Thatcher e Hoover: duas biografias

Por Inácio Araújo
UOL

Nós, jornalistas, costumamos caçar erros e omissões em filmes biográficos. Mas esse aspecto é, na verdade, irrelevante.

Um biógrafo literário, para ser produtivo, deve esquadrinhar a vida do biografado. O biografado literário é uma pessoa real, ao menos vemos a coisa assim. É evidente que o autor criará uma imagem de seu biografado, mais ou menos épica, mais ou menos infame.

Na biografia filmada o que se pode criar é não a imagem final do personagem, mas “uma certa imagem”. Ele deixa de ser “pessoa real” para se tornar um personagem, objeto de manipulação daquele que cria a imagem.

Daí a diferença entre “J.Edgar” e “A Dama de Ferro”. Não importa que sejam ambos admiráveis ou odiáveis na vida real. Pode-se achar Margaret Thatcher o máximo ou o mínimo, isso não importa em termos de cinema: o problema é que sua biografia, oficial até onde isso é possível, tão preocupada em engrandecê-la (parece financiada por algum partido conservador, no mais), termina por criar uma imagem pobre, desprovida de relevo, de contradição, que apenas se torna enfadonha.

J. Edgar Hoover não é menos controverso, sabe-se. Aliás, é personagem mais grosseiro, e Clint Eastwood não deixa de vê-lo assim. No entanto, ali convivem o chantagista e o patriota; o idealista e o malfeitor. Ele é malfeitor porque precisa manter o poder, não por outra razão. Ele forja dossiês contra presidentes. Ele mantém arquivos secretos que desafiam os próprios presidentes. Ele é agente de uma ruína moral, de um esquecimento dos valores que o desespera, porque não era isso que havia imaginado ao criar o FBI.

Isso está no filme, note-se.

Ora, com Thatcher algo semelhante ocorre. Também ela despreza o tempo em que vive seus últimos anos, pautados pela vulgaridade, pelo apego à matéria, pelo desprezo das idéias. No entanto, ela tem muito a ver com a construção desse mundo, da qual é uma agente privilegiada, malgrado ela. O problema é que isso nunca está no filme. O mal do mundo ocorre à revelia dela e apesar dela.

O sombrio Hoover é, visto por Clint Eastwood, uma personalidade fascinante. A combativa Thatcher é, vista por não importa quem, algo como uma estátua eqüestre.

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