Tinhorão desvela origem da música do povo

CRÍTICA MÚSICA
Tinhorão desvela origem da música do povo
Livro do pesquisador é o mais completo estudo sobre o berço e o desenvolvimento da canção popular urbana

TINHORÃO DECLARA QUE SUA “LUTA” TEM COMO FIM EXPRESSAR A ARTE DO POVO. É O ARIANO SUASSUNA DA CANÇÃO

HENRY BURNETT
ESPECIAL PARA A FSP

Talvez nenhum livro do pesquisador José Ramos Tinhorão traga, de modo tão marcado, uma afirmação totalizante sobre a finalidade de sua obra como um todo.

Para expor as lacunas existentes acerca da origem da canção urbana, diz ele, “o autor buscou encontrar na área de sua especialidade, que é a da história do processo cultural das camadas populares das cidades”, as respostas nunca procuradas.

Este trecho de seu mais recente livro, “As Origens da Canção Urbana”, ilumina não apenas suas intenções atuais, mas o que escreveu em anos de dedicação à história da música brasileira.

Tinhorão declara afinal que sua “luta” teve e tem como fim expressar a arte do povo, fazendo com que ela seja ouvida e respeitada. Tinhorão é o Ariano Suassuna da música popular.

Se durante tanto tempo Tinhorão foi rechaçado, há um descompasso entre o material documental das obras e a análise que faz dele?

Não. Algumas frases isoladas (e infelizes) lhe deixaram a pecha de crítico grosseiro quando, na verdade, seu papel deveria ter sido reconhecido desde sempre.

Isso teria poupado muitos anos de marasmo crítico e da sensação próxima a um estado de integração deliberada, onde tudo é bom porque é plural e múltiplo.

Em Tinhorão ocorre o contrário desta padronização, da ideia de que tudo o que é popular é comercial (e bom). Tinhorão acha que a música do povo é o grande refinamento e quer justamente desvelar aquilo que está oculto.

Não é difícil descobrir as razões de sua saída de cena: ele não gosta de nada do que se chama hoje de “popular”.

O livro começa no século 15, quando a canção popular teria se definido como um produto típico das cidades -Lisboa em primeiro lugar.

Ascensão econômica, ostentação e desenvolvimento formariam a base para novas formas de expressão.

Incursões livres na história desde a epopeia homérica, passando por seus desdobramentos na história, dão ao livro um aspecto enciclopédico, com deduções que não vão além das relações que interessam ao autor.

O método de rastrear nas obras literárias suas fontes já é consagrado: poemas, romances e recortes formam o ‘núcleo das hipóteses.

A canção nasce como “canto solo” quando a melodia começa a duelar com a palavra cantada, distinguindo-se dos cantos rituais ligados ao mundo rural; a partir daí o livro descreve seus desdobramentos até hoje.

Um manancial de fontes que exige muita atenção do leitor e dos estudiosos. O livro é a história mais completa e mais bem escrita do nosso gênero hegemônico.

HENRY BURNETT é professor de filosofia da Unifesp e autor de “Nietzsche, Adorno e um Pouquinho de Brasil – Ensaios de Filosofia e Música” (ed. Unifesp, no prelo).

AS ORIGENS DA CANÇÃO URBANA

AUTOR José Ramos Tinhorão

EDITORA Editora 34

QUANTO R$ 37 (224 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

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