there’s no business like show business, I know

Cia. Gira Dança na Lavagem do Beco da Quarentena

Associar uma causa a uma marca é conselho recorrente dos espertos em marketing. Por exemplo, os hipermercados não obstante associem suas marcas à idéia de sustentabilidade e outros ecoconsumos embalam com sacolas de plástico as compras dos seus clientes; e a tevê globo, que se caracteriza pelo conservadorismo e apoio mascarado às elites, veste a camisa da cidadania.

Demagogia, essa sim é a alma do negócio.

No panfleto de Anderson Foca sobre a importância de dar continuidade ao Circuito Ribeira, ele se ufana pelos números surpreendentes, conta que está na contramão do sistema, fala sobre a dificuldade de realizar o Circuito Ribeira, sobre como eles serão guerreiros (e corajosos, e loucos) ao levar à frente o projeto mesmo depois do fim do convênio com a Vivo, diz que sente muito pelas pessoas incapazes de perceber a luta desses maravilhosos business-men responsáveis pela revitalização da ribeira, refere-se ao seu empreendimento como um grito espontâneo da classe artística pelo bairro da ribeira e ainda fala sobre o quão vergonhoso seria para o estado do Rio Grande do Norte, no final do ano, não dedicar parte de sua verba para o Panis et Circenses da população à consolidação da empresa dele. [http://www.dosol.com.br/2011/06/07/artigo-o-circuito-cultural-ribeira-precisa-continuar/]

Tudo bem que um homem-de-negócios queira fazer vingar o seu negócio, e, apesar de achar cafona, acho até que tudo bem ele se ufanar do sucesso deste negócio, mas daí a transformar o negócio num peso às suas costas graças a uma relação canalha do seu negócio a uma causa (pseudo)coletiva interessante, fazendo parecer que esse negócio é, na verdade, um grande sacrifício para si e que por isso o negócio precisa contar com o apoio integral de todos e todas… Bem, eu, que não sou cristão, não vou cair na imagem hiperreal do empresário que é mártir da luta pelo bem estar social, que só está interessado em proporcionar entertainment de qualidade para a sua cidade, limpar as ruas do seu bairro e salvar seus concidadãos do marasmo.

Tudo bem que seja próprio da publicidade afrontar a autonomia e a inteligência das pessoas, mas não dá para manter essa pose de bom burguês e dizer que está na contramão do sistema e que não vai se retirar da luta pela cultura. Só um idiota cairia nessa conversa de que o Circuito Ribeira é um grito espontâneo da classe artística, porque nada espontâneo nasce de um processo burocrático de captação de recursos via lei de incentivo à cultura, e a classe artística sabe que, ao largo deste grito, há quem tenha os bolsos cheios e há quem não.

Também tudo bem que o estado financie a tua Ribeira de plástico, já que de plástico é quase tudo o que este estado financia, mas a propósito de financiamentos e tudo mais, escrevo neste (ufa) quase último parágrafo uma sugestão amigável aos business-workers salvadores da ribeira-dos-meus-prazeres, vejam: por que não ser transparentes com o dinheiro público (afinal, o Conexão Vivo financia o projeto graças a uma isenção fiscal) e publicar, no blog de vocês, todo o orçamento dos circuitos? … descrevendo quanta grana vem, quanta grana volta, como a grana é gasta; se o cachê pago ao José Dias – na saleta privada cuja porta dá pra galeria da Casa da Ribeira, referente ao show de Khrystal – é o mesmo cachê que Os Bonnies receberam pela tocada incrível no Café Salão; se todos os artistas envolvidos recebem cachês; e como se justifica os cachês de cada um deles, e de cada um de vocês, organizadores; do mesmo modo nos contem sobre o valor das pautas que vocês pagam a vocês mesmos; dos gastos em segurança, limpeza, iluminação, etc, etc, etc.. Queremos saber tudo!

Todo empresário íntegro e honesto – que é (nós sabemos) a imagem que vocês vêem quando miram o espelho -, em contando com dinheiro público para consolidação da sua empresa (e estes não são poucos), deveria agir com transparência para que não parecesse sempre um cão de rabo preso.

Aguardaremos ansiosos a comprovação da prometida hombridade dos ilustríssimos empresários.

Post-scritpum aos amigos: caso eu seja assassinado/ desconfiem de todos/ inclusive de mim.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. chico m guedes 8 de junho de 2011 11:35

    “Rolai na poeira, chefes do rebanho!… / Não haverá mais refúgio para os pastores,/ Nem salvação para os chefes do rebanho” Jeremias 25.34-35

    ler Jota assim de manhã me levou aos gloriosos profetas loucos insurretos dos velhos livros, como Ezequiel e Jeremias, os de sagrada ira, tão necessários quanto raros na nossa Jerusalém praieira narcísica e autocomplacente.

  2. Marcos Silva 8 de junho de 2011 8:57

    Mosca que caiu na sopa, pedra no sapato (ou meio do caminho), fiapo de manga: coisas da língua (portuguesa do Brasil).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo