Título prenuncia novas controvérsias

Baseada em critérios temporais, e não orientação estética, antologia “Geração Zero Zero” embaralha conceitos

Confusão já existia na seleção dos anos 90 do mesmo organizador, que suscitou debates acalorados no meio

Por Fabio Victor
FSP

Sim, quem está atento à literatura brasileira já viu esse filme -uma antologia de novos prosadores, com uma etiqueta a despertar paixões nas rodas livreiras.

Repetindo o que fez há dez anos, quando inventou a chamada “geração 90”, o escritor, editor e agitador Nelson de Oliveira acaba de finalizar outra seleção de autores nacionais, surgidos na primeira década do século 21.

No primeiro semestre de 2011, virá à luz “Geração Zero Zero” (por extenso “para evitar que as pessoas digam ó ó”, segundo o antologista), pela editora Língua Geral.

Oliveira pinçou 21 nomes, de uma relação de 150. Para entrar no grupo original, bastava ter aparecido na última década e ter pelo menos dois livros já publicados.

O organizador então usou o arbítrio, e confia que, das sucessivas peneiradas, chegou aos 21 melhores ficcionistas do país no período.

O time tem média de 39 anos, predominância de paulistas (oito) e alguns nomes que já flertam com o “mainstream”, como Ana Paula Maia, Carola Saavedra, Daniel Galera, Lourenço Mutarelli, Santiago Nazarian e Veronica Stigger.

Há quem escreva há anos, mas só publicou recentemente, caso de José Rezende Jr., 51 (premiado no último Jabuti), Sidney Rocha, 45, e Flávio Viegas Amoreira, 45.

E há quem publique tanto no Brasil quanto fora, como Maria Alzira Brum Lemos, que transita pela América Latina e cuja prosa vigorosa já foi elogiada pelo espanhol Enrique Vila-Matas.

As narrativas do futuro livro, todas próximas do conto, serão inéditas, exceção feita às de Mutarelli, já publicadas num blog do autor.

QUE GERAÇÃO?

Como da primeira vez, agora há novamente margem para debates exaltados, pois permanece difuso/confuso o conceito de geração.

Dividida em dois livros (“Manuscritos de Computador”, de 2001, e “Os Transgressores”, de 2003, ambos pela Boitempo), a investida de Oliveira sobre a “geração 90” despertou paixões.

Por não haver entre os autores uma diretriz estética -apenas afinidades quanto à temática, urbana, periférica e realista- alguns viram ali um lance oportunista, puro golpe de marketing.

Os defensores saudaram a inquietude e a guerrilha de Oliveira como fundamentais para lançar nomes sem espaço no establishment.

Embora admita que de novo prevaleceu o recorte temporal e que “toda catalogação pressupõe certo grau de simplificação”, Oliveira enxerga uma afinidade entre os 21 da “geração zero zero”, no gosto pelo bizarro.

É algo de que mesmo alguns selecionados discordam, como Tony Monti, 31 (um dos caçulas da turma), que rejeita enfaticamente o rótulo de “geração” e para quem a afinidade programática com os outros “é zero”.

CATALOGAÇÃO

Para Oliveira, mais importante que validar o termo “geração”, é o trabalho de catalogar quem anda produzindo ficção no país. “A última catalogação é a do Alfredo Bosi [“História Concisa da Literatura Brasileira”], que vai até a década de 1970.”

Então as antologias teriam a aspiração de complementar o trabalho de Bosi?

“Não cumprem esse papel”, responde Oliveira, “porque não são estudo histórico, mas apontam a necessidade de incluir no cânone essas duas décadas”.

Integraram as antologias da “geração 90” nomes como Marçal Aquino, Luiz Ruffato, Rubens Figueiredo, André Sant’Anna e Joca Terron.

Ocorre que o arbítrio do organizador, algo naturalmente controverso, alijou, nesta e nas primeiras seleções, figuras significativas.

Por algumas omissões ele se penitencia, casos de Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha (naquelas), Beatriz Bracher, Clarah Averbuck, João Paulo Cuenca, Marcia Tiburi, Mário Araújo e Tatiana Salem Levy (nesta).

