Todos os ângulos da ex-Deusa Loura do cinema nacional

Odete Lara, que ganha mostra de filmes no CCBB, lembra seu passado libertário e fala de como transcendeu o sexo e se encontrou no budismo

Por Mauro Ventura
O GLOBO

Odete Lara usa uma bonita metáfora para falar de sua transformação.

— Eu via o mundo como um close, onde só havia o rosto do homem amado. De repente, passei para uma grande angular e hoje vejo tudo ao meu redor — diz a atriz de 32 filmes, entre eles clássicos como “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, “Boca de Ouro” e “Noite vazia”.

De fato, foram muitos os amores. Ela, que assume ter sido “escrava do sexo”, foi de “A” — o cineasta Antônio Carlos da Fontoura — a, no mínimo, “V” — o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Mas a Deusa Loura das telas, como era conhecida, mudou e tem uma visão panorâmica da vida:

— Eu transcendi. Agora, estou apreciando as coisas mais do que antes.

Largou o cinema, encontrou o budismo, saiu do Rio. Mas deixou saudades. Na terça-feira, começa no CCBB a mostra “Odete Lara, atriz de cinema”.

Até domingo, serão exibidos 16 filmes — além de um documentário — da maior musa do Cinema Novo, ao lado de Norma Bengell.

— Nunca mais revi os filmes. Talvez eu vá à mostra, não resolvi ainda. Tem três que nem me lembrava de ter feito: “As sete faces de um cafajeste” (de Jece Valadão), “Um filme 100% brazileiro” (de José Sette) e

“Em família” (de Paulo Porto).

Fico lisonjeada com a homenagem, mas não sei se mereço.

Carreira encerrada em 1978

Poucas atrizes mereceriam mais. Seu currículo ostenta diretores como Anselmo Duarte, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Bruno Barreto. Contracenou com nomes como Dercy Gonçalves, Hugo Carvana, Maurício do Valle, Othon Bastos, Betty Faria, Maria Della Costa, Paulo Autran, Jardel Filho, Paulo Villaça e Milton Gonçalves.

— É uma das mais cinematográficas atrizes do cinema brasileiro, com completa noção do espaço cinematográfico, do posicionamento dos refletores e do enquadramento da câmera.

Uma atriz nata, conscientemente linda, sempre no ângulo mais favorável para nós, enquanto admiradores, e para ela, enquanto admirada — diz Fontoura, que a dirigiu em “Copacabana me engana” e “A rainha diaba”.

Em 1978, saiu de cena, após 22 anos de uma carreira iniciada em “O gato de madame”, de Agostinho Martins Pereira, onde atuava ao lado de Mazzaropi.

Seu último filme foi “O princípio do prazer”, de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode.

— Odete já morava no sítio, mas eu tinha pensado nela ou na Norma Bengell para o papel. Cismei que seria ela. Falaram que não ia conseguir, mas mandei um recado e ela aceitou — lembra Bigode. — Fiquei deslumbrado com aquela diva maravilhosa.

Fez as cenas de nudez com a maior elegância e não tinha nenhuma frescura. Só passou uma lista de comidas macrobióticas. Ela lembra a experiência:

— Depois que parei, recebi vários convites para voltar. Quando o Bigode me chamou, pensei: “Deixa eu ver se ainda quero fazer cinema.” Mas não era mais a minha, tinha enjoado. Gosto muito de mudar.

Passou a ir a tudo que era conferência. Numa delas, descobriu o budismo.

— Pensei: “Meu Deus, pela primeira vez estão falando alguma coisa que me interessa e que não quer me segurar.” Porque as religiões querem segurar a gente. Mas o budismo não é uma religião, é uma prática de vida, um sistema de pensamento.

As pessoas dizem: “Ah, Odete se retirou do cinema por causa do budismo.” Não. Encontrei o budismo depois que larguei o cinema — diz a autora dos livros “Eu nua”, “Minha jornada interior”, “Meus passos em busca da paz” e “Vazios e plenitudes: reflexões e memórias”, e tradutora de obras do monge budista Thich Nhat Hanh.

Cansada do barulho e do trânsito do Rio, mudou-se em 1976 para Mury, Nova Friburgo, com o então namorado, Euclydes Marinho, 21 anos mais novo.

— Tínhamos a utopia de fazer uma plantação orgânica. Mas era muito cedo para isso — ela diz.

A sogra, que de início não gostou, depois disse: “Odete, estou satisfeita por você ter tornado meu filho um homem.”

— Fui a primeira mulher a namorar homens mais jovens. Mas não era por causa do físico. É que a cabeça deles era muito mais liberada que a dos homens de minha geração.

