Tezza escreve sobre a trilogia de Coetzee

Da origem numa família africâner aos anos passados em Londres, longe dos pais, a trilogia autobiográfica formada pelos livros “Infância”, “Juventude” e “Verão” revelam a formação e preocupações do Nobel de Literatura J.M. Coetzee. O também escritor Cristovão Tezza avalia o conjunto desses livros na composição de um retrato mais denso de Coetzee, autor recluso e “impermeável”.

INAPTIDÃO PARA A FELICIDADE
A trilogia autobiográfica de J.M. Coetzee

CRISTOVÃO TEZZA
FSP

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 2003, John Maxwell Coetzee não fez uma palestra protocolar. Preferiu ler um relato ficcional sobre Daniel Defoe. O autor de Robinson Crusoé, no conto de Coetzee, diz que na sua célebre ilha ele vivia “uma vida silenciosa”. De volta à Europa, parecia-lhe que havia “muita fala no mundo”. A citação dá uma medida do amor pelo silêncio desse autor que raramente concede entrevistas e, em suas aparições públicas, jamais fala de si mesmo: prefere ler uma peça de ficção.

Nascido em 1940 numa fechada África do Sul dos brancos, muito distante do cenário multirracial e multicultural onde hoje se desenrola a Copa do Mundo, Coetzee construiu uma obra ficcional que poderia ser talvez sintetizada como uma densa investigação ética sobre o homem contemporâneo. Em seus 15 romances, estão presentes temas que vão desde a violência e a brutalidade militar colonial (“À Espera dos Bárbaros”), até a denúncia da matança dos animais neste mundo carnívoro, num curioso elogio ficcional do vegetarianismo (“A Vida dos Animais”).

Como contraparte ao romancista, Coetzee é também professor universitário e publicou várias coletâneas de ensaios, mergulhando em autores díspares como Beckett, Graham Greene e Walt Whitman, entre outros de uma extensa galeria. Neles, revela-se um filólogo e um crítico refinado, atento aos recursos de linguagem, aspectos da tradução da prosa e da poesia, e técnicas literárias. Entretanto, sempre manteve as águas perfeitamente separadas -para felicidade dos leitores, não se entrevê na sua ficção a sombra da academia.

Um exemplo dessa separação encontramos em “O Mestre de Petersburgo”, em que toma Dostoiévski como personagem, atormentado pela morte de seu enteado. O Dostoiévski que surge do romance é um típico personagem de Coetzee; a passagem do ensaísta que se debruça sobre o autor russo para o romancista que lhe dá vida representa uma mudança radical de olhar; a certeza metódica do primeiro cede espaço à ambiguidade inescapável da ficção. E a intensidade apaixonada da Rússia do século 19 vê-se sob a lâmina fria, lacônica, de um observador pessimista contemporâneo.

Apesar de universalmente reconhecido pela crítica como um dos dois ou três maiores prosadores contemporâneos, Coetzee não é exatamente um escritor popular ou muito conhecido. Mas não é um escritor “difícil” -há mesmo uma espécie de simplicidade estilística no seu texto (fazendo uma comparação grosseira, a sua frase enxuta e alguns toques de sua sintaxe lembram Graciliano Ramos, um Graciliano mais frio). Coetzee é um escritor “cerebral”; mas também essa imagem induz a erro, porque nada que ele escreve está isento de empatia. Metaforicamente, podemos dizer que seu texto fala, à distância, do que nos é muito próximo; talvez por isso não seja fácil compreendê-lo.

Se é verdade que compreender um escritor é decifrar sua infância, talvez a chave da literatura de Coetzee esteja justamente no seu livro *”Infância” [Companhia das Letras, tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves, 152 págs., R$ 19]* . Com o enganoso subtítulo de “Cenas da Vida na Província”, o livro abre uma trilogia informal, de fundo autobiográfico, em que um dos mais impermeáveis escritores do mundo, então aos 56 anos de idade, decidiu falar de si mesmo. O segundo volume, “Juventude”, publicado nos seus 62 anos, mantém o subtítulo irônico, assim como “Verão”, que saiu no ano passado, agora lançado entre nós.