Bernardo Carvalho e Milton Hatoum, em tese enquadráveis no recorte das primeiras, Oliveira diz que não lhe “comovem”. Os dois, vale recordar, fizeram críticas, na Folha, à “literatura geracional” (Hatoum) ou à “submissão à realidade” (Carvalho) que marcava o grupo reunido pelo organizador.

RUMO DO BARCO

Críticos e editores se dividem sobre a iniciativa.

Curador da próxima Flip, Manuel da Costa Pinto elogia as antologias de Oliveira por terem “um pendor classificatório, que, mesmo com lacunas, busca apontar tendências, entender para onde o barco está indo”.

O professor de teoria literária da Unicamp Alcir Pécora considera que Oliveira “tem uma determinação de operário de ofício interessante como atitude”, mas julga os resultados como “modestos”.

Pécora diz encontrar, entre os autores, “bons textos aqui e ali. Não o suficiente, porém, para caracterizar uma geração interessante, muito menos uma literatura nacional interessante”.

Jorge Viveiros de Castro, da 7 Letras, pródiga em lançar novos autores, opina que o número crescente de escritores torna necessário que “alguém mastigue” para os leitores o que é válido. “Há um público que, não fossem as antologias, não chegaria aos novos autores.”

Frases

‘A “geração 90” é mais boteco, mais Plínio Marcos, de uma negação à erudição. Nesta [da antologia “Zero Zero”] todos têm um pé na alta literatura’
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – escritor

“O leitor morreu. Nossos leitores somos nós. Não tenho essa ideia romântica de milhares de leitores, escrevemos para uma seita, somos cúmplices de uma escolha”
ANDRÉA DEL FUEGO – escritora

“É sacerdotal organizar antologias, uma espécie de catalogação necessária, mas “geração” é um conceito muito vago. Com a velocidade dos surtos contemporâneos, é um conceito estranho”
SIDNEY ROCHA – escritor

“Sou influenciado também por autores de que não gosto, por contos maus sucedidos de meus amigos”
TONY MONTI – escritor

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OPINIÃO

Antologias simbolizam a era do marketing literário

PAULO WERNECK
EDITOR DA ILUSTRÍSSIMA

O subtítulo de uma das polêmicas antologias “Geração 90” pretendia explicar a origem comum entre os escritores ali reunidos: “Manuscritos de computador”. Na década seguinte, foco da antologia “Zero Zero”, o computador de fato se mostraria central -ironicamente, não para a produção, mas para o marketing literário.

Com a polêmica, logo foi abandonada a defesa dos motes das antologias “Geração 90” (“manuscritos de computador” e “os transgressores”). Adotou-se o argumento sem pejo de que se tratava de “marketing”, igual ao das “grandes editoras”. Por que não? As antologias seriam obras de vanguarda que se valeriam das armas do capitalismo para subvertê-lo.

A ideia de que escritores e outros intelectuais devem fazer seu marketing é um consenso que se impôs na década de 2000, não apenas no Brasil. Hoje é rotina vermos elogios recebidos sendo “retuitados”. A apreciação de textos volta e meia se resume ao sinistro gesto de “curtir” do Facebook, atualização do sinal que os antigos romanos usavam para salvar a pele de um desgraçado das garras de um leão.

Marketing é para editoras e livrarias, não para autores e críticos. Escritores que se escoram no marketing não subvertem o capitalismo, apenas o reiteram e negam o exercício da crítica. Para ter verdade crítica, uma antologia deve identificar movimentos, vetores, sensibilidades compartilhadas por um grupo. É preciso um ensaio de peso, uma revista, um manifesto que justifiquem o batismo de uma nova geração literária.

Escrito por extenso, o título da nova antologia guarda perigosa semelhança com “lero-lero”. Embora inclua bons escritores, poderia ter sido montada a partir do que os organizadores “curtiram” no Facebook.

Eis aí uma receita para fabricar “gerações” literárias. Já aguardamos a “Geração 10”, que virá em 2020.

Mais do que estimular a difusão da literatura contemporânea, escritores e críticos travestidos de “enfants terribles” marqueteiros acabam por ajudar a transformá-la numa espécie de gênero à parte, que em breve só vai interessar a quem o pratica -como já aconteceu, em outros momentos, com o cinema e a poesia no Brasil.

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