Todo casamento é real

Fiquei muito impressionado com um comentário de Lívio Oliveira sobre o casamento de William e Kate: “Qualquer bom historiador, dentre eles o britânico Andrew Roberts (…), se interessaria em acompanhar o evento”.

Sou historiador (talvez bom, com certeza não britânico) e detesto acompanhar essas cerimônias. No entanto, considero-as importantes historicamente, embora de maneira diferente da que Lívio (e Andrew) a considera(m).
Ao menos desde Michelet, com reforços epistemológicos trazidos por brilhantes não-historiadores que repensaram a História em profundidade (destaco o trio elétrico Marx, Nietzsche e Freud – citados em ordem de nascimento, não de importância: 1818, 1844 e 1856), todo historiador considera todo evento importante historicamente. O pessoal da História da Vida Privada destaca a grande importância de eventos ligados a nascimentos e mortes – casamentos costumam anunciar futuros nascimentos, embora muita gente, hoje, opte por não ter filhos mesmo casando. Mas aqueles que pertencem a famílias que detêm diferentes capitais, inclusive o gigantesco capital simbólico de ocupar um trono, querem ter filhos, claro!

Nesse aspecto, Oliveira tem certa razão: todo bom historiador se interessará por todo casamento, não como tiete de família real (argh!) e sim como analista. Fotografias do evento, talvez o próprio vestido da noiva, serão devidamente arquivados. Estive no National Museum of American History (Washington DC), os vestidos das primeiras-damas na posse do marido de cada uma, são expostos com destaque numa das salas da instituição.

Considero posse de presidente um evento ainda mais chato que casamento de família real britânica, o que não diminui sua enorme importância histórica. Historiador bom não precisa assistir à Queda Bastilha, historiador bom precisa dizer coisa com coisa sobre a Queda da Bastilha. Todo evento – da Queda da Bastilha ao casamento de Kate e William – possui algum registro que bons e maus historiadores analisam.

Agora: uma lição elementar de historiadores bons, desde Michelet (com o reforço do trio elétrico indicado), é que TODO casamento (TODA posse, TODO tudo) é importante historicamente. Essa conversa de que tal evento é importante é que os demais são secundários é de uma bobagem atroz. O primeiro ensinamento oferecido pelo pessoal da Escola dos Annales (que o povo da vida privada segue, com modificações) é que História é experiência coletiva. O que está em jogo não é a biografia de Kate, é a biografia de todo mundo. O que está em jogo não é uma vida de personagem poderoso, é a vida de todo mundo.

Sim, ninguém assiste a todos os casamentos (da empregada doméstica à filha do mega-magnata), ninguém faz biografia de todo mundo. O deslumbramento por UM casamento (o de Kate e William), então, não é tarefa de historiador bom, é programa de tiete mesmo – o que não é proibido, claro.

Quanto a rituais, prefiro aquele das moças em Touros, que tomam banho nuas, depois de festejarem o nascimento de Jesus. Considero-o muito mais poético. Sem louvor ao poder do momento nem à mídia.

Mas defendo o direito de Lívio e Andrews gostarem de assistir ao que quiserem, claro.

Pequenas correções ao bom historiador Andrews. Perpetuar-se no trono é lapso de linguagem, a Revolução Francesa foi em 1789 – para não falar do ciclo britânico do século anterior e de outras casas reais derrubadas ou reabilitadas sem a continuidade pretendida pelo perpétuo. A nova era, se houver, não é apenas para os Windsor, é para a sociedade britânica. Historiador não trabalha com bola de cristal, não se sabe quanto tempo Kate desfrutará de algum poder. “Tudo é História logo a História não existe” (Paul Veyne). Nenhum casamento é sobre um vestido bonito – talvez seja mais sob um vestido, bonito ou feio. Será que os membros da monarquia britânica não fazem mesmo parte da classe política?

O evento em foco é importante historicamente porque todo evento humano é importante historicamente.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 × 1 =

ao topo