Chamar esse conjunto de “Cenas da Vida na Província” é apenas um dos deslocamentos que Coetzee usa para avaliar a própria vida, com a qual parece manter uma difícil esgrima de busca de sentidos, contra um inimigo feroz -ele mesmo. Mas, seguindo uma vasta tradição narrativa de língua inglesa, sua prosa mantém sempre um registro “sério”. Desde “Terra de Sombras”, de 1974, até “Verão”, passando por obras-primas como “Desonra” e “Vida e Época de Michael K”, o texto de Coetzee não se entrega à paródia, à poesia, ao épico, à desconstrução formal ou outros jogos do relativismo pós-moderno.

O monstro da realidade é a sua matéria, despojada de fantasia, e ele avança em direção a ela, digamos, desarmado. Sua voz narrativa, mesmo sob a carapaça formal de múltiplos pontos de vista (como em “Diário de um Ano Ruim”), ou quando contraria frontalmente o mundo pesado dos fatos (o pressuposto narrativo de “Verão”, por exemplo, é a morte do próprio Coetzee), nunca afrouxa um firme eixo de referência, um sólido “princípio de realidade” que serve como âncora ao leitor da primeira à última linha. Suas palavras valem pelo valor de face, ou lutam desesperadamente por esse valor impossível. Assim, nesse sentido estrito, Coetzee é um escritor realista -e, muito provavelmente, o mais radical escritor realista do nosso tempo.

“Infância” é uma investigação ficcional sobre esse período difuso em que começamos a nos reconhecer. Seu realismo sente e avalia instintivamente o peso relativo das coisas concretas que dizem quem nós somos: a mãe, o pai, a casa, a terra, os vizinhos, os parentes, as línguas, a escola, os jogos, e a angustiante relação entre essas variáveis agressivas, do meio das quais somos obrigados a emergir como alguém distinto.

Do ponto de vista técnico, Coetzee só fala dele próprio na terceira pessoa, como de um estranho a ser decifrado. Em suas três obras autobiográficas, é sempre “ele”, jamais “eu”. (Curiosamente, um dos poucos livros que ele escreveu na primeira pessoa chama-se “Foe” -literalmente, “inimigo” ou “adversário”-, e é o menos autobiográfico de seus livros; trata-se de uma delirante variação do Robinson Crusoé de Daniel Defoe.) Em “Infância”, encontramos um dos traços fundamentais de sua linguagem literária: o olhar distante e sem ênfase, mas nunca desinteressado, sobre as pessoas, entre as quais está ele mesmo, tratado sem nenhuma deferência.

Esse modo de ver a si mesmo é, na verdade, um método. Porque, mais do que construir uma trama romanesca (as tramas são irrelevantes em sua obra, uma costura de elementos apenas sequenciais), o que ele deseja é investigar, do modo mais frio, exato e sem complacência, o que acontece com as pessoas (entre as quais, ele mesmo), quando submetidas ao duro convívio umas com as outras ou à estressante presença da realidade social em torno. É quase que um olhar de laboratório, e, como tal, busca a exata percepção da lâmina submetida à lente do seu olhar. Sua ficção é cartesiana -mas a limpidez lógica de seu olhar se cruza impotente com a exasperante falência dos sentidos para dar conta da realidade.

Dois momentos de “Infância” ilustram esse contraste. Eis o cartesiano de sete anos de idade, contemplado e recriado 50 anos depois: “No princípio, pode vagar para cá e para lá; mas no final, infalivelmente, se concentra e aponta um dedo acusador para si mesmo. É sempre ele quem põe em movimento o trem do pensamento; sempre o pensamento que escapa de seu controle e volta a acusá-lo. Beleza é inocência; inocência é ignorância; ignorância é ignorância do prazer; prazer é culpa; ele é culpado”.

