Todos os livros, de amor?

Por Luiz Schwarcz
BLOG DA COMPANHIA

É interessante o que ocorre com a noção de tempo nos dias de hoje. Saí por duas semanas de férias, desliguei o e-mail da Companhia das Letras e recebi poucas mensagens no meu endereço pessoal. Fui para a Bahia, em dois locais diferentes: uma praia quase deserta e um local histórico, com mais agito ― agito do qual fugi, como diabo da cruz.

Quando não havia internet e o tempo corria mais solto, eu conseguia sair de férias por um período mais longo e realmente desligava. Com a digitalização da vida (e eu não tenho facebook, twitter ou instagram), fragilmente nos disponibilizamos por inteiro, o tempo todo, e duas semanas offline podem parecer uma eternidade. Várias pessoas me perguntaram: “Como? Você desligou seu endereço eletrônico?”. Para muitos, a vida hoje é compartilhada fulltime. Assim a ideia de férias, de reclusão, afastamento ou descanso não fica em pé, ou melhor, não se sustenta, nem mesmo sentada ou deitada numa cadeira de praia ou rede.

Pois para mim todos esses valores ainda existem, e tento preservá-los. E assim foi, na Bahia, onde reclusão significava, além de não encontrar ninguém socialmente, ler o que não publicarei, ou o que já foi publicado e não depende mais da minha opinião, do meu “imprima-se”.

Desta vez escolhi ler um clássico pelas manhãs — O grande Gatsby e A cartuxa de Parma —, e à tarde percorria A história da ópera, de Carolyn Abbate, que será publicado no fim do ano pela Companhia. Nesse último caso, segui o original acompanhado do Youtube, ouvindo as árias e trechos citados. De noite assistíamos a um vídeo e antes de dormir eu me distraía com alguns poemas de Drummond, autor que tento conhecer por completo.

Foi ótimo variar entre o amor enrustido de Jay Gatsby e as paixões bipolares de Fabrício del Dongo. Porém, a ordem da leitura talvez pudesse ter sido inversa, já que, entre a ostentação obstinada e silenciosa do personagem de Fitzgerald e as oscilações do jovem republicano de Stendhal, minha empatia se voltou muito mais para o primeiro, que li antes. Foi difícil me acostumar com o romantismo volúvel de Fabrício depois de haver me emocionado tanto com a paixão de Gatsby por Daisy, amor de espera, secreto e fiel por anos a fio.

Enquanto isso, minhas tardes eram recheadas por trechos de tantas outras cenas de amor: de Cleópatra por Giulio Cesare, de Tosca por Cavaradossi, de Isolda por Tristão, Mélisande por Pelléas, Salomé por Jokanaan, Mimì por Rodolfo, Violetta por Alfredo, apenas para mencionar algumas.

No final da temporada, Os filhos da noite, de Dennis Lehane, foi digerido em registro completamente diverso do esperado. Não consegui me preocupar com o desenlace ou o suspense magnífico, nem mesmo deslocar minha imaginação para as paisagens da Flórida (cenário inesperado para um romance policial sobre a máfia na era da depressão). Influenciado pelas minhas leituras prévias, absorvi o “thriller” de Lehane como mais um livro de amor. Tudo o que me interessava dizia respeito a Joe e Emma, ou a Graciela, a ponto de me perguntar se todos os livros, de uma forma ou outra, não são sempre grandes histórias de amor.

Essa pergunta ou frase de efeito com certeza já foi enunciada de forma mais consistente do que a minha, nesta despretensiosa crônica. Sei que há pouca originalidade na questão. O que me ocorre apenas é chamar atenção, mais uma vez, para a questão de como nascem os livros. Por acaso não estaria na profunda reclusão, na relação intensa do autor com seus personagens durante o longo caminho da escrita, uma possível explicação que traria luz à pergunta que fiz acima, já tantas vezes repetida? Não há como não amar (ou odiar por vezes) quem entra tão profundamente em nossas vidas. Como qualificar a relação entre quem escreve e quem ele escolhe para narrar, para usar sua voz e expressar sua imaginação? Autor, narrador e personagem são cônjuges, amantes, namorados, temporários ou não, dos quais surgem as histórias que lemos. Além da relação que criam entre si ser profunda e possessiva, capaz até de causar ciúmes em esposas, esposos e companheiros da vida real, tudo que acontece entre eles se dá no reino da surpresa, já que não pode ser previsto ou planejado — por mais que alguns autores comecem a escrever só quando a história aparenta estar totalmente fechada em sua mente.

A surpresa fecha a cadeia amorosa da escrita, e pode ampliar um pouco o efeito da frase que dá título a este texto. Mas sobre ela, a surpresa, falarei mais no meu próximo post.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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