam suas ações. As histórias dos comunistas brasileiros -romanceadas ou não- são testemunhos das mazelas de um país que parece ter sido deixado para trás.

Porém, nem tanto quando se lê sobre torturas em prisões e trabalho análogo à escravidão em fazendas no interior ou em oficinas de costura na metrópole.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Therezinha M. da Silva 18 de setembro de 2011 18:25

    Olá Eleonora, muito bom seu texto, E em alguma coisa devo concordar com você, de “mazelas” nosso País entende. E não estão tão para trás quanto deveria. Como você mesma coloca ao final. Não conheço o Livro de Bezerra nem o de Meirelles, o que considero uma opção de leitura para quem se interessa sobre o tema. Quanto ao de Amado, não podemos esquecer qual o nível literário do mesmo. Logo podemos considerar que “muito de ficção” seja encontrado em seu conteúdo. Palavras do próprio Prestes, oportunidade que tive de está com ele em uma palestra na Faculdade de Econômia da UFPE, na campanha da última eleição para Presidente um pouco antes de sua morte. Na época fazendo campanha para então candidato Leonel Brisola.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo