Toque de Exu para Bartleby

2012

minha vida não vale nada, e já pesa. os filhos perguntam:

“pai, você quer um mundo melhor?”

“fomos expulsos do mundo melhor.”

e calo.

eles insistem: “então que fazer dessa humanidade?”

“à humanidade só nos resta desertá-la.”

Lobo Errático

E assim nos suicida a sociedade, cravando primeiro suas unhas, derramando-se depois como uma bebida amarga e virulenta.  Se nosso organismo a assimila, o corpo ruína, mas somente quando rejeitada torna-se veneno e nos derruba em suicídio. Se a mão que executa a eutanásia ou o comprimido que garante a sobrevivência, tudo o que a tal sociedade já não produz é vida, em nenhum grau. Estamos reduzidos (os que ainda não sucumbiram) à biomáquina: a manutenção miserável dos corpos e dos sistemas que o sustentam: as bioasceses (dietas, rotinas de academia, baterias de exames), o espelho hiperreal (o sanduíche do mcdonalds é mais bonito na fotografia; onde está o umbigo da Fernanda Vasconcelos na capa da revista?; debaixo de que tapete esconder as rugas da madonna?), o autofascista synóptico (não mais a torre central de observação, o que há é uma “casa mais vigiada do brasil” instalada no corpo, the big brother into you). A saúde dominante e bombada é a doença venérea na genitália hiperestimulada da modernidade líquida, escorrendo para os corpos – arquitetura, ortopedia, gatilho biológico, procedimento audiovisual. A vida é já uma hiroshima, terra infértil, caatinga existencial. A sociedade está cada vez mais ocupada em produzir existência-trapo, lumpencorpus: e somos nós os craqueiros, as prostitutas, os feios e gordos, aberrações, esquizofrênicos, anormais. Gramacho é o nosso retrato – mas não o lixão perfurmado do filme de Vik Muniz e da propaganda da Coca-Cola.

Mas Estamira contém uma saúde. A força do artista da fome é o fato de que nada que está disponível o apetece. O lumpencorpo é, ao mesmo tempo em que o resíduo miserável da sobrevida contemporânea, a potência mesma para a desagregação desta, à medida que, em sua incompatibilidade, produz posturas extraviadas, formas desniveladas de vida, vozes dissonantes. O inumano é pós-humanidade em potencial. É o incompatível que suscita a pressão capaz de demover as bordas do instituído. Quando a sociedade nos reduz, eis que resta uma potência inaudita prestes a explodir: o feio que se desnuda ataca a vida nua, o lumpencorpo que se rebela contraria a lumpenvida à qual estamos todos (De Caprios e Bündchens também) subjugados. A sociedade do nosso tempo produziu tecnologias narcóticas as mais avançadas para impermeabilizar a existência, destitui-la da vida, mas fracassou – e fracassa: a pulsação errática das baratas remanescentes da hiroshima simbólica, a potência contida em cada aleijo, em cada corpo fora da rota, é a sensibilidade – o poder de afecção – contradita à saúde excludente dos dentes brancos, barrigas saradas e mentes míopes. Trata-se então de converter abjeção em enfrentamento, fazer da consternação revolta. Minha fraqueza é minha força; meu cu, minha bandeira.

Avante, manco!

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