Tomar as rédeas, definir o sentido

Por Carmen Vasconcelos

Muitos de nós, de vez em quando, nos pegamos estranhando o humano. Para esses momentos, temos um clichê muito repetido. Temos a sensação-clichê de viver tempos estranhos. Sou uma dessas. Diante do bizarro, do irracional, do nonsense, costumo pensar que vivo tempos estranhos. Mas, que tempos não seriam estranhos? Haveria tempos tomados pelo império da razão, do bom senso, ou, para usar uma imagem a mim muito cara, houve ou haverá algum tempo inundado de iluminismo?

Não, tais tempos só existem em um lugar de nostalgia dentro de nós. Nostalgia do que, na verdade, sequer existiu. Em todos os tempos, o bom senso conviveu com o absurdo, a razão com a irracionalidade, o pensamento com a recusa de pensar.

Então, todos os tempos são, na verdade, estranhos, ou o estranho habita todos os tempos, e em qualquer tempo a recusa a pensar suprime do humano a beleza que há em tomar as rédeas das nossas contraditórias emoções. Ao não pensar; ao abrir mão da autonomia de lidar com as nossas emoções (eventualmente com a feiura delas), ao delegar a outrem as perguntas para as quais só há respostas genuínas quando nós mesmos as descobrimos; ficamos à mercê de manipulações e perdemos a plenitude.

Os humanos lidamos com a possibilidade de entrega o tempo todo. Ter emoções é estar tendente a entregas. Estar exposto ao mistério (é da nossa essência) também nos leva a entregas. Em todas as situações, em todos os momentos, estamos e somos sujeitos de entrega.

Mas há (sempre houve) entregas muito estranhas. Humanas, demasiado estranhas. Há entregas que significam apenas perdas das possibilidades de definir-se. Não há como encontrar as veredas da completude, quando abrimos mão da autonomia de lidar com as nossas emoções, quando delegamos a outrem essa possibilidade. Ninguém, nenhuma instituição, é capaz de ir tão fundo em nós, quanto nós mesmos.

Os dogmas não definem o humano. Não é à toa que dogmas sempre estão ligados a forças sobre-humanas. A definição do humano é uma construção contínua que se faz com perguntas e reflexão.

Penso que a entrega da autonomia sobre as próprias emoções tem a ver com uma carência fundamental e impossível de ser suprida no ser humano. Essa carência é a nossa eterna busca pelo desvendamento do mistério sobre a nossa existência e a nossa talvez futura inexistência. Estar frente a frente com tal carência é a dor maior que há em nosso inconsciente – ou no consciente – coletivo.

Seria essa entrega feita a entidades sobre-humanas, ou a meros outros humanos, travestidos de mensageiros do além, muitas vezes ávidos de manipular nossa carência fundamental? É uma boa pergunta, que quase nunca é feita. Lançamo-nos ansiosos sob as asas de quem nos dite regras e nos dê a ilusão da quietude, desde que não precisemos nos perguntar sobre nós mesmos. Desde que não precisemos, nós mesmos, agarrar as rédeas do nosso existir, já que os corcéis que carregam as nossas emoções podem ser mesmo muito selvagens e nos precipitar no abismo.

Regras e dogmas não definem o humano, antes são definidos por ele. Nunca lembramos disso, antes de nos entregarmos a regras e dogmas. Como os humanos que os definem, regras e dogmas podem ser muito estranhos. Principalmente, alheios às perguntas essenciais e íntimas de outros humanos.

Por isso, me causam estranheza entregas dóceis e indistintas a dogmas e regras. Compreendo infinitamente melhor a entrega profunda às nossas perguntas fundamentais, cujas respostas nos fazem sujeitos das nossas próprias emoções.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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