Tezza: ‘Nossa literatura não existe fora do Brasil’

Por Sérgio Rodrigues
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Cristovão Tezza fará amanhã – o que, com o fuso horário, significa daqui a poucas horas – uma palestra na Austrália, como convidado do Festival de Artes de Adelaide, onde foi parar a bordo do sucesso de seu romance “O filho eterno”. Por email, entre uma Foster’s e outra, o escritor catarinense achou tempo para uma conversa sobre suas experiências nesta fronteira que, de tão pouco explorada, é quase selvagem: a da verdadeira projeção internacional de um livro brasileiro de “ficção literária”. Resumo de sua impressão geral: “A literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários”.

1. A que países “O filho eterno” já o levou e onde você sentiu maior receptividade?
– “O filho eterno” já me levou a Portugal, França, Espanha (Barcelona; a tradução foi em catalão!) e, agora, Austrália. O livro saiu também na Holanda e na Itália. Ainda não tenho uma idéia completa da recepção, mas o livro está indo muito bem na França, onde teve boa recepção crítica e ganhou o prêmio anual da Associação Francesa de Psiquiatria, que contempla obras literárias com temas que se relacionam com a área; e na Holanda, também com boa crítica e com boas vendas.

2. Paulo Coelho à parte, temos daqui a impressão de que o mundo não parece interessado na literatura brasileira, e até autores búlgaros gozam de mais boa vontade. Confere? O que os estrangeiros que você encontrou conhecem do que se faz aqui?
– Esse é um fato inescapável: a literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários envolvidos em departamentos de literatura brasileira e portuguesa, para consumo escolar e acadêmico, sempre mínimo. Aqui na Austrália levei um certo susto, porque sou praticamente o único autor do Festival de Adelaide (que, além de teatro, dança, música e outras artes inclui uma Semana do Escritor, para a qual fui convidado) de um país em que não se fala a língua inglesa. Conversando com John Coetzee, ele disse que ficou surpreendido com a total “autonomia” da arte brasileira em geral – o que eu entendi como um certo “autismo brasileiro”, uma arte que parece que não tem relação com nada.

3. E o próximo livro, como fica nessa roda-viva? Você é o tipo de escritor que consegue escrever em aeroportos e quartos de hotel?
– Essa é a primeira semana em que não sou mais professor da universidade. Pedi demissão. Quero viver uma vida tranquila agora, ler e escrever com prazer, fazer as coisas mais devagar. Jamais escrevi literatura em hotel – não consigo. Meu novo romance já está praticamente pronto; consegui tirar dois meses de férias, em dezembro e janeiro, para terminá-lo. Deve sair em outubro pela Record.

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