Toscas anotações do exílio – III

E aí foi que eu percebi que havia alguém comigo na ilha. E não era somente a minha solidão, eterna companheira. Vinha de dentro da mata, cantarolado uma canção de ninar. Diabolicamente. E não era a minha mãe. Nem o meu pai. Era uma mulher tão bela quanto aquele quadro que se destacava na ilha. Azuis, verdes, dourado do sol, vermelho-sangue. Era ela, meu desejo. Meu desejo todo e torto. Mas, ela não era  torta. Era perfeita. E corri ao seu encontro, como naqueles filmecos ou finais ridículos de novelas globais. E tasquei-lhe um beijo na boca que nem percebi. E ela? Nem sei se percebeu, também, tão distraída que estava. Tão alheia ao mundo ao redor. Afinal, sua beleza já criava um campo eletromagnético que a ilhava na ilha. E o que eu fiz? Nada. Nadicas. Nadinha. Continuei com aquela figura mística entre os meus braços e beijava, beijava, beijava… Até que ela pediu um momento. E eu dei, recuando o rosto e olhando, fundamente, no fundo de seus olhos negros, docemente negros. Foi, então, que disse: “-Engana-te. Não sou o que queres. Não sou o que mereces.” E se foi, retornando por entre as veredas formadas por coqueiros e a vegetação fechada. E aí, nada entendi e tudo entendi. Meu desejo ainda não era palpável. Meu desejo era belo demais para ficar entre os meus braços e beijos. E eu teria, ainda, que aguardar. Um náufrago, aguardando a embarcação de salvamento. Mas, a minha companheira real, a solidão, ainda me prestaria muitos de seus serviços…

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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