Todo dia é dia, ou putaria muita

Ontem foi o Dia Mundial da Prostituta, ou o Dia Internacional da Prostituta. Não sei dizer, nem faz diferença. O ponto g das comemorações em João Pessoa é a Rua da Areia, tradicional zona da cidade. Não conheço nenhuma outra que celebre a data. Nem lembro de já tê-la comemorado antes. Na verdade, nem lembro bem como foi a festa de ontem. Às vezes rolam uns flashes. Vamos a eles.

Um sushi meio sem futuro no almoço quase botou a noite a perder. Ainda assim, recomposto após uma visita beeem demorada ao banheiro, desci pro Centro com uns brodérs para sacar qualé. Já tinha rolado a tradicional corrida das calcinhas. Como é à tarde, infelizmente são expostas nas cabeças dos participantes. Rua fechada, com uns guardas botando ordem no cabaré do trânsito. Tendas no meio da rua, banheiros químicos, palquinho bancado pela prefeitura. Uma banda de suingueira sem futuro aloprando no rebolation. Depois rolou um forró pé-de-serra. E uma ciranda. E uns batuques. Já tinha rolado uma escola de samba. O escambau.

Exposições fotográficas, vendas de camisetas temáticas, gente pra caralho e uma tendinha com massagem grátis. Achei os caras muito peludos e grandões e as coroas meio feiosas então não encarei dar um relax por lá.

Primeira parada técnica para uma cerva: um puteiro com um pé direito monstro com uma bandinha desenrolando um rock. Bacana. O guitarra se garantia, era rock brasuca anos 80 e 90, Legião-Paralamas-por-aí. Pena que o vocal jogava pra galera, ficava naquela de ‘agora só a galera da universidade’ e a boyzada ia à loucura. No final das contas, era engraçado. Empolgado, o cara anunciou no microfone que haviam aprovado a criação da Semana da Prostituta. ‘Vamos incrementar o turismo de João Pessoa, galera! Urrú!’ Pensei logo em Ponta Negra e ri até chorar.

Logo depois, meio que para lembrar onde estávamos, começaram a projetar um strip-tease da Viviane Araújo. Os punheteiros aqui do SP talvez a conheçam. Vi aquelas coxas da largura do meu tórax e pensei: ‘Um xis de alicate dessa moça pode deixar um cara paraplégico’.

Depois de conferirmos ao menos no visual alguns pelos pubianos da moça e enxugar a baba tentamos outro estabelecimento de reputação duvidosa. Nesse tinha uma jukebox, uma radiola de fichas vitaminada que tocava CDs e DVDs certamente piratas. R$ 2 por quatro músicas. Escolhi Os Seresteiros da Noite, de Amado Batista, Doida Demais, de Lindomar Castilho. Depois achamos um Waldick Soriano, mas realmente não sei qual foi que tocou. Me veio a lembrança do bar de vovô em Florânia, onde fui apresentado à exploração do trabalho infantil voluntário. Era massa.

Cascavilhando no set da máquina atrás de um tecnobrega, Paulo descobriu um DVD de uma banda chamada Déja Vu (pronuncia-se dêjávú mesmo). Peso. Um cara num laptop, dois caras fingindo tocar uma guitarra e baixo, uma doidinha com voz igual a dessas cantoras de forró eletrônicos, quatro doidinhas e um fresco em roupas sumárias rebolando na frente e aquela batida contagiante que vem lá do Pará, ou da puta que pariu. Coisa de gênio, que ainda vai render inspirados estudos acadêmicos um dia. Vocês vão ver. Mas a competição pela máquina era intensa então levantamos voo.

Do lado de fora, alguém abriu o microfone para um poeta bêbado, que resolveu estuprar a obra de Augusto dos Anjos. O cara começou com ‘Eu, filho do carbono e do amoníaco’, mas depois desse verso esqueceu o resto e começou a balbuciar outros trechos. Depois, uma doidinha dessas da universidade tascou um ‘Vês, ninguém assistiu ao formidável enterro da sua última quimera’ e empacou por aí também. Porra, esses até eu sei decorado.

