Com Tim Maia, na Inglaterra

Londres, 1970

Por Péricles Cavalcanti

FOLHA DE SÃO PAULO – ILUSTRÍSSIMA

Quando o grande Tim Maia lançou seu primeiro disco, em 1970, e rapidamente foi para o topo das paradas, trazendo, a partir daí, para a música brasileira, de uma maneira original e brilhante, todo o know-how de tudo que ele havia escutado e amado (“soul music” em geral e artistas da gravadora Motown) durante o período em que esteve nos EUA, eu não estava no Brasil.

E onde eu estava?

No final do verão europeu de 1969, em Paris, onde pensava continuar meus estudos de filosofia, mas que foi o ponto de virada para que eu me tornasse um “hippie”, daquele tipo que toca duas ou três canções de Bob Dylan (no meu caso, de Luiz Gonzaga, também!) com violão e gaita, no metrô, pra ganhar uma graninha para sobreviver, o que eu fazia com alegria e alguma eficiência, embora nem passasse por minha cabeça, ainda, a possibilidade de me tornar um profissional na música.

Passados alguns meses, fui a Londres visitar meus amigos desde a adolescência, em São Paulo -os tropicalistas-, que estavam lá, como se sabe, depois de serem obrigados, absurdamente, pelo governo militar da época, a se exilar.

Minha intenção, bem idealizada, era passar uns dias com eles e, depois, dar um jeito de ir para algum “paraíso hippie” na Califórnia. Mas aconteceu que fui ficando, ficando, por lá e arredores, até o final de 1971.

Tudo isso para contar que a primeira vez que vi Tim Maia foi na casa de meus queridos Caetano e Dedé, que me hospedavam. Nenhum de nós, ali, o conhecia pessoalmente, nem a sua música, propriamente, embora tivéssemos notícias de seu sucesso no Brasil.

Provavelmente indicado por amigos comuns, dele e de Caetano, Tim fez essa visita levando consigo a namorada, por quem, evidentemente, estava apaixonado e a quem tratava com carinho e respeito. Ambos estavam um pouco tímidos, e ela, praticamente, não falou. Foi uma visita rápida e muito simpática e, como me lembro, todos que estavam na casa, no momento, gostaram do casal e do jeito espontâneo, carioca e engraçado de Tim.

Fazendo uma comparação com a parte londrina do muito bom filme em cartaz, “Tim Maia”, de Mauro Lima, posso dizer que toda aquela ambientação que aparece nele, na verdade, era mesmo comum na época. Fui muitas vezes a casas com aquele clima. Mas não foi assim, nessa situação, que vi Tim, embora me lembre que a roupa que ele usava era igual ao figurino do filme.

A segunda vez que o vi foi na casa de minha amiga, a atriz Maria Gladys, uma das muitas de brasileiros na Londres de então.

Como eles já se conheciam do Rio de Janeiro, provavelmente desde o Clube do Rock, de Carlos Imperial (tão bem encenado no filme), a visita de Tim foi mais informal e, na verdade, ele estava lá pra dizer que ia voltar para o Brasil, um pouco triste, porque tinha brigado com seu amor, Janete, a Janaina, no filme.

Naquele dia, na sala, junto com eles e comigo, estava Jards Macalé, de passagem por Londres para gravar, com Caetano, o disco “Transa”. Recordo-me de que, ao se despedir, Tim, que trazia consigo um violão eletroacústico da marca Ovation (recentemente lançado e bastante apreciado na época), deu de presente, a Jards, aquele instrumento novinho.

O engraçado é que, há uns cinco ou seis anos, quando perguntei a “Macao” se se lembrava disso, ele me disse que não, embora tenha gostado de saber que havia recebido tal presente.

Será que minha memória inventou isso?

Acho difícil, porque esse fato foi marcante e significativo para mim naqueles rápidos e leves encontros que tive com Tim Maia em Londres. Quanto desprendimento e generosidade sincera naquele gesto!

 

PÉRICLES CAVALCANTI, 67, compositor gravado por Gal Costa, Arnaldo Antunes e outros. “Canções” (1991) foi seu primeiro álbum e “Frevox” (Pommelo, 2013) é o mais recente.

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