Em outro momento, a criança defronta com as contradições de sua mãe, o que o angustia: “A mãe diz tantas coisas diferentes em ocasiões diferentes que ele não sabe o que ela realmente pensa. () Se ela considerava os agricultores melhores que os advogados, então por que tinha se casado com um advogado? Se achava besteira estudar com os livros, por que se tornara professora? Quanto mais discutem, mais ela sorri. Sente tanto prazer, vendo a habilidade dos filhos com as palavras, que aceita todas as opiniões, mas se defendendo, querendo que eles ganhem. Ele não compartilha esse prazer. Não vê graça nessas discussões. Gostaria que ela acreditasse em alguma coisa”.

É preciso acreditar em alguma coisa -mas o pequeno garoto não encontra nada em torno de si capaz de lhe dar alguma estabilidade de valor. O olhar da ciência que o move é destroçado pela realidade ficcional, ou naturalmente narrativa, que nos dirige.

Apesar das aparências, Coetzee não pode ser reduzido a um escritor psicológico, analisando motivações metafísicas ou insondáveis da alma, soltas num rio inconsciente e incontrolável. Seu cartesianismo não descarta a brutalidade concreta das coisas e das pessoas; a “ratio” que o controla não vive numa redoma abstrata; em suma, o seu olhar considera pesadamente o lado de fora da vida pessoal. O entorno que nos condena desde o nascimento é assim outro foco incansável de investigação. E na infância do autor vamos encontrar os elementos históricos e sociais do pessimismo que marcou a sua obra.

Coetzee se vê como um intruso em sua terra; não nutre nenhuma simpatia pelos africâneres, para ele expressão de tudo que é brutal. Imagina-os como “rinocerontes, enormes, poderosos, chocando-se uns com os outros quando se cruzam”, e que “usam a língua como um porrete contra os inimigos”. Os africâneres são os calvinistas que, no século 17, ocuparam a África do Sul caçando bosquímanos e ocupando-lhes as terras (um dos temas violentos de “Terras de Sombras”, primeiro livro de Coetzee -caçadas levadas a cabo supostamente por um ancestral seu), e que depois da Segunda Guerra fariam do apartheid a mais vergonhosa expressão oficial de racismo do século 20.

A questão é que o menino é, como seu pai, um africâner, o que o próprio sobrenome denuncia. Refugia-se na mãe que, misteriosamente, fala inglês em casa, e que ele absorve como primeira língua. Entre duas línguas, que são duas culturas frontalmente distintas, perambulam os negros pobres e descalços, escravos disfarçados a serviço dos fazendeiros brancos, numa onipresença silenciosa.

A simples presença dos negros é uma acusação: o menino sabe que aquela terra é inescapavelmente deles, “puros e incorruptos. Eles não apenas vieram com a terra; a terra é que veio com eles, é deles, como sempre foi.” Entretanto, “nos rostos daquelas crianças não vê sinal do ódio que () ele e seus amigos merecem por ter tanto dinheiro”. Mas Coetzee não se ilude; pensando sobre Eddie, menino “de cor” que a mãe despreza (“Pessoas como ele sempre acabam num reformatório”), o narrador conclui: “De uma coisa tem certeza: Eddie não terá pena dele”.

O jovem Coetzee -tema de seu segundo livro biográfico- é alguém que precisa purificar-se da África do Sul. Nessa tarefa ética, concomitante a um projeto existencial completo que começa a se formar em torno do desejo de ser poeta ou escritor, ele vai para a Inglaterra aos 22 anos. A ideia é não voltar nunca mais: “A África do Sul foi um mau começo, uma desvantagem. () Se um vagalhão viesse do Atlântico amanhã e varresse da existência o extremo sul do continente africano, não derramaria uma única lágrima.”

Se em “Infância” vemos os dados lançados pelo acaso que fizeram dele a criança que era, em *”Juventude” [Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 192 págs., R$ 43]* é a formação do escritor que está em jogo, agora no terreno brutal das escolhas -não há mais desculpas. E sua primeira escolha é “excluir os pais de sua vida”.

