Tiro ao alvo

Por Janio de Freitas
FSP

A matéria humana que os partidos indicam para os governos expõe de que são feitas as legendas nacionais

Alguns, mais endinheirados, recorrem para seu esporte olímpico a armas e equipamentos óticos tão sofisticados quanto uma complexa criação da Nasa. Outros têm que se satisfazer com os parques de diversões e suas espingardinhas malandras. PMs, em grande número deles, não fazem questão de tal ou qual arma, bastam-lhes a oportunidade e o alvo. Este, de preferência negro e sempre de classe social modesta, aquela mesma de onde, em geral, procede o próprio PM.

Os jornalistas têm os ministros. Para variar, a oferta de congressistas é abundante, e por isso mesmo menos atraente. Ao olhar para o ministério, é só não ter pontaria ruim demais, já na percepção do alvo facilitada pela folha corrida que tantos ministros ostentam na testa, como se foram círculos concêntricos.

Nisso criaram-se dois perigos. Um, consumado; outro, incipiente. O primeiro é o tipo de matéria humana que os partidos políticos indicam para compor os governos. O que, por sua vez, expõe o material de que os partidos brasileiros estão compostos em grande proporção. E, de quebra, explica a visão que cada eleito e nomeado leva, para o ministério, do seu país, do seu Estado, da sua cidade, da sua casa.

O outro perigo é o que pode resultar, na sociedade, da comprovação frequente de improbidade política e administrativa. Apatia crescente em relação à política e ao país, individualismo exacerbado, obsessão pelo ganho por qualquer modo -são perspectivas de que há sinais nítidos. Ou esgotamento da passividade, busca de pretensos consertos sem distinção entre os abusos deformantes e as liberdades democráticas -são possibilidades que conhecemos, remotas hoje, mas não extintas da vida. A história muda de forma, mas não se recusa a repetir-se.

Há também um efeito secundário que ameaça, sob estímulo das facilidades, infiltrar-se além dos últimos limites toleráveis. São certos componentes do espírito próprio do policialismo já perceptíveis em algumas produções jornalísticas, seja por decorrência da ânsia denunciante, seja por concessão ao sensacionalismo como método para enfrentar as concorrentes. A apuração factual e documental se afrouxa, a linguagem jornalística desce de nível, e a responsabilidade cede em direção ao vale tudo.

Alvejado em voo Pedro Novais, indicação gloriosa do líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, o aliado mais inimigo do governo Dilma? Na fileira dos ministros está, por exemplo, Mário Negromonte, que repete no governo Dilma Rousseff o seu antecessor e conterrâneo Geddel Vieira Lima, distribuidor de verbas federais a granel para seu Estado, como alicerces de uma candidatura ao governo que a sorte dos baianos não deixou ser vitoriosa.

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