Toma o livrinho e come-o

Esta frase até onde a minha memória não me trai, está escrita em um dos livros de Paulo Freire. O leitor avisado certamente para e a relê. É que além de abrir o texto de forma imperativa, ele emprega o verbo comer com o objeto direto nitidamente marcado/livro.

Magda Soares a respeito da transitividade do verbo ler, aponta que esse por ser um verbo transitivo, apresenta um processo complexo e multifacetado, visto que da natureza, do tipo e do gênero daquilo que se lê, e mais do objetivo que se tem ao ler.

Então ler um clássico, ler um jornal, ler uma carta, ler um poema confere ao verbo atitudes diferentes frente ao gênero escolhido.

Em literatura há uma recorrência constante ao mundo sinestésico. Sentem-se os sons, as imagens, os cheiros e os sabores das coisas, pois é, a linguagem estética permite esse jogo de sentidos que afloram os sabores e os saberes.

Barthes no decorrer do seu processo intelectivo, se percebia portador de um novo saber, ao qual dava o nome de sapiência: o saber saboroso. Sábio em suas raízes etimológicas, significa “aquele que degusta”.

E, nessa perspectiva, atesta que sapiência é “nada de poder, uma pitadinha de saber e o máximo possível de sabor.”

O capítulo nove do livro de Provérbios tem como título “O banquete da sabedoria” – em que Salomão propõe que se coma do pão e de que se beba do vinho.

Todo o capitulo evoca a reciprocidade entre essas palavras e o signo visual – impregnado de sabores.

Iguarias diante dos olhos

“E ali tudo se explicava: as coisas eram sentidas em seus afetos. Meu avô lia livros, minha avó cozinhava e eu ficava entre o saber e o sabor.

Em um passado próximo essa relação de comer-livro-sabor, acontecia de fato. É que na casa do meu avô o quarto dos livros, digo quarto dos livros, por que ali havia uma rede onde se deitava para degustar livros, ficava próximo à cozinha e de lá minha avó temperava a comida com o sabor de suas mãos – o alho fritando chegava até o quarto e imaginava onde seria misturado: feijão, arroz, frango, carne…

O mundo alinear da criança tem sua lógica própria. E ali tudo se explicava: as coisas eram sentidas em seus afetos. Meu avô lia livros, minha avó cozinhava e eu ficava entre o saber e o sabor.

Um dia lancei mão de um livro e meu avô não deixou que eu o “comesse” – tinha sabor para adulto. E de fato há comidas que são indigestas para a infância.

Aqui, tomo de empréstimo o comentário de Ana Maria Machado – quando conta em seu livro “Como e por que ler os clássicos”, a maneira que seu pai ia dando para ela, em pequenos bocados, a história de Dom Quixote. Ana nos diz que ele pegou o livro “grandalhão” e mostrou para ela as figuras em preto e branco. Depois, contou alguns episódios.

O interessante é que em ordem contraria a autora teve o seu primeiro contato com “O LIVRO GRANDALHÃO”. O próprio clássico, sem adaptações. Adiante ela fala do seu encontro com Dom Quixote adaptado para crianças de Monteiro Lobato.

Fica nítido que pode até se oferecer a criança, um prato que no primeiro momento desperte seu desejo, mas que será de difícil digestão visto que o paladar é jovem para tantos “temperos”. O importante é que todas as iguarias sejam postas diante dos olhos das crianças. A seu tempo.

Degustar textos

Cora Coralina, fina doceira, fez rescindir em seus poemas os cheiros dos doces que fazia. Em “As cocadas”, um conto para lá de saboroso, narra a história de uma menina que se arrepende de não ter devorado as cocadas quando ainda estavam quentinhas…

Nos versos pueris de Casimiro de Abreu há recorrências a gostos e cheiros: “Naquela doce alegria/A terra de aroma cheia/Ia colher as pitangas/Trepara a tirar as mangas”…

Assim, é que a percepção artística se encontra no cerne do ser, porque envolve o leitor em seu mundo sensitivo e se prolonga em ressonâncias infindas. Como ecos.

Aqui bem de perto, Angélica Vitalino, assessora do PROJETO RIO DE LEITURA, fomenta em jovens, crianças e adultos o prazer de degustar textos literários a cada encontro formativo. Torna-se mais fluente e influente no símbolo quem lida com ele.

Bom apetite!

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