Tomem ciência

Por Rafael Duarte
NO NOVO JORNAL

Fazia tempo que não assistia a um debate tão cretino como o que parte da imprensa se meteu de carona na crise que provocou o racha no Instituto Internacional de Neurociência de Natal.

Que por aqui, na mídia tradicional, não se pratica

o tal jornalismo científi co meu camarada Alex de Souza

já havia comentado outro dia. Aliás, a última pessoa que lembro

ter queimado uns neurônios para seguir por esse caminho

foi uma amiga, mas acabou desiludida com a falta de oportunidade

e, embora premiada, por esse e outros motivos preferiu

cantar no terreiro da assessoria de imprensa.

O que espanta nesse caso da neurociência é a forma pedante

como jornalistas, blogueiros e afi ns vêm se apedrejando

na ânsia de tomar partido numa discussão que se desenha

muito mais ideológica que partidária. Sim, há diferença entre

ideologia e partidarismo. E está bem distante das teorias da

conspiração.

Uma coisa, pelo menos, esse debate pobre tem mostrado:

o ego de um jornalista mal intencionado é bem maior que o de

um cientista em crise. Na troca de insinuações entre os senhores

da mídia, as frustrações profi ssionais dessa gente se revelam

muito mais que a pobreza do conteúdo dos seus argumentos.

Há quem não goste do neurocientista Miguel Nicolelis por

vários motivos. O aparente perfi l autoritário, a identifi cação

com o PT traduzida no apoio fi nanceiro ao Instituto, e até a

paixão pelo Palmeiras. A sacanagem é usar essas divergências

pessoais à distância para atacar o trabalho de um sujeito que,

goste você ou não, tem se destacado na área que domina. Nicolelis

peca por ser inacessível e, também por isso, despertou a

ira de uma gente que não aceita as criticas que ele faz ao poder

público local. Administrações que ignoraram o grande projeto

que dirige, diferente do que faz o Governo Federal desde que

Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez.

Mas Nicolelis não é milagreiro para virar santo nem merecedor

da capa mítica que veste as divindades sobre-humanas.

E o engajamento da mídia pró-Nicolelis nessa briga também

tem sido tão cego que não há espaço nem para o outro

lado da história sem a velha prática das insinuações e do patrulhamento

ideológico.

Sábado passado, encontrei o neurocientista Sidarta Ribeiro,

a outra ponta da polêmica, numa roda de capoeira na

UFRN. O perfi l do cientista que diz ter votado sempre em Lula

e na Dilma foi publicado na terça-feira. De lá para cá, por conta

da entrevista, virou “ídolo da fi na fl or da extrema direita

natalense”.

Não vou me meter na linha de pesquisa dos dois por pura

falta de conhecimento no assunto. O que eu sei é que já ultrapassou

o limite do bom-senso essa disputazinha não-me-toque

de beira de esquina. Tomem ciência disso: vocês são ridículos.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Cellina Muniz 5 de agosto de 2011 12:54

    Ótimo texto, Rafael!!! E tudo isso é só uma pequena mostra de como os doutos da Ciência e da Academia se comportam muitas vezes…

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