Como não gosta de frio nem de calor intensos, ela passava o inverno no Rio e o verão em seu sítio zen. Mas o lugar está à venda, já que a mulher do caseiro morreu no ano passado.

— Ele não quer ter mais lembranças de lá. A venda está mexendo muito comigo, mas não tenho condições de administrar — diz ela, apaixonada pela natureza, que mora num pequeno apartamento no Flamengo, de fundos, com vista para o Morro da Viúva. Anda na praia de manhã e à tarde — ordens médicas. — Detesto andar. O ideal são 45 minutos, mas ando 35.

Odete Lara caminhou muito para chegar até aqui. Nascida em São Paulo há 82 anos, perdeu a mãe aos 6 e o pai, aos 18 — os dois cometeram suicídio.

— Às vezes me pergunto se é hereditário — diz ela, que nunca quis se casar de papel passado. — Tive maus exemplos quando criança. Via os casais e percebia uma incoerência. Estavam juntos, mas não viviam felizes. A mulher era sempre resignada. E a coisa mais importante da minha existência é a liberdade.

Da mesma forma, nunca quis ter filhos:

— Não tenho espírito maternal. Seria uma injustiça.

Curiosamente, a mulher que se consagrou nas telas — como diz o nome da mostra — era considerada uma atriz de teatro. Integrante do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), fez um “sucesso maluco” quando estreou, em “Santa Marta Fabril S/A”, em 1955, dirigida por Adolfo Celi.

— Mas eu tinha pavor de palco. Sou muito retraída. Ficava nervosa todas as noites. Envelhecia cinco anos a cada peça. Quando o espetáculo fazia muito sucesso, eu ficava louca da vida. Olhava pela cortina a plateia cheia e pensava: “Puxa vida, ainda continua enchendo.” E pedia substituição. Era considerada a atriz mais substituída do teatro. Já no cinema eu tinha intimidade com a câmera.

Uma exceção foi no Teatro Opinião, onde atuou em peças como “Liberdade, liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, e “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, de Ferreira Gullar e Vianinha.

— Percebi que ali o espírito era outro, não era só bilheteria.

A parceria com Vianinha se desdobrou afetivamente:

— Foi a grande paixão da minha vida. Mas senti que na nossa relação ou era um ou era outro.

Ele queria me dominar, e eu a ele. Não tenho espírito para isso. Saltei fora, mesmo amando-o.

Um único arrependimento

Odete, retratada no filme “Lara”, de Ana Maria Magalhães, passou pelos principais movimentos culturais dos anos 60 e 70. Ela lembra Glauber:

— Foi um casamento total. A primeira vez que improvisei foi com ele. Vi que se não aprendesse ele me tiraria do filme.

Seu único arrependimento foi não ter aceitado o convite de Anselmo Duarte para fazer “O pagador de promessas”: — Eu tinha acabado de assinar contrato para fazer o show “Skindô”. Ele falou: “Você vai se arrepender. O filme vai ganhar o Festival de Cannes.” Respondi: “Tomara que ganhe. Vou estar lá festejando e cumprimentandoo.” E foi isso que aconteceu.

Sua carreira de cantora merece registro. Fez shows ao lado de Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Sidney Miller, Sérgio Mendes. A ponto de, no documentário “Odete Lara”, de Fontoura, que passa na quinta-feira e no sábado, ela dizer que quando morrer vai encontrar Vinicius e Baden Powell esperandoa para cantar. Conheceu João Gilberto na casa de Tom Jobim. Ao ouvir João, falou: “Nossa, como ele canta diferente!”

— Ele era bastante retraído. Achei que eles iam morrer de fome, porque era uma coisa nova — diz ela, que também foi “uma grande hippie do desbunde”. — Penso como o Gabeira, não acho que maconha seja droga.

Apesar da ligação com a música, optou pelo cinema. A mostra tem filmes como “Absolutamente certo”, de Anselmo Duarte, “Bonitinha, mas ordinária”, de Billy Davies, “Câncer”, de Glauber, “Boca de ouro”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Noite vazia”, feito por Walter Hugo Khoury para ela e Norma Bengell.

— Odete recomendou incluir os filmes “Arara vermelha”, de Tom Payne, e “Mar corrente”, de Luiz Paulino dos Santos, mas não localizamos as cópias — lamenta o curador, João Juarez Guimarães, que justifica a ideia da mostra: — É uma atriz extraordinária, linda, que foi um modelo de comportamento para muitas mulheres, por causa de suas atitudes libertárias. E que, por sua opção de vida, está ausente do imaginário cultural.

Mas que não sente nostalgia e tem muito o que celebrar:

— Vivi intensamente todos os ciclos artísticos e todas as épocas. Não sobrou mais nada para eu conhecer.

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