O “time dos sonhos” da mídia entra em campo

No debate sobre o fechamento do Ministério da Cultura segunda-feira, na Casa da Ribeira, lá pras tantas, o professor e diretor de teatro Sávio Araújo contou que tinha se libertado da Rede Globo. O termo usado por ele foi esse mesmo, “libertado”. Há mais de ano não assistia a nenhum programa da emissora.

Por dever do ofício eu não posso fazer isso. Precisaria até ver mais. Todas as emissoras. No entanto, como sou muito ocupado, o máximo que vejo é um ou outro noticiário ou pedaços, dependendo se estou em casa na hora do almoço ou da janta, ou no trabalho, onde tem uma tv ligada ininterruptamente e fico com um olho nela e outro nas tarefas diárias. Minha fonte de informações há muito tempo é a internet.

Mas mesmo vendo pouco tv não há como não perceber a mudança editorial das coberturas operadas pós-impeachment. Há um apoio e entusiasmo indisfarçável da mídia hegemônica, aqui incluindo os meios impressos em geral.

Confiram algumas manchetes de ontem (19/05): Globo (“Time sob medida para dar segurança a mercado”). “Time de sonhos” aí é a equipe montada pelo novo ministro da Fazenda Henrique Meirelles meireles(caricatura). Valor (“Medidas de ‘time de sonhos’ terão de enfrentar Congresso”).  Os apresentadores e colunistas também estão empolgados. Míriam Leitão, Globo (“Equipe de primeira”); Celso Ming, no Estado (“Se essa equipe econômica do governo em exercício falhar, não será por falta de qualificação…”). Chico Pinheiro: “Craques”. E por aí vai. Pois bem, é esse “time de sonhos” tão incensado que vai transformar a vida de muita gente em pesadelo.

Ao mesmo tempo a mídia vai construindo um discurso em que justifica  descaradamente as medidas impopulares em curso. Exemplo de ontem no Bom Dia Brasil. Anuncia a suspensão do Minha Casa Minha Vida e em seguida fala que os imóveis são entregues cheios de problemas. Logo, tem mais é que parar mesmo.

Uma colega da redação que assiste o Bom Dia Brasil, vendo o festival de notícias favoráveis ao governo interino, comenta: “Tá melhor que a Assessoria de Imprensa de Temer”.

É óbvio que essa mídia tem consciência da lama em que Temer e seu ministério está atolado. Não preciso aqui repetir os retrocessos ocorridos em menos de um mês de governo e os que estão sendo anunciados para o futuro próximo a conta-gotas. Mas o que interesse para a mídia é que temos um “time de sonhos” na economia que vai executar a política econômica liberal que ela defende e o mais que se varra para debaixo do tapete.

Não é por outro motivo que hoje é altamente aconselhável acompanhar também o noticiário pela imprensa estrangeira. O que nos permite constatar a situação esdrúxula a que se chegou. Temos duas narrativas antagônicas sobre os mesmos fatos. Enquanto para importantes veículos de comunicação internacionais ocorreu um golpe no Brasil, para a imprensa nativa o processo de deposição da presidente foi legal.

Ainda ontem, o ex-ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Vitor Santos, em artigo (aqui) intitulado adequadamente de “Apocalipse do Jornalismo”, chama atenção para a degradação da imprensa brasileira.  É uma lástima que ela tenha caído nos mesmo erros de 1964.

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