Lá pelas tantas, o locutor anunciou: ‘Dia Internacional da Prostituta. Porque todas as mulheres são iguais’. Isso quer dizer que são todas putas?, pensei. Deixa pra lá.

O último grande evento era o desfile de langerie num night club do pedaço. A frente do buraco era mais enfeitada que penteadeira de puta. Tinha uns espelhos e uns ladrilhos coloridos e umas lâmpadas coloridas e um arquiteto que não fosse da Ecocil vomitaria se passasse em frente. Pagamos 5 pilas e encaramos o moquifo, lotadaço até a tampa, sem mesa para sentar e um abafado que me fez sentir vontade de enrolar uma toalha na cabeça.

A demora pra começar a bagaça me fez cogitar, de um modo cartesiano, que finalmente havíamos entrado numa roubada. Aí subiu uma magrela horrorosa para anunciar o começo da brincadeira e mandamos logo ela tirar a roupa, o que a fez desistir de ficar no palco.

Gabriel, que estava com a gente, é um galego que lembra o Anjinho do Maurício de Sousa. Não sei por que, mas as mulheres tendem sempre a paparicá-lo como se fossem colocá-lo no colo a qualquer momento. Eu jamais botaria um marmanjo com mais de 7 anos no meu colo. Sem mais nem para quê, uma profissional do gemido que estava na plateia resolveu se esfregar nele de cima a baixo de uma maneira que até as meninas no palco pensariam duas vezes antes. Comentei: ‘Na minha próxima vida, quero nascer inocente que nem ele’.

Bom, era langerie que só a piula, mas se quiser comentários sobre os modelos e tendências pergunte a Ana Hickman. Na sequência, começamos a puxar uma torcida muito animada de ‘Edna! Edna! Edna! Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!’. Mas não havia nenhuma Edna competindo. Depois, alguém comentou que o nome da moça era Paulinha. Foda-se. Era parecido.

A campeã sempre volta para fazer o serviço completo, o que significa tirar a roupa. Bom, ninguém era louco de ir embora antes, a não ser um dos nossos amigos que caiu na besteira de levar, vejam só, a namorada pra festa. Tem gente que nasce pra se lascar sozinho. Só sei que depois o telefone da Paulinha era passado de ouvido em ouvido e comemorado feito gol no Machadão. Hoje achei o danado até na memória do meu celular. Só não sei como ele foi parar lá.

Parece que encontramos um professor amigo nosso por lá e acabamos no primeiro puteiro da rua. Emocionado ele contou toda a história do estabelecimento, mas se alguém decorou porra alguma só o tempo dirá. Sentou um cara na mesa, uns dez anos mais novo que eu, com uns cabelos longos, barbudo, meio hippie style. Disse o nome, mas resolvi chamá-lo de Jim Morrison e ficou por isso mesmo.

Daqui a pouco aparece do nada uma louraça belzebu saída de algum disco do Fausto Fawcett para conversar com ele. A primeira pergunta foi logo: ‘Filha, por que diabos você não participou do desfile?’. Paulinha certamente teria corrido sérios riscos de continuar em roupas mínimas. ‘Já participei em outros anos… Foi a Paulinha que ganhou? Ah, ela é muito cara, cobra uns 50 contos. Eu saio até por R$ 30’. Juro: dava para ouvir a taquicardia de alguns caras na mesa. Graças a deus não saí com a grana do aluguel no bolso.

Aí, Jim Morrison saca uma pasta e tira uma pilha de papel de dentro e começa a ler umas poesias para a moça. Porra, era alguma coisa pra mais de três da matina e isso não se faz nem com um cachorro. Enquanto ouvia, a moça era assediada por Gabriel, que havia perdido a carteira, a sanidade e a vergonha na cara. Ele começou a pegar no joelhinho dela, mas logo já segurava algo que eu tinha certeza que era um seio enquanto a mão do joelho já se aventurava em algo semelhante a um papanicolau. A louraça lucifér escutou uns dois e pegou o beco.

De qualquer modo, em algum ponto da jornada já se discutia calorosamente na mesa se Monteverdi seria um compositor renascentista ou maneirista. Aí eu acordei em casa e já era meio-dia.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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