A fria narração de “Juventude” observa sem piedade os ritos de passagem de um adolescente para a vida adulta. É uma crueldade que nasce não de alguma agressividade emocional em direção ao seu objeto (Coetzee jamais levanta a voz), mas de constatações sem ênfase, lâminas finas de reconhecimento dos próprios gestos e intenções, que vão se sobrepondo uns aos outros numa ininterrupta sucessão de pequenos desastres morais.

A mulher ocupa um papel central neste livro. A relativa ingenuidade dos primeiros momentos de contato com as mulheres e o seu discreto imaginário romântico (como a paixão que nutre por Mônica Vitti no filme “O Eclipse”, de Antonioni), acabam sempre por desabar em uma quase sociopatia emocional, um bloqueio que o impede de partilhar qualquer sombra de vida em comum com alguém.

O jovem Coetzee é alguém talhado para a solidão, e cada novo encontro sexual com namoradas, que acontecem antes pelo acaso que pela escolha, parece confirmar a sua vocação. Da jovem que engravidou ainda na África do Sul e a quem acompanha para fazer o aborto, até a amiga de uma prima de quem ele tira a virgindade numa sucessão atabalhoada de mal-entendidos e desprazeres, num dos momentos mais agressivos do livro, restará um jovem duro, refratário até a alma, quando não “calhorda”, nas palavras dele mesmo. A única relação mais densa que ele mantém, uma candidata a atriz que trabalha como garçonete, obriga-o a intermináveis caminhadas noturnas no frio e na chuva, à espera da namorada. “Se tivesse um pouco de juízo, romperia com ela agora mesmo” -mas ele continua, porque “no momento é tudo que tem”.

A questão afetiva se entrelaça com seus projetos literários ainda incipientes e com o trabalho inverossímil que consegue em Londres: o futuro romancista foi, aos 22 anos, um programador de computador, primeiro para a IBM, depois para o governo britânico, chegando a frequentar as instalações nucleares de Aldermaston. Ele tem plena consciência do que isso significava: “Ao trabalhar em Aldermaston, prestou-se ao mal”. A presença soturna da Guerra Fria é o pano de fundo de sua juventude, e ele não pode deixar de pensar nas implicações políticas do mundo em que vive.

“Experiência. Essa é a palavra em que gostaria de se apoiar para se justificar a si mesmo. O artista deve provar todas as experiências, da mais nobre à mais degradada”. Enquanto isso, matura-se o escritor, que ainda não escreveu uma só linha e há muito desistiu de ser poeta.

*”Verão” [Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 280 págs., R$ 44,50]* é uma retomada radical de suas “Cenas da Vida na Província”. O tema são as suas relações amorosas adultas, mas agora o princípio de deslocamento é levado às últimas consequências. Há um fio de sátira amarrando o texto, a partir do pressuposto narrativo: no livro, J.M. Coetzee já morreu, e um pesquisador, de posse de anotações suas dos anos 1972-75, entrevista quatro mulheres e um colega de universidade que conviveram com ele.

Os temas fundamentais de seus textos biográficos estão naturalmente presentes: o invencível “cul-de-sac” ético de ser um africâner na África do Sul; o impasse racial; o mal-estar de pertencer a uma família como a sua, e ter um pai como o seu; a presença do mal como viva expressão cotidiana; o lado impraticável da relação amorosa (mas aqui, pela primeira vez, sua obra abre as portas do humor: o estranhamento da confissão amorosa pessoal imersa no seu profundo ridículo, sob uma ambiguidade que não se desata); enfim, a inaptidão para a felicidade. Afinal, “pessoas felizes não são interessantes”, como dizia o jovem Coetzee.

Sim, em Coetzee tudo é pesado, depressivo e sem remissão. E é por isso que seus fantasmas precisam da literatura para virem à tona, como se só por meio dela se tornassem suportáveis. Ao falar de si mesmo, ele parece dizer que a ficção é a única linguagem capaz de iluminar a vida pessoal mantendo-a permanentemente difusa. A desconcertante ironia de Coetzee, desenhada pela simplicidade cartesiana de sua frase, dá uma leveza extraordinária ao mundo sombrio que relata. Um mundo no qual, mesmo a contragosto, pelo poder da palavra, o leitor acaba por se sentir em casa.

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